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Resta um: a história da última tartaruga de uma das ilhas Galápagos

A incrível história do Solitário George, e as tentativas de tirar a virgindade do coitado e salvar sua raça da extinção

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h46 - Publicado em 31 jan 2007, 22h00

Texto Reinaldo José Lopes

George não quer saber de transar. Não é culpa dele, coitado: até onde se sabe, George teve uma infância difícil e cresceu sem conviver com o sexo feminino. Não adiantou nem presenteá-lo com um harém só dele (coisa tão rara na terra de George quanto por aqui). É verdade que uma charmosa garota suíça chegou perto de fazê-lo desencalhar, mas ela precisou voltar para a Europa pouco tempo depois. Aí a coisa toda desandou.

George, codinome “o Solitário”, está longe de ser um rapaz tímido. Trata-se de um macho de tartaruga-gigante das Galápagos, arquipélago equatoriano no oceano Pacífico. E tudo indica que o bicho é o último representante de uma raça milenar de répteis, que só existia numa das ilhas, Pinta. Daí o desespero de pesquisadores e ambientalistas para que George perca a virgindade: se o bicho passar desta para a melhor sem se reproduzir, as tartarugas-gigantes de Pinta estarão extintas.

Apesar de todos esses elementos cômicos, a história de George está mais para um dramalhão. Sua saga mostra com perfeição as trapalhadas que os seres humanos fizeram num dos ambientes mais isolados e ricos do mundo, as Galápagos. E o elenco da história também não é dos piores: conquistadores espanhóis, bucaneiros e até o pai da Teoria da Evolução, Charles Darwin – sem falar na ovelha Dolly.

Surpresa gigante

Nossa história começa em 1º de dezembro de 1971, quando um casal de americanos – o biólogo especialista em caramujos Joseph Vagvolgyi e a esposa, Maria – fez uma visita à ilha de Pinta e deu de cara com o bicho. Os dois não tinham a menor idéia de que, até onde todo mundo sabia, a subespécie de tartaruga-gigante da ilha (de nome científico Geochelone nigra abingdoni) já estava extinta. O último bicho desses visto em Pinta havia sido coletado por naturalistas em 1906. Assim, os Vagvolgyis, despreocupadamente, foram tirar uma foto dele. George não estava lá muito bem-humorado. “Ele enfiou a cabeça dentro do casco e fez um barulho irritado, mas acabou se acalmando”, relata Joseph Vagvolgyi.

O biólogo comentou casualmente o fato com os pesquisadores da Estação de Pesquisa Charles Darwin (CDRS, na sigla inglesa), uma das instituições responsáveis pelo trabalho científico e de conservação ambiental nas Galápagos. O pessoal da CDRS quase teve um treco: era preciso dar um jeito de localizar o bicho. Uma expedição partiu para Pinta e confirmou a presença da tartaruga por lá. E foi em março de 1972 que George (batizado em homenagem ao comediante George Gobel, sucesso da TV americana na época) foi capturado com todo o cuidado e levado para a área que é seu lar até hoje, um luxuoso cercadinho na CDRS, na ilha de Santa Cruz.

A idade do animal é um mistério. As tartarugas-gigantes das Galápagos são provavelmente os bichos com maior expectativa de vida do mundo: tudo indica que elas podem alcançar os 200 anos de idade. Teoricamente, portanto, George poderia até ter conhecido Charles Dar­win em sua passagem pelo arquipélago em 1835 (ele não desembarcou em Pinta, apenas tripulantes do Beagle que recolheram espécimes animais e vegetais e os levaram para bordo). Também está claro que o bicho já era adulto quando foi descoberto – ou seja, tinha pelo menos 30 anos. O mais provável, segundo a maioria dos pesquisadores, é que George tenha uns 80 anos, ou seja, está na flor da idade para um macho de sua raça.

Como é que a situação da subespécie de Pinta ficou tão periclitante? Na verdade, ela é só mais um caso dentro da monumental onda de azar que afeta as espécies das Galápagos desde que os europeus puseram os pés pela primeira vez nas ilhas, no século 16. Localizado a quase 1 000 quilômetros da costa do Equador, país ao qual pertence hoje, o arquipélago virou covil dos piratas ingleses que predavam as riquezas das colônias espanholas da América do Sul. As ilhas são, por um lado, laboratórios naturais: como estão totalmente isoladas do continente (e umas das outras), um punhado de espécies foi parar ali milhões de anos atrás e teve todo o tempo do mundo para evoluir em formas especializadas – e, às vezes, bizarras. Não é à toa que os dados que Darwin recolheu nas Galápagos foram importantes para o desenvolvimento da Teoria da Evolução no clássico livro A Origem das Espécies, de 1859.

Essa é a parte boa de evoluir numa ilha. A ruim é que os animais e plantas insulares são extremamente vulneráveis à chegada das chamadas espécies invasoras, que vêm de regiões muito distantes e não possuem inimigos naturais no novo hábitat. Os invasores se comportam feito uma rede de supermercados que chegou a uma cidade onde só existiam mercearias: tomam conta do novo ambiente e dão uma dor de cabeça danada na concorrência. No caso das tartarugas-gigantes, cabras européias comeram os vegetais que antes estavam à disposição de George e família, enquanto ratos europeus se banquetearam com ovos e filhotes da subespécie.

Some-se a isso o impacto nada leve do próprio bicho-homem. Sem muita coisa para comer nas relativamente áridas Galápagos, os piratas começaram um banquete secular com carne de tartaruga-gigante, ampliado depois por baleeiros e exploradores – o próprio Darwin ajudou seus colegas do navio Beagle a embarcar uma carga de répteis para servir como fonte de proteína fresca durante o resto da jornada. No fim do século 19, quando muitas raças do arquipélago já estavam pedindo água, o massacre foi completado pelos naturalistas, coletando espécimes para museus ou zoológicos antes que não sobrasse mais nenhuma tartaruga. O resultado é que, das 14 subespécies que já habitaram as Galápagos, 3 estão extintas.

George e as garotas

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Com George são e salvo em seu cercadinho (aliás, tão são e salvo que passou algum tempo obeso e teve de fazer uma dieta especial), era hora de pensar no futuro da subespécie de Pinta. Nas últimas décadas, o pessoal da CDRS enviou diversas expedições para remover as cabras invasoras da ilha e procurar possíveis fêmeas sobreviventes. Infelizmente, o resultado da busca se resumiu a um punhado de cascos esfacelados e fezes secas. Muitas tartarugas-gigantes estão espalhadas pelos zôos do mundo, mas nenhuma é comprovadamente da subespécie de Pinta.

Assim, a única esperança de sobrevivência para os genes do pobre George parece ser, por enquanto, a hibridização. Isso quer dizer que seria necessário fazer o macho se acasalar com fêmeas de outra espécie. Atualmente, ele tem à sua disposição um harém de tartarugas da ilha de Isabela, mas a interação entre George e suas fêmeas nunca chegou aos finalmentes.

Quem quase mudou essa escrita foi a zoóloga suíça Sveva Grigioni, da Universidade de Lausanne. Em 1993, com 26 anos, Grigioni chegou à CDRS com a missão explícita de fazer o macho se interessar pelas fêmeas. O método: estimulação manual. Grigioni começou praticando em bichos menos preciosos – com sucesso espantoso. “Sveva conseguia obter esperma dos outros machos em 10 minutos”, recorda Linda Cayot, pesquisadora do CDRS. Ao acariciar a parte traseira de George, Grigioni conseguiu fazer o réptil expor o pênis, normalmente oculto dentro da cavidade conhecida como cloaca, também responsável por expelir urina e fezes. Pelo menos anatomicamente, estava tudo normal com a tímida tartaruga.

O tratamento parecia estar operando maravilhas. Para ajudar, Grigioni lambuzava as mãos com secreções genitais das tartarugas. “Ele começou a tentar copular, mas era como se não soubesse como fazer isso”, conta ela. No entanto, Grigioni precisou voltar para a Europa para começar seu doutorado, e George voltou a ser “o Solitário” para valer. “Se eu tivesse tido mais tempo, tenho quase certeza de que conseguiria pelo menos um pouco de esperma”, lamenta ela. Os pesquisadores hoje acreditam que, caso não seja possível incentivar George a fazer sua parte, conseguir esperma para alguma forma de inseminação artificial já estaria de bom tamanho.

Nesse meio-tempo, o macho virou o principal ícone da conservação ambiental nas Galápagos. Todos os anos, dezenas de milhares de turistas passam pelo cercadinho do bicho. A atenção nem sempre é totalmente bem-vinda: nos anos 90, conflitos entre ambientalistas e pescadores equatorianos colocaram George em perigo mortal. A briga toda surgiu por causa da pesca do pepino-do-mar, invertebrado que muitos asiáticos consideram afrodisíaco e que vale um bom dinheiro. Os pescadores passaram a recolher quantidades absurdamente altas de pepino-do-mar nos arredores das ilhas, os ambientalistas chiaram, e o governo do Equador tentou regular a pesca. Os pescadores, então, organizaram levantes, tomaram por alguns dias a CDRS e usaram como palavra de ordem os gritos de “Muerte al Solitario Jorge!” Por sorte, nada aconteceu ao bicho.

Não há nenhuma garantia de que a subespécie de George conseguirá escapar da armadilha da extinção. Ainda que seu papel de ícone das Galápagos ajude a preservar o que resta da fauna das ilhas, o bicho pode ser realmente o último representante de uma linhagem condenada. Vale a pena repetir aqui os dizeres da plaquinha que os visitantes da CDRS lêem quando vão vê-lo: “O que quer que aconteça com este animal, que todos vejam que o destino da vida na Terra está nas mãos do homem”.

Para saber mais

Lonesome George: The Life and Loves of a Conservation Icon – Henry Nicholls, Macmillan, EUA, 2006.

Aventuras e Descobertas de Darwin a Bordo do Beagle – Richard Keynes, Jorge Zahar, 2004.

http://www.darwinfoundation.org – Site da Estação de Pesquisa Charles Darwin, Galápagos.

Clone cascudo

Se tudo o mais falhar, será que a mesma tecnologia que criou a ovelha Dolly não poderia livrar a subespécie de George da extinção? Em tese, tudo é possível. Uma simples célula do macho poderia ter seu núcleo retirado e fundido com um óvulo de tartaruga. E voilà: clone de tartaruga para viagem.

Moleza, não? Mais ou menos. Se clonar mamíferos, cujas células reprodutivas femininas são óvulos facilmente manipuláveis, dá um trabalhão, imagine uma espécie em que os óvulos precisam ter casca (são ovos não fecundados) e não são liberados periodicamente, como é o caso das tartarugas. Seria preciso um procedimento cirúrgico para arrancar os óvulos das fêmeas das Galápagos, ainda sem casca. Já a própria casca poderia ser substituída: cientistas já conseguiram chocar pintinhos usando um ovo artificial, de plástico, repleto de substâncias nutritivas e “preenchido” com o óvulo fecundado.

Mais um problema: um clone seria necessariamente um macho, ou seja, incapaz de cruzar com a sua “cópia”. Bem, não tão necessariamente assim. O sexo dos répteis é determinado pela temperatura na qual seus ovos são chocados. Mais calor produz fêmeas; mais frio, machos. Assim, bastaria esquentar um pouco mais a chocadeira para obter uma “Geórgia”.

Ainda assim, o novo casal seria geneticamente idêntico. E um cruzamento assim costuma produzir filhotes com doenças congênitas graves. Mas talvez seja melhor filhotes doentes do que nenhum filhote.

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