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Sapo brasileiro é o primeiro anfíbio “bígamo” e fiel às suas companheiras

Durante o período reprodutivo, os machos da espécie "Thoropa taophora" se relacionam exclusivamente com duas fêmeas – comportamento nunca antes visto nesta classe de animais.

Por Carolina Fioratti Atualizado em 13 ago 2020, 17h43 - Publicado em 13 ago 2020, 17h12

Próximo a uma praia de Ubatuba, litoral norte de São Paulo, pesquisadores brasileiros notaram algo inusitado entre os sapos da espécie Thoropa taophora. Os machos pareciam estar sempre acompanhados de duas fêmeas durante a estação reprodutiva – e se mostravam fiéis a elas. É a primeira vez que esse comportamento é observado na classe dos anfíbios.

Essa conduta animal recebe o nome de poliginia e já foi vista em outras classes, como dos mamíferos, aves, peixes, répteis e até invertebrados. Para os anfíbios, pensava-se numa relação “oito/oitenta”: ou eram monogâmicos, ou tinham vários parceiros no período reprodutivo. Mas a descoberta, descrita na quarta-feira (12) na revista Science Advances, mudou essa concepção. 

Para confirmar a teoria, os pesquisadores fizeram um teste de DNA nos girinos que viviam juntos desses animais em uma floresta na Mata Atlântica. Todos eram meio-irmãos, sendo cerca de 85% de uma mãe e 15% de outra, mas com o mesmo pai. O número não é aleatório: apesar do macho ser fiel às duas fêmeas, as próprias mantém uma hierarquia entre elas – uma é a “dominante”; a outra, “secundária”. Enquanto a fêmea dominante costuma responder ao cortejo do macho emitindo outras vocalizações, as secundárias ficam apenas ao lado observando.

Sapo macho cruza com fêmea dominante (d) enquanto fêmea secundária (s) permanece imóvel ao lado. Ao mesmo tempo, uma fêmea periférica (p) circunda o local. Rafael Consolmagno (Universidade Federal de São Paulo, Brasil)/Reprodução

Certo, talvez o macho não seja tão fiel quanto pensávamos. Vez ou outra pode surgir uma terceira fêmea, chamada de “periférica”, que acaba acasalando com o sapo. Mas ao contrário de suas companheiras, o interesse da fêmea periférica não é reprodutivo: ela invade o ambiente da família para roubar os ovos e se alimentar, já que o canibalismo é relativamente comum para os Thoropa taophora.

Por outro lado, o sapo macho é um bom pai. Ao ter sua prole, o animal desenvolve o chamado cuidado parental. Ele se esforça para proteger seus descendentes contra quaisquer ameaças, emitindo sons que afastam predadores e se atracando com outros machos da espécie em situações de emergência. Nos combates, esses animais costumam utilizar os espinhos que possuem em seus polegares para lutar.

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    Mas não pense que o trisal permanece junto e fiel simplesmente por amor. Os cientistas sugerem que essa aliança tenha relação com as dificuldades que a espécie enfrenta para se reproduzir. Eles vivem em ambientes específicos (pedras úmidas no interior da Mata Atlântica), que possuem apenas pequenos filamentos de água para que os girinos possam se desenvolver.

    Fábio de Sá, pesquisador da Unesp Rio Claro e líder do estudo, explicou ao G1 que “a vantagem para a fêmea é que é melhor ter um macho de boa qualidade e um criadouro de boa qualidade compartilhando-o com outra fêmea do que ficar exposta e não encontrar outro sapo, ou encontrar um sapo de qualidade inferior”. São provavelmente as fêmeas que escolhem o número limite de três animais no relacionamento – e o macho aceita.

    É o equilíbrio perfeito: com esse limite, a fêmea garante que sua prole será bem cuidada, enquanto o macho segue o seu instinto de espalhar seus genes para mais de uma parceira. Um relacionamento saudável, por assim dizer.

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