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Os sonhos que você esquece são os mais importantes para o aprendizado

Sonhar com as fórmulas da prova de física e lembrar do sonho, infelizmente, não significa que você aprendeu

Esta situação já pode ter acontecido com você: quando resolveu que viraria a noite estudando, sua mãe falou: “precisa dormir, senão não aprende”. Como de praxe, ela tinha razão. E cientistas suíços, da Universidade de Friburgo, descobriram que aqueles sonhos sem graça, que temos durante os estágios mais profundos do sono e nem lembramos, são os mais importantes para o aprendizado.

Quando dormimos, nossas ondas cerebrais diminuem gradativamente de velocidade e vamos entrando aos poucos em estágios mais profundos do sono. É nessa fase mais profunda que começam a ocorrer os sonhos – mas eles são bem mais simples e vagos do que seus sonhos mais memoráveis.

Depois disso, o sono fica um pouco mais leve e se atinge o REM (rapid eye movement, ou movimento rápido de olhos). Nesse estágio, o cérebro está tão ativo quanto o de uma pessoa acordada. E os olhos, como você deve ter imagino, também se agitam. O REM é o reino oficial dos sonhos: nesse estágio é que eles ganham uma dimensão mais complexa. Até parecem historinhas, das quais tendemos a nos lembrar mais facilmente. Esses dois estágios do sono (profundo e REM) se alternam ao longo da noite.

Mas aí vem a questão: os cientistas descobriram que os sonhos simples, ocorridos no sono não-REM, são essenciais para ficarmos mais inteligentes. Ou seja, aquele sonho louco no qual você era perseguido por um dinossauro no meio da rua, que você acorda contando pra todo mundo, pode até ser engraçado, mas não influencia em nada na sua cognição.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores recrutaram 22 voluntários e pediram que todos aprendessem uma lista de 100 palavras, que estavam ligadas a uma série de imagens. A palavra “árvore”, por exemplo, estava associado à figura de uma criança sentada em uma cadeira.

Na hora de dormir, a equipe usou aparelhos para acompanhar em que estágio do sono cada participante estava. Durante toda a noite, o time acordou os voluntário e perguntou sobre o que eles estavam sonhando exatamente naquele momento. Isso foi feito tanto quando eles estavam em sono profundo (sonhos bobinhos) quanto em sono REM (sonhos complexos).

No dia seguinte, os pesquisadores testaram a memória dos participantes, para saber se eles lembravam da lista de palavras-imagens decoradas. Olhando os temas dos sonhos que os voluntários tiveram na noite anterior, os cientistas perceberam que sonhar com uma imagem da lista melhorava o desempenho de memória no dia seguinte. Mas não bastava sonhar em qualquer momento – tinha de ser durante o sono profundo.

Ou seja: se durante o sono REM, você e o seu dinossauro passassem por uma criança sentada em uma cadeira, seu desempenho no jogo da memória não melhoraria nadinha. Para aprender durante o sono, era preciso que a criança (ou a árvore) surgissem durante a fase mais boba dos sonhos.

Em um segundo teste, os voluntários receberam uma nova tarefa de memória e depois dormiram sem serem incomodados. Eles contaram à equipe sobre os sonhos que lembravam na manhã seguinte (aqueles mais memoráveis, que tinham acontecido no sono REM). De novo, as imagens da nova tarefa não apareciam nos sonhos. Nada de aprendizado.

Os resultados são a primeira prova de que sonhar com as coisas durante o sono não-REM pode ser mais importante do que no sono REM. Sua mãe estava certa, você precisa dormir para aprender. Mas sonhar com as fórmulas de química dentro de uma história emocionante talvez não te ajude tanto assim na prova do dia seguinte.