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Por que a maior parte do DNA parece não servir pra nada?

O número chega perto de ser ridículo: menos de 2% do nosso genoma teria alguma função. A natureza seria tão desleixada? A resposta talvez seja sim - e não

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h46 - Publicado em 31 Maio 2008, 22h00

Texto Giovana Girardi

Essa é uma impressão que surgiu com a decifração do genoma humano, quando o seqüenciamento das letras químicas que compõem o tão aguardado “livro da vida” mostrou que menos de 2% dele se traduz em instruções diretas sobre a fisiologia humana. Essa pequena parcela é formada pelos genes, trechos de DNA que contêm as especificações necessárias para a fabricação de proteínas – moléculas complexas que estão na base do funcionamento das células.

Feita essa conta, num primeiro olhar ficou parecendo que mais de 98% de nosso genoma era completamente inútil, observação que originou o título de DNA-lixo. Logo se notou, no entanto, que foi uma definição apressada. A continuidade dos estudos vem mostrando que a maquinaria celular é bem mais complexa. Os genes, definitivamente, não são tudo, e interagem com outros elementos.

Antes de explicar as novidades, vale lembrar que o DNA é uma molécula em forma de dupla hélice, ou escada torcida, composta de pares de bases que se ligam como se fossem degraus. As tais bases são conhecidas como adenina (A), timina (T), citosina (C) e guanina (G) – as tais letras químicas do DNA. Pois bem: cada fita é então uma longa seqüência de letras ATCGTCAGTACAGCC… sendo que somente alguns trechos formam genes. Tais letras são “lidas” por uma outra molécula, o RNA mensageiro (ou mRNA), que carrega a informação do núcleo para o citoplasma da célula, onde serão fabricadas as proteínas. Imaginava-se que o RNA mensageiro era gerado somente para ler os genes, mas um trabalho divulgado no ano passado mostrou que ele transcreve quase todas as bases do DNA. Isso só pode fazer sentido se a parte que se julgava lixo tiver alguma função.

Os pesquisadores do megaprojeto Encode (Enciclopédia do DNA), que publicaram esse achado nas revistas científicas Nature e Genome Research, acreditam que esse RNA extra, gerado pelas seqüências de DNA não codificadoras de proteínas, regule a ativação ou desativação dos genes. Já se sabe que um dos produtos da leitura do DNA-lixo são segmentos pequenos de RNA, os microRNAs, que possuem a capacidade de fazer o caminho de volta e silenciar alguns genes.

O papel das seqüências não codificadoras de proteínas é reforçado ainda pelos recentes estudos que comparam os genomas de diversos indivíduos, à caça de diferenças que possam explicar por que algumas pessoas são mais predispostas a certas doenças do que outras. Observou-se que variações e mutações justamente nesses trechos podem modificar a atividade de certos genes, de modo a provocar uma série de moléstias, como diabetes, câncer e artrite reumatóide.

Noventa e oito por cento

Mas o que há, então, nos 98% “misteriosos” do genoma? Os projetos de seqüenciamento mostraram que a maior parte são elementos repetitivos – duplicações promovidas, por exemplo, por RNAs transcritos, que podem gerar tanto novos genes quanto trechos inativos. Os mais badalados pela ciência no momento são os retrotransposons – trechos de DNA que fazem cópias de si mesmo e ficam saltando pelo genoma. Sua ação nas células cerebrais é bastante promissora, como mostra o trabalho do pesquisador brasileiro Alysson Muotri, do Instituto Salk (EUA). Esse DNA-canguru altera o funcionamento dos genes, de modo que alguns se expressam mais que outros. Isso pode provocar, por exemplo, mais ou menos ligações entre os neurônios, alterando o cérebro de uma pessoa.

Parasitas também invadem o genoma. Há bons indícios de que certos vírus se integraram ao nosso DNA e lá ficaram, virando fósseis.

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Lixo ou luxo?

Conheça a proporção de elementos conhecidos no genoma humano – muitos dos quais parecem ser inúteis

Íntrons

28% – São regiões dos genes que são jogadas fora na hora de fabricar as proteínas. Mudanças nos pedaços que saem levam a outras proteínas.es

Éxons

2% – São os pedaços que, após a “limpeza” dos íntrons, realmente valem como receita para proteínas, as supostas grandes mestras do organismo.

Repetições

50% – Por razões que não foram esclarecidas ainda, é muito fácil achar grandes áreas repetidas no interior do genoma humano e de mamíferos.

Pseudogenes

1% – Erros no sistema de cópia do DNA podem fazer com que certos genes percam a capacidade de ser lidos pela célula. Permanecem no DNA como fósseis.

Outros

19% – Esta fração considerável do nosso genoma ainda está quase totalmente no escuro: pode ter funções essenciais ou nada fazer.

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