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Países em extinção

Com o nível do mar cada vez mais alto, ilhas paradisíacas do Pacífico Sul estão desaparecendo.E os moradores estão se transformando nos primeiros refugiados do aquecimento global.

Texto Giovana Vitola

As ilhas paradisíacas do Pacífico Sul estão sumindo. Em poucos anos, algumas delas devem ficar desertas: cansados das freqüentes inundações, os moradores estão indo embora. Entre as 12 nações-arquipélagos da região, duas estão em alerta máximo. Com a elevação do nível do mar, os países de Kiribati e Tuvalu podem ser engolidos pelo mar, saindo do mapa de vez até o fim deste século. Hoje, quem mora nessas ilhas conhece paisagens bem diferentes das fotos turísticas. No começo do ano, marés altas provocam inundações a toda hora. A água invade as casas e causa erosões. Com as raízes atacadas dia a dia pelas ondas, as palmeiras estão caindo. Quando a maré sobe, poças d’água surgem repentinamente, espalhando o lixo pelas ruas de areia. Em algumas regiões, já é possível atingir água cavando apenas 1 metro de profundidade. O governo dos dois países já preparou um programa de emergência para arranjar alojamento para seus 115 mil moradores, os primeiros refugiados do aquecimento global.

O fenômeno é uma das provas dramáticas do aquecimento da Terra. Com a temperatura do planeta 0,7 oC maior no último século, as calotas polares derretem e o nível do mar aumenta. No Alasca, as ruas feitas de gelo há séculos estão esburacando e derretendo. Na Antártida, placas de gelo do tamanho de cidades se descolam com freqüência cada vez maior. O efeito é ainda mais incômodo para quem vive em lugares como Tuvalu, o 4o menor país do mundo, onde o ponto culminante tem 5 metros de altura e a largura das ilhas não passa de 500 metros. “Com todos os fatores que temos vivenciado, Tuvalu irá lentamente erodir nos próximos 40 ou 50 anos”, afirma Tauala Katea, cientista do centro meteorológico de Tuvalu. A ironia é que pequenas nações como essa contribuem pouquíssimo com a poluição ou com o aquecimento do planeta.

Em Tuvalu e Kiribati, os moradores importam 80% do que comem. A economia de Tuvalu depende da remessa de dinheiro dos tuvaluanos que moram no exterior e da venda do domínio de internet “.tv”. Em 1998, o país recebeu de emissoras de televisão americanas US$ 50 milhões por poderem usar o “.tv” por 12 anos no endereço da internet. Até o século 19, Tuvalu foi colônia espanhola, com milhares de habitantes levados ao Peru e à Bolívia como escravos. Depois, os dois países se tornaram colônias britânicas – Tuvalu faz parte da monarquia britânica até hoje. Durante as batalhas do Pacífico na 2ª Guerra Mundial, Kiribati foi invadido pelo Japão. Depois, abrigou testes nuclea­res americanos. Aconteceram ali testes de bombas de hidrogênio que assustaram o mundo na década de 1950 por serem 5 mil vezes mais potentes que a bomba lançada em Hiroshima em 1945. Hoje, os dois países abrigam pescadores e artesãos. As mulheres andam na rua com suas blusas e saias largas e coloridas, e até as autoridades vestem-se à vontade, como o presidente de Kiribati, que concede entrevistas de camiseta simples e chinelo. As crianças passam o dia nos coqueiros e na praia. No entanto, todos percebem o que está acontecendo com o seu paraíso particular.

Perigo em casa

O pior acontece entre os meses de janeiro a março, quando marés altas são mais comuns. As ruas de Tuvalu ficam freqüentemente alagadas e algumas casas, cobertas por água. A fúria do mar, cada vez mais freqüente, chega muitas vezes a ultrapassar as barreiras de cimento que protegem estradas entre uma ilha e outra. Diques estão espalhados por toda parte, na esperança de conter a água. Se há aumento repentino da maré, plantações de bwabwai (raiz rica em amido, um dos principais cultivos de Kiribati) ficam alagadas de repente. Quando o nível do mar volta ao normal, deixa a terra salgada, secando as árvores e fazendo com que arbustos mais resistentes ocupem a terra.

A situação fica mais preocupante porque o começo do ano coincide com a época de ciclones tropicais na região. Como a maioria das ilhas é redonda e formada por corais, quando um ciclone aparece não há para onde correr nem o que salvar. Já foram registradas ondas de 3,48 metros de altura em Tuvalu.

Em Kiribati, a erosão costeira está em todos os lados. Uma série de tempestades em 2001 fez com que algumas ligações entre as ilhas desaparecessem. A ilha de Tepuka Savilivili, do arquipélago de Tuvalu, teve suas últimas palmeiras arrastadas e foi encoberta pelas ondas depois de um ciclone. Para conter o avanço da água, os moradores fazem proteções na beira-mar, que precisam ser freqüentemente refeitas. Mas as ilhas não estariam a salvo nem se paredes indestrutíveis a cercassem. Como o solo é poroso, a alta das marés força a água subterrânea para cima. É por isso que acontecem inundações repentinas e poças d’água surgem mesmo em dias claros. Esse movimento é contido pelos recifes de corais que circundam todas as ilhas do Pacífico Sul. O problema é que, também por causa do aquecimento global, os corais do Sri Lanka até a Nova Zelândia estão morrendo.

Com a água nos pés, os moradores se batem até para lidar com os mortos. Em 2004, a kiribatiana Wanita Limpus teve que exumar o corpo do avô, enterrado na ilha de Betio, uma das maiores do país. “Em vez de encontrarmos o corpo do meu avô, encontramos água, a só 1 metro de profundidade”, diz ela. Hoje morando na Austrália, Wanita se impressiona com a força do mar sempre que volta ao país de origem. “A água cada vez mais invade as casas.” Os cientistas locais confirmam a impressão dos moradores. “O nível do mar está subindo continuamente nos últimos anos”, afirma Nakibae Teuatabo, da Unidade de Mudança Climática do Ministério do Meio Ambiente do país. Segundo ele, em algumas ilhas o índice de erosão chega 2,5 metros por ano. “Quanto à temperatura das ilhas, estamos certos de que ela também aumentou.”

Ciência urgente

Segundo dados dos últimos 50 anos, coletados pela Universidade do Havaí, o nível do mar na região vem se elevando 1,07 milímetro por ano, em média. Outras medições falam em 0,8 milímetro anualmente. Em 1992, o Centro Nacional Australiano de Meteorologia iniciou um megaprojeto para coletar dados marítimos indiscutíveis. O sistema tem estações de medição em 12 ilhas do Pacífico Sul, cada uma com sensores acústicos, medidores de temperatura, pressão, e métodos para descontar do cálculo marés e movimentos das placas continentais da Terra. “Mas ainda é cedo demais para obter estatísticas em longo prazo da alteração do nível do mar na região”, afirma Nick Harvey, professor de Estudos Ambientais da Universidade de Adelaide, Austrália.

Também é provável que a população das ilhas tenha sua parcela de culpa pelo que acontece em casa. Para o oceanógrafo John Hunter, do centro de pequisas australiano Antarctic Climate and Ecosystems, o aumento de eventos como alagamentos insulares pode estar vinculado ao aquecimento global, mas talvez não. “Nós simplesmente não podemos confirmar nada no momento. Os problemas de Tuvalu com o nível do mar e a salinidade são complexos e podem ter múltiplas causas”, diz ele. Outras influên­cias poderiam ser ondas mais altas devido a tempestades, redução da chuva, aumento da erosão costeira por causa de construções em locais inadequados, o uso demasiado de água doce e a falta de tratamento de esgoto. “Todos esses fatores estão relacionados.”

Hora de dar adeus

Com o mar subindo ou não, por causa do aquecimento global ou não, o fato é que a perspectiva para o futuro dos países-ilhas não é animadora. O Pacífico Sul está numa das mais fortes áreas de calor do planeta, o que faz o nível do mar lá ser 9 milímetros maior que a média dos oceanos. Até o fim deste século, a temperatura média do mundo pode aumentar 5,8 oC e o nível do mar subir até 48 centímetros. Com essa elevação, ilhas que estão apenas cerca de meio metro acima do mar sofrerão com permanentes inundações. A erosão nas áreas costeiras também deve aumentar, destruindo algumas ilhas por completo. A melhor opção é adaptar-se às mudanças climáticas da Terra, ou seja: ir embora de lá. “Mais cedo ou mais tarde, as ilhas dessa região deverão ser abandonadas”, afirma John Hunter.

Já estão sendo. Sem esperança de que a situação melhore, o governo dos dois países preparou uma retirada gradual. Há uma comunidade kiribatiana em Brisbane, na Austrália, com os cerca de 60 primeiros refugiados do aquecimento global. Dois em cada 10 tuvaluanos estão vivendo fora do país, a maioria deles em Auckland, Nova Zelândia. A comunidade de Tuvalu é a que cresce mais rápido por lá. Os dois países seguem procurando abrigo. O problema é que nem sequer os vizinhos ajudam. Há 10 anos, o governo australiano proibiu que refugiados de Tuvalu e Kiribati mudassem para a Austrália. Em contrapartida, na Nova Zelândia há uma cota de 75 refugiados para ingressar por ano – nesse ritmo, levaria 1 200 anos para toda a população evacuar o país.

Como a maioria dos moradores tem uma vida típica de nativos de praia, quando decidem ir embora das ilhas, são obrigados a mudar também de estilo de vida. “Aqui você tem que ter um salário. Tudo é um desafio. Tudo custa dinheiro”, afirma Telaki Taniela, um tuvaluano de 32 anos que mora em Auckland. Telaki passou a infância brincando na praia de Funafuti, capital do país, onde as únicas coisas que precisava saber era como pescar e como subir nos coqueiros das ilhas. Em 1997, ele resolveu fugir do aquecimento global com toda a família. Quando chegou ao território neozelandês, decidiu abrir um mercadinho para sustentar os filhos e a mulher. “Antes bastava pescar para a gente sobreviver”, afirma. “Mas, como não quero acordar um dia dentro d’água, tive que vir para cá.”

Por isso, um sentimento de melancolia toma a comunidade tuvaluana na Nova Zelândia. Fala Haulangi, uma líder dos exilados de Tuvalu em Auckland, resolveu montar um programa de rádio semanal sobre a cultura tuvaluana. Sua principal preocupação é os moradores perderem a identidade com o país. “O que eu vou ser se meu país desaparecer? Sou de Tuvalu, um país que não existe mais”, diz ela. Leilani Gosschalk, uma tuvaluana que também vive na Austrália, passou a infância na ilha de Tepuka Savilivili, que hoje não existe mais. “Acho inevitável que nossa cultura e nossa terra acabem”, diz.

Para saber mais

• High Tide – Mark Lynas, Picador, 2003

http://www.bom.gov.au/oceanography/ – Bureau de Meteorologia da Austrália