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Por que uvas pegam fogo no micro-ondas, segundo a ciência

Pesquisadores canadenses testaram a brincadeira, que já rendeu vários vídeos virais no YouTube. E explicaram o fenômeno científico por trás dela.

Que os fornos micro-ondas são uma das principais facilidades eletrodomésticas da vida moderna, não há dúvida nehuma.

Dá para fazer quase tudo com eles – inclusive ciência. Você, leitor da SUPER, talvez se lembre deste texto, que descrevia um experimento envolvendo ovos e micro-ondas que viralizou na internet.

O desafio consistia em aquecer um ovo (já cozido) por alguns segundos no micro e, em seguida, parti-lo ao meio usando uma colher. O resultado deixaria qualquer dono de casa infeliz com a bagunça (e com o barulho): o ovo explodia para todo lado.

Isso porque bolsões de água da gema que não entraram em ebulição, ao entrar em contato com o metal do talher, estouram numa explosão que pode chegar a incríveis 133 decibéis.

A boa notícia para os Einsteins da cozinha é que não são apenas os ovos que revelam propriedades inusitadas quando colocados no micro-ondas. Outra série de testes que acumulou milhões de visualizações no YouTube nos últimos anos, envolve, quem diria, uvas.

O experimento é igualmente simples: basta cortar uma única uva no meio, garantindo que ambas as metades permaneçam unidas por um pedacinho da casca. Após cerca de cinco segundos no interior do micro-ondas, surgem fagulhas e uma pequena bola de fogo emana do fruto. Você pode assistir a uma tentativa do tipo no vídeo abaixo.

Não é nem preciso dizer que não é exatamente recomendável tentar repetir o procedimento em casa. Por que? Ter uma labareda no interior de um equipamento elétrico deveria ser um argumento mais do que suficiente, oras.

Um trio de pesquisadores do Canadá, porém, repetiu o teste em laboratório não uma, mas centenas de vezes – em nome da ciência, é claro. De tanto insistirem, conseguiram explicar em detalhes o que acontece com as uvas no interior do micro-ondas – algo que nunca havia sido feito, apesar do apelo da ideia. Suas descobertas acabaram virando um estudo, publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences.

“As fagulhas que surgem de duas metades de uva em um micro-ondas convencional foram tratadas como uma brincadeira de internet mal explicada durante duas décadas”, dizem os cientistas no resumo da pesquisa.

Para provar que estavam lidando com coisa séria, eles aqueceram um número incontável de uvas de verdade e modelos feitos de hidrogel que tinham o mesmo peso e aspecto dos frutos.

Pelo menos 12 micro-ondas diferentes foram estragados durante os testes. Mas isso permitiu com que o grupo chegasse a algumas conclusões interessantes.

 

Esferas de hidrogel utilizadas pelos cientistas nos testes Esferas de hidrogel utilizadas pelos cientistas nos testes

Esferas de hidrogel utilizadas pelos cientistas nos testes (Khattak et al (PNAS)/Reprodução)

“As uvas têm exatamente o índice de refração necessário para criar uma armadilha para micro-ondas“, explicou Pablo Bianucci, que participou do estudo, em entrevista ao site Ars Technica.

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A consistência gelatinosa das uvas atrai as micro-ondas do forno, que são nada além de energia eletromagnética. A energia absorvida perturba as moléculas de todo o fruto, mas é especialmente intensa em um pequeno ponto – o tal pedacinho da casca que une as duas metades da uva.

A bola de fogo que observamos, então, é nada além de elétrons fugitivos, que não aguentaram a alta temperatura daquele ponto quentíssimo e deram no pé. É por causa disso que, em uma simples uva aquecida no micro, observamos um dos estados mais especiais da matéria: o plasma

No experimento em questão, ele é formado graças a átomos da uva que foram ionizados, ou seja, perderam elétrons (por causa do calor) e agora estão carregados positivamente. O resultado imediato de aquecer essas partículas é que elas se desprendem e começam a colidir, emitindo pequenas quantidades de luz e calor. Quando se assiste de fora do micro-ondas, essa série de colisões adquire o aspecto de uma pequena bola de fogo.

Além de dar um tom profissional mais à coisa, o estudo eliminou também alguns mitos. Não é preciso manter um pedacinho de pele entre as duas metades da uva e ou mesmo garantir que elas estejam cortadas ao meio. É possível criar um hot spot – ou seja, um ponto central que concentra a energia e dá origem à esperada labareda – simplesmente posicionando as uvas uma ao lado da outra.

Não somente uvas, aliás: qualquer coisa que tenha uma quantidade de água parecida pode se comportar da mesma maneira. Para provar essa teoria, cientistas tentaram o mesmo processo usando groselhas, mirtilos e, como não poderia deixar de ser, ovos – no caso, os de codorna, que se assemelham bem mais com bagos de uvas que os tradicionais, de galinha.

Já falamos para não tentar isso em casa? Não custa nada repetir: não tente isso em casa. Seu micro-ondas agradece.