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Por que nos casamos? Vovós pré-históricas são a resposta

Hipótese evolutiva é usada para explicar um dos mistérios do seres humanos: por que, diferente de quase todos os mamíferos, formamos relações de longo prazo?

Mamíferos não são exatamente românticos. Na grande maioria deles, inclusive os demais grandes primatas, a relação entre os gêneros se resume à hora de passar os genes adiante e tchau, sem nem adicionar no Facebook ou mentir que vai telefonar no dia seguinte.

Nós somos uma enorme exceção: em quase todas as sociedades do mundo, dos massais aos inuítes, mesmo quando não há um casamento formal e mesmo quando não é para o resto da vida, as pessoas se unem em casais. E isso vem (idealmente) acompanhado do sentimento mais cantado, em verso e prosa, antes, hoje e sempre: l’amour.

“Ligações entre pares são universais em sociedades humanas e nos distinguem de nossos parentes vivos mais próximos”, afirma a antropóloga Kristen Hawkes, da Universidade de Utah (EUA). Hawkes é a autora principal de um estudo que usou de vastas simulações de computador para explicar nossa esquisitice. A partir de um fator insólito: as vovós. “Nossa hipótese é que a formação de casais em seres humanos evoluiu com uma crescente recompensa pela defesa da parceira, que resultou do papel da evolução das avós em nossa história vital.”

 

Hipótese da Vovó, base para o estudo, surgiu nos anos 90 para responder a um aparente paradoxo evolutivo: por que as mulheres vivem décadas após a menopausa? Nossos parentes mais próximos vivem até os 30, 40 anos. É assim porque sua vida, como a de praticamente todos os animais, coincide com o período fértil. Quem não pode mais se reproduzir não pode mais passar seus genes. O que quer dizer que nenhum gene que ajude nessa fase da vida pode ser favorecido pela seleção natural. Em outras palavras, o fim da possibilidade de reprodução é uma sentença de morte para todo mundo. Menos a gente.

 

A resposta é a vovozinha. Tão universal quanto o amor são as doces velhinhas fazendo a alegria da criançada com a distribuição indiscriminada de carinho e cáries. Como as avós ajudam a criar os filhos, isso libera as mães para se reproduzirem novamente mais cedo. Daí, ter mais filhos, isto é, mais sucesso evolutivo. Então faz sentido que os genes que ajudam as mulheres a viver além da menopausa sejam selecionados pela evolução: vovó pode não se reproduzir mais, mas esses genes estão também nas filhas e netas. Essa mudança, de acordo com Hawke e seus colegas, pode ter acontecido há 2 milhões de anos atrás, nos primeiros membros do gênero Homo.

De volta a l’amour (sempre melhor em francês). Os filhos também se beneficiaram desses genes. Os homens passaram a viver quase tanto quanto suas avós. O que gerou outra esquisitice humana: mesmo que nasçam mais ou menos tanto homens quanto mulheres, o fato que homens não têm menopausa significa que há muitos mais deles diretamente ativos no jogo da seleção natural. A ideia pode soar desagradável a alguns, mas homens mais velhos se casam com mulheres mais novas e continuam a se reproduzir. Nas simulações rodadas pelos cientistas, em 30 mil anos, a proporção mudou de 77 homens para 100 mulheres para 156 por 100.

 

Ninguém descreveria a situação como romântica, mas aí está a explicação. Quando são os homens que estão sobrando, é mais vantajoso que se dediquem – ou, como o estudo afirmou, “guardem as parceiras”. Os honestos pais de família pré-históricos conseguiram preservar suas parceiras, daí as crias, daí a herança evolutiva, melhor que os ricardões. “Essa tendência masculina na proporção dos gêneros em idades reprodutivas faz com que preservar a parceira seja uma estratégia melhor para os machos que procurar uma outra parceira, porque existem caras demais na competição”, afirma Hawke. “Quanto mais machos existem, menor se torna seu sucesso reprodutivo médio.”

 

Fonte:

Did grandmas make people pair up?, University of Utah via ScienceDaily