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Sobrevivência e sedução

As flores não são mero capricho da natureza. A cor, o perfume e a forma da onze-horas, por exemplo, fazem parte de uma estratégia de sedução, indispensável para sua reprodução. Modificados ao longo de milhões de anos, as flores fazem tudo para agradar, principalmente aos insetos, o mais numeroso grupo de animais que existe na terra. De carona nas asas ou em outras partes dos corpos desses bichinhos, o pólen de grande número de vegetais consegue atingir outras flores, mais distantes, e assim garantir a geração de herdeiros fortes e saudáveis. Alguns desses truques são tão fascinantes que seduzem até mesmo pássaros e morcegos, que acabam se tornando também involuntários personagens dessa verdadeira epopéia da sobrevivência

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h49 - Publicado em 30 abr 1992, 22h00

Regina Prado

Assim como os demais seres vivos, as plantas também surgiram na água, na forma de rudimentares espécies unicelulares, como os fitoplânctos e as algas.Quando deixaram o berço aquático, porém, precisaram desenvolver inimagináveis artifícios para que suas raízes se alastrassem pelo meio terrestre e garantissem sua sobrevivência. Para absorver e administrar a água, importante para suprir as novas exigências da vida na terra, tecidos impermeabilizantes apareceram ao longo da evolução e células diferenciaram-se para servir como verdadeiros diques naturais, impedindo que a transpiração devolvesse a preciosa água ao ambiente.Mas os truques não poderiam parar por aí. Primeiro, porque a conquista de novos campos implicava mandar as sementes para longe da planta-mãe. Há 450 milhões de anos, surgiram na terra firme as Gimnospermas, com estratégias para reproduzirem-se e espalhar seus filhos aproveitando os recursos do meio ambiente. Com suas sementes descobertas — gimno, em grego, quer dizer nua, sperma, semente — , o vento e as águas faziam as vezes de cupido, carregando o pólen, célula sexual masculina, para encontrar-se com a oosfera, a célula feminina. Dependendo das condições do tempo, estes vegetais precisavam produzir uma enorme quantidade de pólen, para garantir que um número suficiente sobrevivesse aos perigos da viagem. Ainda assim, a possibilidade de que a pequena semente nascida do encontro germinasse longe da planta-mãe, espalhando as gerações, era limitada.O passo seguinte na evolução vegetal deu origem a um ramo que aprimorou a história da reprodução. As Angiospermas (do grego, angio, urna, sperma, semente), surgidas há quase 150 milhões de anos, estrearam uma novidade mais eficiente: a flor. A partir daí, a reprodução destas plantas dispensou vento e água, para aproveitar o trabalho de animais prestativos, como abelhas , borboletas ou belos beija-flores, recrutados por meio de artimanhas sofisticadas.Quando o pólen trazido por eles chega até a parte feminina da flor, germina, crescendo através da haste feminina, até encontrar o óvulo. Grávida, a flor incha e se transforma no fruto — a tal urna que dá nome ao grupo vegetal — , cujas sementes, mais uma vez, serão transportadas por outros animais, pássaros, quase sempre. Essa idéia de aproveitar os bichos na reprodução foi trilhada lado a lado com a evolução dos polinizadores — essa sofisticação, é claro, não poderia ocorrer de forma independente. “A evolução dos vegetais é paralela à dos insetos, que, fora o vento, são o melhor instrumento para alastrar o pólen das plantas”, diz Nanuza Luiza de Menezes, a agitada chefe do departamento de Botânica da Universidade de São Paulo. Nanuza é amiga, assessora e fã confessa do paisagista Burle Marx, cuja foto ela usa para enfeitar sua sala.Nanuza gosta de dar exemplos para explicar o que está falando. A orquídea Ophris speculum, diz ela, adquiriu ao longo de sua evolução uma pétala que é a cópia fiel das costas da fêmea da vespa Campsoscolia ciliata. Quando o macho desta espécie sobrevoa a flor, “pensa” enxergar a fêmea e aterrissa na corola. Assim que pousa, a Ophris, para manter a sedução e ainda obrigar o macho a vasculhar o seu interior, onde se contaminará com o pólen, usa seu perfume como armadilha fatal: ele possui substâncias, ditas feromônios, que identificam a fêmea. O macho, enganado pela falsa amante, efetivamente copula com a flor. Tal sedução maquiavélica custou a esta orquídea a alcunha de parasita, já que faz com que a vespa desperdice seu esperma numa planta.Esse é um exemplo extremo de especialização que pode, no entanto, condenar esse vegetal à extinção. Sua convivência tão intima com a vespa une o destino das duas espécies, o que em termos de evolução representa um risco. A vespa sobreviveria muito bem sem a orquídea ladra de esperma, mas a vulnerável planta poderá sumir da face da terra sem seu polinizador exclusivo.A história dos vegetais não excluiu também alguns retrocessos. É o caso das gramíneas, como o trigo, o arroz e o milho, que exerceram importantes papéis no desenvolvimento da civilização. Os fósseis destas angiospermas mostram que seus ancestrais foram um dia polinizados por insetos. No entanto, ao longo das transformações, elas voltaram um degrau atrás e resgataram a polinização das antigas gimnospermas, usando o vento para dispersar as sementes. Por esta razão, as flores das gramíneas não têm muitos atributos, já que não dependem mais dos insetos; são brancas, pequenas e sem perfume. Um retorno muito bem-sucedido.As parcerias necessárias para uma polinização eficiente determinaram a sobrevivência também daquelas plantas que melhor equilibraram seus ritmos com os de seus aliados animais. Uma flor pequena e alva, por exemplo, não chama atenção sob a luz do sol, mas pode ter resolvido a falta de charme de outro modo. E o caso da dama-da-noite. Desprezada na luz do dia, ela exala seu perfume intenso, estrategicamente, assim que o sol se põe. Dessa maneira, atrai as mariposas, insetos de atividade noturna, que percebem muito bem onde estão as açucaradas flores. Como são degustadoras exclusivas do néctar da dama-da-noite, sabem também que acharão farto alimento e são fiéis visitantes.A variabilidade genética, outro grande trunfo para a adaptação a novos ambientes, também foi assegurada ao longo da evolução pela diferença na maturação das partes sexuais das flores. As plantas geralmente apresentam flores andróginas, isto é, com órgãos masculinos e femininos, mas a atividade desses órgãos muitas vezes não coincide. Dessa forma, um inseto captura pólen de uma flor em período masculino e em seguida o deposita em flores cuja parte feminina esteja em plena maturação. Este vaivém genético faz com que as possibilidades de adaptação se multipliquem.”O único obstáculo até agora para a evolução tem sido mesmo o homem que, usando pesticidas, pode estar interferindo na relação entre os insetos e a polinização dos vegetais”, acredita Antônio Salatino, pesquisador da bioquímica das plantas do departamento de Botânica da Universidade de São Paulo. Salatino aproveita também suas horas vagas para comprovar as teorias sobre a atração que as cores das flores exercem sobre os insetos. “Quando jogo tênis, a bola amarela serve para brincar com as abelhas. Elas voam atrás da flor no jogo, querendo pousar nela “, diverte-se.Brincadeiras à parte, Salatino acha que o desequilíbrio promovido pelo homem na relação entre as plantas e os animais pode no futuro afetar até a produtividade porque a extinção de determinados polinizadores diminuirá a quantidade de frutos viabilizados. E a domesticação de alguns vegetais tem diminuído as variedades genéticas das espécies, tornando-as vulneráveis quanto à adaptação a novas situações ambientais, climáticas inclusive. Por esta razão, em laboratórios de todo o mundo, cientistas estão mapeando os genes vegetais, tentando realocar genes dos ancestrais, que definiam características perdidas ao longo da domesticação. O que é motivo de comemoração para o professor Salatino. “Os homens dependem dos frutos, os vegetais dependem do. insetos, então o sucesso da evolução das plantas, em última instância, garantiu a sobrevivência de muitas espécies. Inclusive a nossa.”

Para saber mais:

Quando as flores falam: chave de um código

(SUPER número 4, ano 2)

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