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Toda a vida subterrânea da Terra, somada, pesa mais que a vida nos oceanos

E só agora estamos começando a desvendar essa biodiversidade oculta. Conheça os resultados de um estudo que investigou os genomas de 600 micróbios encontrados a 1,5 km de profundidade nos EUA.

Por Bruno Vaiano Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
29 nov 2023, 16h11

O Deep Mine Microbial Observatory (DeMMO) é uma rede de seis laboratórios espalhados pelo subsolo dos EUA. O nome significa “observatório microbiano em mina profunda” em inglês, e observar micróbios é exatamente o que os biólogos fazem nesses conduítes entre a superfície e o recheio da Terra.

Uma das seis unidades do DeMMO, o Sanford Underground Research Facility (SURF), foi instalada em uma mina de ouro desativada com 1,5 km de profundidade no estado americano da Dakota do Norte.

Em 2018, um grupo de biólogos da Universidade Northwestern coletou genomas de mais de 600 microorganismos no SURF, em um esforço de magnitude inédita para mapear a “matéria escura” que prospera na crosta terrestre. Agora, os resultados desse mapeamento foram publicados no periódico especializado Environmental Microbiology.

Sim, 600. É muita coisa.

Depois da invenção do chuveiro elétrico e Sessão da Tarde, a coisa mais subestimada da Terra provavelmente é a vida subterrânea.

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Entre fungos, toupeiras, minhocas, raízes de árvores e uma miríade de microorganismos que nunca verão a luz do dia, a massa somada de todos os seres vivos que vivem abaixo do nível do chão é igual ou até superior à biomassa marinha (se essa afirmação não soou estarrecedora, pense por um segundo em quanta coisa existe nos oceanos, de anêmonas a baleias).

Só as criaturinhas encontradas no SURF em 2018 se encaixam em 50 filos conhecidos, e algumas delas pertencem a 18 possíveis filos novos, ou seja: uma única mina de ouro escondia ramos inteiros da árvore da vida, que estavam passando abaixo do radar dos taxonomistas.

Trata-se de um resultado muito prolífico para muito material de análise tão humilde: a coleta consistiu em apenas oito amostras de líquido do interior da caverna, algumas acumuladas há 10 mil anos. É de se imaginar quantos serezinhos não estariam escondidos em coletas ainda maiores. Nós só conhecemos cerca de 2 milhões das 8,7 milhões de espécies que possivelmente existem no planeta.

E vale lembrar os mais medrosos: não estamos falando de organismos patogênicos; esse tipo de pesquisa não vai desencadear uma nova pandemia nem gerar qualquer outro desfecho catastrófico de filme do Michael Bay. A esmagadora maioria dessas formas de vida microscópicas é neutra ou até útil para nós.

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50 filos é um bocado de coisa para explicar em um texto curto como este, mas calma que não é tão difícil. Os pesquisadores descobriram que, minúcias taxonômicas à parte, esses Julios Vernes miniatura vêm em basicamente dois tipos.

Os chamados minimalistas são micróbios com um metabolismo muito específico. Eles se sustentam por meio de um conjunto fixo de reações químicas, possíveis apenas no habitat em que estão inseridos. Alguns se viram sem genes essenciais, como os que contêm instruções para fabricar certas peças da parede de suas células. Ou seja: são inteiramente dependentes dos insumos fornecidos por outras bactérias, numa ciranda delicada de trocas de favores.

Os maximalistas, por outro lado, são os MacGyvers do chão. Comem qualquer coisa, sem frescura, e tem uma paleta ampla de genes, preparada para lidar com condições ambientais variadas.

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Estudar tanto os minimalistas como os maximalistas é imprescindível, por exemplo, para entender que tipo de vida podemos encontrar em outros planetas (caso haja alguma para se encontrar, é claro).

A respiração como a conhecemos depende da existência de uma atmosfera com oxigênio, coisa que está em falta no Sistema Solar. E as cadeias alimentares estão apoiadas, em última instância, na capacidade que as plantas têm de gerar açúcar a partir do gás carbônico usando energia solar.

Se houver algum ser vivo em Marte, ele com certeza não tera um metabolismo similar ao nosso, e não fará parte de uma cadeia alimentar nos moldes acima. É mais provável que o dito-cujo viva no subsolo e seja algo próximo de um organismo quimiolitoautotrófico. 

Essa palavra desesperadoramente longa descreve organismos cuja fonte de energia é a oxidação de moléculas inorgânicas. Em outras palavras, eles tiram leite de pedra e não precisam de fotossíntese. Dá-se um nome genérico a seres vivos capazes de sobreviver em condições de calor, pressão ou pH ridículos: eles são os extremófilos (“amantes dos extremos”).

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Que venham os extermófilos marcianos: quem sabe o Planeta Vermelho, tão árido na superfície, não esconde algo de familiar em suas rochas?

 

 

 

 

 

 

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