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Obesidade contagiante

Silvia Campolim

Se um obeso dissesse que ganhou aquele peso todo como se pega uma gripe você não acreditaria, certo? Mas o endocrinologista de origem indiana Nikhil Dhurandhar e seu chefe Richard Atkinson, da Universidade de Wisconsin, em Madison, Estados Unidos, estão considerando seriamente essa possibilidade: a de que certos tipos de obesidade podem, de fato, ter origem em vírus. Nikhil está tão convencido que fechou sua próspera clínica para tratamento de obesidade em Bombaim, na Índia. Não, não foi por causa de clientes: ele mudou-se com a família para os Estados Unidos em busca de apoio material e científico para aprofundar suas pesquisas. Encontrou a parceria ideal no Laboratório de Estudos da Obesidade, da Universidade de Wisconsin. Atkinson, especialista no assunto, já desconfiava que alguns tipos de vírus provocam excesso de peso em cães ao desregular parte do sistema cerebral que controla o apetite. Nikhil apresentou a ele o vírus SMAM-1, responsável por uma epidemia que matara centenas de galinhas em uma área rural perto de Bombaim em anos anteriores. Uma característica da obesidade originada por vírus seria o ganho de peso dissociado de altas taxas de gorduras como o colesterol e os triglicérides. As galinhas indianas vitimadas pelo SMAM-1 eram assim: gordas, mas com baixos níveis de colesterol e de triglicérides. Proibido pelo governo americano de importar o SMAM-1 para estudá-lo nos Estados Unidos, o médico indiano selecionou um grupo de vírus da mesma família para testar em células de ratos de laboratório. Foi como descobriu o vírus Ad-36, que tornou as células três vezes maiores do que as não-contaminadas. Infectados com o Ad-36, os ratinhos passaram a desafiar as balanças.

O médico-chefe da clínica de endocrinologia do Hospital das Clínicas de São Paulo, Alfredo Halpern, que conhece Atkinson de congressos internacionais e respeita seu trabalho, acha provável que exista mesmo esse processo viral. “O vírus provocaria a inflamação do hipotálamo, glândula que regula o metabolismo do corpo humano”, diz. Com o órgão comprometido, a pessoa passa a comer mais ou a gastar menos calorias do que o ideal para o equilíbrio de seu organismo. Os dois cientistas de Wisconsin acreditam que o vírus que infectaria os humanos é do mesmo grupo que contamina as galinhas, pois detectaram anticorpos a ele em vários obesos que examinaram em Wisconsin. “Se estão no caminho certo, o desenvolvimento de uma vacina vai resolver esse tipo de obesidade no futuro”, afirma Alfredo.