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Silêncio, pois o sono é leve

Um terço da humanidade mal prega os olhos. E mesmo quem dorme com facilidade pode estar dormindo mal. Incansáveis, os médicos investigam por que tão poucos adormecem tranqüilos. E descobrem, entre outras coisas, as moléculas da insônia.

Lúcia Helena de Oliveira e Cássio Leite Vieira, de Londres

As horas passam e o corpo exausto rola na cama. Os olhos estão fechados, mas o cérebro continua em atividade alucinante. O silêncio é interrompido por rangidos, latidos, miados. Todo mundo parece dormir, menos você. Na verdade, um terço da humanidade está na mesma situação e passa a noite em claro. A ansiedade, uma eventual má digestão e até a cama desconfortável costumam levar à insônia. Mas, quando a dificuldade aparece quase toda noite, a causa pode estar em moléculas recém-encontradas no cérebro. São as oleamidas hidrolases que, ao pé da letra, cortam a vontade de dormir.

Essa é, ao menos, a suspeita de cientistas do Instituto Scripps, na Califórnia, Estados Unidos, chefiados pelo químico Dale Boger. Em 1994, eles identificaram uma proteína cerebral, a oleamida, que causaria o sono. “Ela aparecia em grande quantidade em gatos mantidos acordados por 22 horas”, explica Boger em entrevista à SUPER. “A oleamida provoca a sensação de que estamos despencando de cansaço”, diz ele, que já a identificou em seres humanos. Para o neurologista Rubens Reimão, do Hospital das Clínicas de São Paulo, a oleamida não é assim tão boa de cama: “O sono é fundamental para o organismo e, por segurança, a natureza deve ter criado várias substâncias para detoná-lo”, opina. “A oleamida provavelmente é apenas uma delas.”

Mesmo se a oleamida sozinha não fizer ninguém adormecer, a descoberta mais recente do pessoal do Instituto Scripps continuará sendo de arregalar os olhos. Há dois meses, eles encontraram uma segunda molécula cerebral de efeito oposto à do sono. Trata-se da oleamida hidrolase, capaz de quebrar em pedacinhos as oleamidas do repouso. “Quando restam poucas delas inteiras, a gente acorda”, conta Boger. O químico desconfia que muita hidrolase no cérebro significa grande dificuldade para dormir.

Sem chegar a dormir pesado

Em todo o mundo, um em cada cinco indivíduos usa com freqüência algum medicamento para adormecer. Depois de atravessar a noite sob sedação, essa gente passa o dia como um andróide mal programado. É a síndrome pós-sedativo, causada por uma noite ruim. Sim, porque dormir bem é seguir um script muito definido (veja gráfico ao lado). Nas fases 1, 2, 3 e 4, o sono se aprofunda cada vez mais. O auge do relaxamento físico acontece na última etapa, a fase REM (sigla para movimento rápido dos olhos, em inglês), que também é rotulada de sono paradoxal. Pois, enquanto o corpo descansa, o cérebro funciona a pleno vapor.

Depois de sonhar um pouco, as células cerebrais dão um tempo na fantasia. Interrompem a fase REM e voltam para as fases 4, 3 e 2 respectivamente. Então recomeça o ciclo até entrar em outra fase REM. O processo se repete três a seis vezes por noite. “Algumas substâncias como o álcool e os calmantes acabam criando uma espécie de sono artificial”, explica Rubens Reimão. “A pessoa sente a ilusão de ter dormido um sono pesado, mas seu cérebro não chegou às fases restauradoras do corpo e da mente, que são a 4 e a REM.” O resultado é que ela acorda péssima.

Todo barulho desperta e a gente não nota

Quando o corpo não experimenta as fases do sono plenamente, acaba acordando fraco. “Isso ocorre cada vez mais”, diz Fernando Pimentel de Souza, da Universidade Federal de Minas Gerais, que mostrou um estudo no 9º Simpósio sobre Distúrbios do Sono, há dois meses, em São Paulo. Ele comparou dois hospitais, um no barulhento centro de Belo Horizonte e outro em um subúrbio silencioso. Os pacientes do hospital central se recuperaram mais devagar. “Buzinas e motores sempre despertam”, diz Souza. “Mas só nota quem fica acordado mais do que 1 segundo. Menos do que isso, não se percebe que o sono foi interrompido várias vezes.”

Essas noites maldormidas e a insônia são os maiores males na cama hoje. Para quem fica em claro, a equipe do Instituto Scripps, nos Estados Unidos, testou uma substância, o composto 6, que serve de isca para as hidrolases da insônia. Ela induz um sono natural e restaurador. Se todos os testes comprovarem sua eficácia, o composto 6 poderá se transformar em um remédio muito mais eficiente do que os sedativos que andam por aí.

PARA SABER MAIS

Sono, Estudo Abrangente, Rubens Reimão, Editora Atheneu, São Paulo, 1996.

O Sono na Arte, Regine Pötzsch e colaboradores, Editiones Roche, Basiléia. Suíça, 1994.

Antigamente

Veja as principais descobertas sobre o sono e os apetrechos que eram usados para dormir desde os tempos antigos.

Século V a.C.

Hipócrates (460 a.C.-377 a.C.), considerado o pai da Medicina, observa que estados de tristeza e depressão costumam levar à insônia. Hoje se sabe que, de fato, existe uma nítida relação entre estados depressivos e insônia.

Século IV a.C.

O filósofo grego Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) reconhece que o sono é uma necessidade vital. Só errou ao achar que ele era provocado pelo coração, e não pelo cérebro.

Século I a.C.

Os gregos passam a usar a traqueotomia, um furo na traquéia, para tratar a apnéia, a parada respiratória em pleno sono. A medida era um tanto severa, mas é impressionante notar que eles já percebiam a gravidade do problema.

Século XVII

Surgem as roupas feitas exclusivamente para dormir. Mas eram encontradas apenas nos armários dos nobres. A população em geral dormia como no passado – nua, com uma touca para proteger a cabeça.

Século XVIII

Em 1729, o biólogo francês Jean-Jacques D’Ortous explica que o organismo de todos os seres trabalha em ciclos que se repetem. Ou seja, todos necessitam intercalar períodos de atividade e repouso.

Dorminhocos e zumbis

Existem indivíduos que dormem seis horas por dia e se sentem ótimos. Outros não aceitam menos do que nove horas de sono.

A clássica recomendação de se dormir sete a oito horas por noite não tem fundamento na Medicina. É apenas uma média. A duração aproximada do sono é determinada pelos genes. Existe na população quem durma mais e quem durma menos. E todos podem estar dormindo bem. Quarenta eletrodos grudados em diversos cantos do corpo – 32 na cabeça – é que podem dar essa garantia. Eles são usados na poligrafia do sono, o exame que acompanha tintim por tintim o que acontece com o corpo enquanto ele dorme. A respiração, a tensão muscular, a temperatura, os batimentos cardíacos e, claro, as ondas cerebrais, tudo é medido enquanto o indivíduo dorme em uma clínica especializada. O resultado, até há três anos, era um calhamaço de gráficos pesando 6 quilos. Agora tudo é analisado pelo computador. Existem mais de cinqüenta distúrbios do sono que podem ser detectados nesse exame.

Quando realmente acordamos

Os genes também determinam a hora de despertar.

O matutino fica esperto desde cedo

O vespertino se liga mais tarde

Os dois se cansam no meio do dia

Marcha lenta

É dificil ficar consentrado ou fazer ginástica.

Atenção moderada

A memória e a atenção crescem. É fácil trabalhar.

Alerta máximo

É o pico dos hormônios ligados à concentração.

Há pouco tempo

De dois séculos para cá, novas descobertas influenciaram a ciência do sono. As roupas de noite também mudaram.

Século XIX

Em 1881, o médico francês Jean-Baptiste Gélineau descreve a narcolepsia, doença em que se passa o dia cochilando. As camisolas se popularizam e, para serem diferentes, os ricos têm uma idéia da China: dormir de pijamas.

Década de 20

O médico alemão Hans Berger inventa o eletroencefalograma em 1929, exame que mostra a atividade cerebral. Com isso, prova que as ondas nervosas jamais cessam. O cérebro não descansa nem durante o sono.

Década de 50

Em 1953, o estudante de Medicina americano Eugene Aserinsky e seu professor de fisiologia, Nathaniel Kleitman, descobrem o estágio REM.

Ainda nos anos 50

Em 1956, no filme Baby Doll, de Elia Kazan, a atriz americana Carrol Baker representa a mocinha que, na hora de ir para a cama, aparece com uma minicamisola e calções curtos. Surgia mais um traje para dormir.

Década de 60

Em 1965, o fisiologista francês Henri Gastaut descobre a apnéia, a perigosa parada respiratória durante o sono, que pode ser fatal e, antes, era considerada apenas um ruidoso caso de ronco.

Com a idade, as horas de sono diminuem

Quantas horas dormimos por dia ao longo da vida e, delas, quanto tempo temos necessidade de cochilar em pleno dia.

Número de horas dormidas

Noites de perder o fôlego

Roncar, muita gente ronca. O problema fica sério quando o barulho é acompanhado de uma parada respiratória.

Dormir ao lado de quem ronca é como passar a noite com um aspirador de pó ligado ou dentro de um barco a motor. Ou seja, ficar ouvindo, de tempos em tempos, ruídos de 60 a 75 decibéis. “Geralmente, quem tem consciência do problema é a mulher, que acaba acordada pela barulheira”, diz Rubens Reimão. Explica-se: existem oito homens roncando para cada mulher que ronca. Mas o roncador também não tem o melhor dos sonos. Cada vez que inspira o ar, ele interrompe as fases de repouso profundo.

Os médicos chamam o problema de apnéia. “Fica-se sem respirar por alguns segundos, até o cérebro reclamar e o corpo puxar a respiração em um único golpe”, explica Rubens Reimão. O que impede a passagem do ar até a traquéia é uma obstrução provocada por tecidos flácidos (veja infográfico ao lado).

Dormir de barriga para cima deixa a mucosa das estruturas da garganta completamente relaxadas e, por isso, é mais comum roncar nessa posição. O dorminhoco vira de lado e, pronto, a noite fica silenciosa. Nos casos mais graves, porém, não adianta rolar na cama, porque o barulho nunca termina. “Aí, então, só a cirurgia”, lamenta Reimão.