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Uma breve história do sono – e da insônia

Um terço da humanidade mal prega os olhos. E mesmo quem dorme fácil pode estar dormindo mal

Por Lúcia Helena de Oliveira e Cássio Leite Vieira, de Londres
Atualizado em 22 out 2018, 17h13 - Publicado em 30 nov 1996, 22h00

As horas passam e o corpo exausto rola na cama. Os olhos estão fechados, mas o cérebro continua em atividade alucinante. O silêncio é interrompido por rangidos, latidos, miados. Todo mundo parece dormir, menos você. Na verdade, um terço da humanidade está na mesma situação e passa a noite em claro. A ansiedade, uma eventual má digestão e até a cama desconfortável costumam levar à insônia. Mas, quando a dificuldade aparece quase toda noite, a causa pode estar em moléculas recém-encontradas no cérebro. São as oleamidas hidrolases que, ao pé da letra, cortam a vontade de dormir.

Essa é, ao menos, a suspeita de cientistas do Instituto Scripps, na Califórnia, Estados Unidos, chefiados pelo químico Dale Boger. Em 1994, eles identificaram uma proteína cerebral, a oleamida, que causaria o sono. “Ela aparecia em grande quantidade em gatos mantidos acordados por 22 horas”, explica Boger em entrevista à SUPER. “A oleamida provoca a sensação de que estamos despencando de cansaço”, diz ele, que já a identificou em seres humanos. Para o neurologista Rubens Reimão, do Hospital das Clínicas de São Paulo, a oleamida não é assim tão boa de cama: “O sono é fundamental para o organismo e, por segurança, a natureza deve ter criado várias substâncias para detoná-lo”, opina. “A oleamida provavelmente é apenas uma delas.”

Mesmo se a oleamida sozinha não fizer ninguém adormecer, a descoberta do pessoal do Instituto Scripps continuará sendo de arregalar os olhos. Eles encontraram uma segunda molécula cerebral de efeito oposto à do sono. Trata-se da oleamida hidrolase, capaz de quebrar em pedacinhos as oleamidas do repouso. “Quando restam poucas delas inteiras, a gente acorda”, conta Boger. O químico desconfia que muita hidrolase no cérebro significa grande dificuldade para dormir.

Sem chegar a dormir pesado

Em todo o mundo, um em cada cinco indivíduos usa com freqüência algum medicamento para adormecer. Depois de atravessar a noite sob sedação, essa gente passa o dia como um andróide mal programado. É a síndrome pós-sedativo, causada por uma noite ruim. Sim, porque dormir bem é seguir um script muito definido.

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Nas fases 1, 2, 3 e 4, o sono se aprofunda cada vez mais. O auge do relaxamento físico acontece na última etapa, a fase REM (sigla para movimento rápido dos olhos, em inglês), que também é rotulada de sono paradoxal. Pois, enquanto o corpo descansa, o cérebro funciona a pleno vapor.

Depois de sonhar um pouco, as células cerebrais dão um tempo na fantasia. Interrompem a fase REM e voltam para as fases 4, 3 e 2 respectivamente. Então recomeça o ciclo até entrar em outra fase REM. O processo se repete três a seis vezes por noite. “Algumas substâncias como o álcool e os calmantes acabam criando uma espécie de sono artificial”, explica Rubens Reimão. “A pessoa sente a ilusão de ter dormido um sono pesado, mas seu cérebro não chegou às fases restauradoras do corpo e da mente, que são a 4 e a REM.” O resultado é que ela acorda péssima.

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Todo barulho desperta e a gente não nota

Quando o corpo não experimenta as fases do sono plenamente, acaba acordando fraco. “Isso ocorre cada vez mais”, diz Fernando Pimentel de Souza, da Universidade Federal de Minas Gerais, que mostrou um estudo no 9º Simpósio sobre Distúrbios do Sono, que aconteceu em São Paulo. Ele comparou dois hospitais, um no barulhento centro de Belo Horizonte e outro em um subúrbio silencioso. Os pacientes do hospital central se recuperaram mais devagar. “Buzinas e motores sempre despertam”, diz Souza. “Mas só nota quem fica acordado mais do que 1 segundo. Menos do que isso, não se percebe que o sono foi interrompido várias vezes.”

Essas noites maldormidas e a insônia são os maiores males na cama hoje. Para quem fica em claro, a equipe do Instituto Scripps, nos Estados Unidos, testou uma substância, o composto 6, que serve de isca para as hidrolases da insônia. Ela induz um sono natural e restaurador. Se todos os testes comprovarem sua eficácia, o composto 6 poderá se transformar em um remédio muito mais eficiente do que os sedativos que andam por aí.

A História nos braços de Morfeu

Século 5 a.C.
Hipócrates (460 a.C.-377 a.C.), considerado o pai da Medicina, observa que estados de tristeza e depressão costumam levar à insônia. Hoje se sabe que, de fato, existe uma nítida relação entre estados depressivos e insônia.

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Século 4 a.C.
O filósofo grego Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) reconhece que o sono é uma necessidade vital. Só errou ao achar que ele era provocado pelo coração, e não pelo cérebro.

Século 1 a.C.
Os gregos passam a usar a traqueotomia, um furo na traquéia, para tratar a apnéia, a parada respiratória em pleno sono. A medida era um tanto severa, mas é impressionante notar que eles já percebiam a gravidade do problema.

Século 17
Surgem as roupas feitas exclusivamente para dormir. Mas as camisolas eram encontradas apenas nos armários dos nobres. A população em geral dormia como no passado – nua, com uma touca para proteger a cabeça.

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Século 18
Em 1729, o biólogo francês Jean-Jacques D’Ortous explica que o organismo de todos os seres trabalha em ciclos que se repetem. Ou seja, todos necessitam intercalar períodos de atividade e repouso.

Século 19
Em 1881, o médico francês Jean-Baptiste Gélineau descreve a narcolepsia, doença que faz o corpo “desligar” e leva à crises agudas de sono ao longo do dia.
Enquanto isso, as camisolas se popularizam e, para serem diferentes, os ricos têm uma idéia da China: dormir de pijamas.

Década de 20
O médico alemão Hans Berger inventa o eletroencefalograma em 1929, exame que mostra a atividade cerebral. Com isso, prova que as ondas nervosas jamais cessam. O cérebro não “apaga” nem durante o sono.

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Década de 50
Em 1953, o estudante de Medicina americano Eugene Aserinsky e seu professor de fisiologia, Nathaniel Kleitman, descobrem o estágio REM.

Ainda nos anos 50
Em 1956, no filme Baby Doll, de Elia Kazan, a atriz americana Carrol Baker representa a mocinha que, na hora de ir para a cama, aparece com uma minicamisola e calções curtos. Surgia mais um traje para dormir.

Década de 60
Em 1965, o fisiologista francês Henri Gastaut descobre a apnéia, a perigosa parada respiratória durante o sono, que pode ser fatal e, antes, era considerada apenas um ruidoso caso de ronco.

PARA SABER MAIS

Como As Pessoas Funcionam, Otavio Cohen e Mauricio Horta, Superinteressante

Sono, Estudo Abrangente, Rubens Reimão, Editora Atheneu, São Paulo, 1996

O Sono na Arte, Regine Pötzsch e colaboradores, Editiones Roche, Basiléia. Suíça, 1994

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