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Planeta Frankenstein

Cabra com aranha, ovelha com vaca, gente com grilo, frangos de três asas... Da manipulação genética podem sair coisas que você nem sequer imagina. A questão é: queremos isso?

No começo de outubro último, a editora Lookout, da cidade de Nova York, reuniu 39 artistas contemporâneos com uma missão: retratar o futuro da biotecnologia. Entre quadros, esculturas e instalações, a exposição Paraíso Agora: Descrevendo a Revolução Genética transforma em imagens aqueles conceitos que os cientistas expressam com fórmulas e diagramas nem sempre fáceis de entender.

O resultado foi curioso. Como será o galo do futuro? O pintor americano Alexis Rockman pintou um bicho equipado com três asas (para fanáticos por canja com asinha de frango?) sem uma única pena no corpo (para facilitar na hora de ir para a panela).

No que diz respeito aos humanos, também não faltam sacadas na exposição. Segundo o artista espanhol Iñigo Manglano-Ovalle, os espermatozóides serão divididos em dois tipos distintos, para facilitar na escolha do sexo dos filhos: se o espermatozóide for azul, nasce menino, se for cor-de-rosa, menina. Simples assim.

O objetivo dos organizadores da mostra era despertar a atenção das pessoas para o potencial dessa nova tecnologia. Por mais que apareça em reportagens de televisão ou em jornais, a biotecnologia ainda parece coisa de ficção científica. Tente explicar para um homem do campo que um dia poderemos ver um galo com mais de duas asas…

Divulgar o potencial da biotecnologia é objetivo tanto dos que a têm como a solução para o problema da fome, como cientistas e empresas de alimentos, quanto dos que nutrem pelos transgênicos um medo atávico. Diversas organizações não governamentais, as ONGs, de todas as partes do mundo vêm reclamando dessa falta de interesse da sociedade para com o tema, mesmo depois do aparecimento de todas as Dollys, Pollys e ratos com orelha humana.

O Greenpeace, por exemplo, recentemente tentou dar uma chacoalhada por aqui, ao divulgar uma lista de produtos que circulam pelas mesas dos brasileiros e que conteriam algum tipo do que consideram contaminação transgênica. Na lista estavam alimentos produzidos por grandes fabricantes, como Sadia, Knorr e Arisco.

Essa turma está preocupada com a possibilidade potencialmente infinita de misturar tudo com tudo para gerar qualquer coisa. Um dos exemplos mais esquisitos é a cabra-aranha da empresa canadense Nexia Biotechnologies. Trata-se de uma cabra aparentemente comum, mas cujo leite contém as mesmas proteínas que constituem a teia dos aracnídeos. A teia das aranhas é feita de material proporcionalmente mais resistente que o aço. A idéia é retirá-lo do leite de cabranha (ou seria arabra?) para produzir materiais ao mesmo tempo maleáveis e superresistentes. Recentemente, começou a expectativa de aprovação do supersalmão, uma invenção da companhia americana Aqua Bounty Farms. Alterado geneticamente para produzir uma quantidade descomunal de hormônios de crescimento, o frankenfish, como foi batizado pelos ambientalistas, poderá atingir o tamanho adulto na metade do tempo normal.

O supersalmão e a cabra-aranha são apenas alguns dos elementos que formam uma nova grande área da economia, a dos pharm animals. O termo é uma brincadeira que mistura as palavras pharm (farmacologia, em inglês) e farm (de mesma pronúncia, mas que significa fazenda). Que outros pharm animals virão? Cachorro com vaca? Gente com grilo? Pulga com guarda-roupa? Dinheiro para experiências não falta. Só no primeiro trimestre deste ano o setor movimentou 3,8 bilhões de dólares nos Estados Unidos, quase o triplo do mesmo período de 1999. Sabe-se lá o que pode sair dos experimentos das empresas especializadas em biotecnologia.

“Não há limites”, afirma François Pothier, biólogo da Universidade de Laval, no Canadá, que trabalha na produção de drogas em porcos. Para Pothier, o principal objetivo desse gênero de pesquisa é fazer dos animais domesticáveis, como cavalos e ovelhas, geradores baratos de elementos escassos na natureza, ou difíceis de ser sintetizados, como certos antibióticos e proteínas. “Apesar de não parecer, os suínos são fisiologicamente muito próximos aos humanos”, afirma Randall Prather, cientista da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. “Há muito interesse em utilizá-los como doadores de órgãos.”

Essa teoria já foi posta em prática, com grande sucesso, com a produção em grande escala de insulina humana com a ajuda de bactérias. Nos Estados Unidos e no Canadá não faltam laboratórios privados e universidades apostando na biofabricação como a mina de ouro do futuro. Um levantamento do banco Morgan Stanley Dean Witter afirma que em 2020 as drogas geradas da manipulação genética representarão 30% do faturamento de todo o setor farmacêutico.

A Universidade de Guelp, no Canadá, desenvolveu uma galinha que gera antibióticos. A empresa americana Pharming Incorporated criou uma vaca cujo leite contém lactoferrina, proteína humana utilizada no tratamento de infecções. Já a escocesa PPL Therapeutics conseguiu uma ovelha que fabrica antitripsina, droga que combate a fibrose cística, doença genética causada por um distúrbio em diversas glândulas do corpo. A biomanipulação não se restringe à fabricação de remédios. Há pesquisadores tentando transformar os animais em produtores de todo tipo de coisa, de fibras a detergentes. Um exemplo: além da galinha sintetizadora de antibióticos, a Universidade de Guelp também produziu um porco que filtra o fósforo do próprio excremento, resultando num adubo menos poluente.

Dos produtos da biotecnologia, nenhum está tão próximo do consumidor quanto os alimentos transgênicos. Sua principal vantagem é o poder de colocar em cada planta as propriedades que desejamos, como crescimento acelerado, maior produção de vitaminas, ou simplesmente conseguir frutos maiores. Enquanto alguns deles ainda estão apenas no papel, outros já circulam com bastante desenvoltura pelo comércio, como a soja Roundup Ready, da Monsanto (resistente a pesticidas), e o milho Bt, da Novartis (imune a insetos predadores).

Alguns transgênicos podem até servir de vacina para a população. O Brasil é pioneiro no assunto, com sua alface dotada de vacina contra leishmaniose (doença que contamina 12 milhões de pessoas no mundo por ano). A invenção é da Embrapa em cooperação com a Universidade Federal de Minas Gerais e leva vantagem sobre experimentos semelhantes feitos no exterior justamente pela escolha da planta. Já se pensou em colocar vacinas nas batatas, mas, na hora de cozinhá-las, todo seu princípio se perdeu. Tentativas com banana foram igualmente malsucedidas, uma vez que elas demoram tempo demais para crescer. A alface, por outro lado, cresce rápido e é consumida crua.

Animado? O futuro da alimentação transgênica pode não ser tão tranqüilo assim. Um controverso estudo da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, publicado na revista Nature de maio, revelou que o milho transgênico mata as larvas da borboleta monarca. E qual é o perigo, mesmo hipotético, de um inseto morto? Simples: a natureza é uma cadeia interligada que funciona bem há milhões de anos. Meter o dedo no meio dessa rede e criar um personagem novo pode causar modificações imprevisíveis, como animais mutantes que nascem com modificações genéticas para se proteger do fator estranho introduzido pelo homem. Se começarmos a fazer uma salada genética sem controle corremos o risco de, sem querer, provocar alterações ambientais capazes de colocar nossa própria sobrevivência em risco. “Transgênicos têm tudo para vir a ser o maior dos nossos medos”, afirma John Matheson, cientista do Centro de Medicina Veterinária do F.D.A. americano, o órgão que determina que drogas ou alimentos podem circular dentro dos Estados Unidos.

Para os defensores da causa, todo esse alarde não tem razão de existir. Diferentemente de Matheson, eles enxergam os transgênicos como um processo 100% benéfico e até natural. “Nos últimos 10 000 anos os homens vêm cruzando intencionalmente plantas diversas com a intenção de produzir alimentos melhores e em maior quantidade”, afirma Alan McHughen, biólogo molecular da Universidade de Saskatchewan, no Canadá. Segundo esse raciocínio, as atuais alterações do código genético são ainda mais seguras, já que, dessa forma, conseguimos deixar de fora os genes indesejados. “Nos métodos antigos, sem o uso da genética, milhares de genes eram misturados sem controle algum. Agora, podemos trocar apenas os genes que nos interessam”, diz McHughen.

Da soja para o porco, do porco para o homem. De todas as facetas que a manipulação genética pode ganhar, a que inflama mais a discussão é a alteração do corpo humano. Ela ganhou peso quando explodiu nos jornais o anúncio da listagem do código genético humano pela empresa americana Celera Genomics, em parceria com o consórcio multinacional Projeto Genoma, apoiado principalmente pelo governo americano. Segundo as previsões, depois que os cientistas tiverem feito sua lição de casa (veja quadro), poderemos realizar as alterações que desejarmos em nosso corpo, como acabar com doenças hereditárias ou eliminar erros de formação genética. Há quem pense até em uma melhoria geral de nossa capacidade física e cerebral.

Essa última hipótese pode ser muito fascinante, mas é justamente a que mais preocupa os opositores do projeto. Teme-se que acabe vigorando um novo tipo de eugenia em que, por exemplo, não haja lugar para pessoas baixinhas ou que não tenham olhos azuis. “Sinto-me desconfortável com o fato de que mal acabamos de dar a primeira olhada em um texto genético de 3 bilhões de anos e já estamos dizendo: ‘Olha, acho que posso dar uma melhorada nisso aqui’”, diz Eric Lander, diretor do centro de pesquisa genômica do instituto Whitehead, em Cambridge, que colaborou com a Celera no projeto. Ele não se considera um antiprogressista, mas sente a pressão de estar cada vez mais perto de realizar algo que antes não passava de um clichê impossível: brincar de Deus. Ou de doutor Frankenstein.

Frase

“Os animais irão virar pequenas fábricas para produzir remédios e proteínas de que o homem precisa”

A lição de casa do século

Em 1993 o artista Steve Miller, dos Estados Unidos, pintou um retrato singular da colecionadora de arte Isabel Goldsmith. Miller enviou uma amostra do sangue de Isabel para um centro de pesquisas na Inglaterra. Depois de duas semanas de mitose, os cromossomos dos núcleos das suas células sanguíneas foram fotografados, numerados e classificados por um geneticista. Desse trabalho nasceu o Genetic Portrait of Isabel Goldsmith (Retrato Genético de Isabel Goldsmith), que faz parte da exposição Paraíso Agora: Descrevendo a Revolução Genética de Nova York.

Foi um trabalhão, mas nem de longe chega perto da canseira enfrentada por Craig Venter, presidente da Celera Genomics, a empresa de biotecnologia que conseguiu mapear os 3 bilhões de letras que formam o colossal livro do DNA humano. Mas o trabalho está apenas começando. Para que se possa saber a real serventia de tudo isso, a Celera vai usar computadores de última geração, mentes que brilham e alguns bilhões de dólares para fazer a lição de casa do século. Algumas das tarefas:

 

Descobrir erros e lacunas – A própria Celera reconhece que a pressa em acabar a primeira fase do trabalho pode ter causado omissão de dados ou erros na seqüência. A solução é repassar a lista mais umas dez vezes, processo que pode levar cerca de três anos.

Entender como tudo isso funciona – Embora os genes tenham sido identificados, não se sabe exatamente como funcionam. Para dar esse passo serão necessários de 10 a 20 anos.

Saber o que faz o quê – Como um gene pode produzir mais de uma proteína e as proteínas podem ter mais de uma função no corpo humano, essa é a parte mais complexa. Venter calcula que isso é trabalho para mais de um século.