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Parado no tempo: A descoberta do peixe-dinossauro

Celacanto, o peixe-dinossauro, desafia a evolução das espécies e a imaginação do homem

Carla Aranha

Uma das maiores descobertas da zoologia no século 20 foi feita passo a passo. Tudo começou em 1938, quando um pescador fisgou um peixe diferente no Oceano Índico, na costa da África do Sul. O peixe era tão estranho que foi parar no museu marítimo local. Por comparações com fósseis, chegou-se a uma conclusão fantástica: tratava-se de um ser pré-histórico, o celacanto, originado há 410 milhões de anos e que se imaginava extinto há 65 milhões de anos. Chamada de “fóssil vivo”, a criatura é um parente próximo dos peixes que saíram do mar e se tornaram répteis em terra firme, dando origem, entre outras coisas, aos seres humanos. Mas o máximo que se sabia era sua idade aproximada.

No ano 2000, o cientista alemão Hans Fricke, um dos maiores estudiosos do celacanto, descobriu uma colônia inteira do peixe no fundo do mar, na costa da África do Sul, a mais de 200 metros de profundidade. Foi a primeira vez que se pôde observar vários peixes-dinossauros juntos. Sensores elétricos colocados nos celacantos permitiram estudar seus hábitos, que são bem diferentes dos de outras espécies marinhas e fluviais. Eles têm, por exemplo, um timing único entre os peixes. A cada final de tarde saem das cavernas onde moram, no mesmo horário, para buscar comida – geralmente, peixes pequenos. Também foi possível observar in loco seus movimentos. E os cientistas envolvidos no estudo da evolução das espécies vibraram: as nadadeiras do peixe-dinossauro movem-se de um jeito parecido ao dos braços e pernas dos humanos.

Os celacantos também conseguem levantar um pouco a cabeça, graças a um simulacro de espinha dorsal – como nos mamíferos –, além de terem um rabo largo e comprido jamais visto antes em outro peixe. O celacanto pode medir mais de 1,5 metro e pesar 90 quilos. Os estudos continuam. Fricke e cientistas dos mais renomados centros de pesquisa do mundo agora querem descobrir como o celacanto conseguiu sobreviver ao fenômeno que provocou o desaparecimento dos dinossauros, há 65milhões de anos, e de que forma ele se relaciona com a cadeia evolutiva que deu origem ao ser humano. Num futuro próximo, o velho ditado “filho de peixe, peixinho é” deverá se tornar mais popular do que nunca.

O impacto da descoberta

A colônia de peixe-dinossauro encontrada nas profundezas do Oceano Índico, em 2000, lançou luz sobre uma espécie que está diretamente relacionada ao processo evolutivo que deu origem ao homem

Parentes

Primos mais evoluídos foramencontrados na Indonésia

Em 1998, os cientistas Mark Erdmann e Roy Caldwell, da Universidade de Berkeley, na Califórnia (EUA), descobriram, para surpresa geral, uma nova espécie do peixe-dinossauro na Indonésia. Até então, acreditava-se que o celacanto vivia apenas nas águas da África do Sul, no Oceano Índico, onde havia sido encontrado inicialmente. Testes de DNA indicaram se tratar de um parente evoluído, originado entre 4 e 6 milhões de anos atrás. É uma descoberta importante não apenas para a biologia, mas também para a geologia.

Separados por 10 000 quilômetros de oceano, distância entre a África do Sul e a Indonésia, os primos apresentam nove características físicas diferentes, checadas em testes de DNA. Segundo os cientistas, deve ter havido um impactante evento geológico capaz de ter afastado as espécies há mais de 6 milhões de anos. “Os testes mostraram que os primos mais novos evoluíram, enquanto os mais antigos pouco ou nada mudaram, o que denota que eles foram separados”, diz Erdmann.

Os cientistas continuam escarafunchando as profundezas do Índico, na Ásia e na África, em busca de novas colônias do peixe-dinossauro – hoje, estima-se que existam 1 000 exemplares, principalmente na costa africana.