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Ouça o “canto magnético” da Terra durante uma tempestade solar

Analisando dados da Agência Espacial Europeia, cientistas sonorizaram as ondas magnéticas que a Terra produz ao receber intenso fluxo de partículas solares

Mesmo separados por uma distância de quase 150 milhões de quilômetros, a Terra e o Sol estão entrelaçados de diversas maneiras. Processos que ocorrem dentro da nossa estrela impactam diretamente as condições aqui em nosso planeta. Uma das maiores influências ocorre no campo magnético terrestre, quando ele interage com as partículas detentoras de carga elétrica emanadas pelo Sol – e os cientistas acabam de revelar o “som” dessa interação.

Há sempre um fluxo constante dessas partículas soprando em meio aos planetas e tudo o que existe entre eles: é o chamado vento solar. Na maior parte do tempo, é só essa “brisa” que chega até a Terra. Mas, às vezes, essa calmaria é interrompida por violentas erupções na superfície do Sol, que lançam rajadas muito mais intensas de partículas ao espaço — são as famosas tempestades solares.

Pesquisadores europeus investigaram o fenômeno. Enquanto analisavam o arquivo de dados de uma antiga missão da Agência Espacial Europeia (ESA) para estudar o comportamento magnético da Terra, eles notaram que havia ali o registro de seis tempestades solares, que atingiram nosso planeta entre 2001 e 2005. Os quatro satélites sincronizados da missão Cluster captaram o que acontece no momento em que a ventania solar incide sobre a zona limítrofe da magnetosfera terrestre (em inglês, “foreshock”).

Um dos desdobramentos é a geração de ondas magnéticas bastante intrincadas que se espalham em direção à Terra. O estudo detalhado das primeiras observações já feitas dessa interação foi publicado nesta terça (19), no periódico Geophysical Research Letters. Mas os cientistas foram além — converteram as ondas magnéticas em ondas sonoras. Os áudios mostram o “canto” de nosso planeta ao ser atingido por uma tempestade solar.

Show ensolarado

A equipe disponibilizou dois clipes distintos: um que reproduz as condições magnéticas em tempos de calmaria, e outro que mostra como são as coisas quando o Sol acorda zangado. É fácil notar as diferenças. Só sob o vento solar, a oscilação das ondas é menos complexa, seguindo uma única frequência em tom mais baixo (ouça aqui). Já em dias de ventania solar, a onda dobra de frequência, passando a seguir padrões bem mais complexos e mais altos (ouça aqui).

Toda essa ressonância de ondas magnéticas é empurrada rumo ao planeta por conta da pressão exercida pelas partículas solares. Mas, antes de adentrarem nossa atmosfera, elas são desaceleradas por uma outra região da magnetosfera: o chamado choque em arco (bow shock). Funciona como uma espécie de freio para o vento solar. Ambas as camadas, foreshock e bow shock, deixam suas marcas nesse maremoto magnético.

Assim, as ondas chegam ao solo bastante modificadas. Só que o processo é bem rápido — leva mais ou menos 10 minutos. “Nós já contávamos com uma mudança na frequência, mas não no nível de complexidade da onda”, explicou em comunicado a líder do estudo, Lucile Turc, ex-pesquisadora da ESA e atualmente vinculada à Universidade de Helsinki, na Finlândia. Sua equipe criou um modelo de computador para simular os padrões.

Esse tipo de pesquisa faz parte de uma área chamada clima espacial, que tem ganhado cada vez mais relevância. Afinal, é imprescindível compreender melhor tanto a natureza quanto o comportamento do Sol – e como ele influencia nosso planeta. Tempestades solares podem causar graves prejuízos, comprometendo tecnologias como redes elétricas e satélites. Além disso, é também um jeito de entender o universo, já que campos magnéticos estão por toda a parte.