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Ventos na estratosfera de Júpiter chegam a 1.450 km/h, revela estudo

Pela primeira vez, cientistas conseguiram medir a velocidade dos ventos da atmosfera intermediária do planeta. Os resultados revelam tempestades três vezes mais fortes do que os piores tornados terrestres.

Por Bruno Carbinatto 19 mar 2021, 19h22

Júpiter, o maior planeta do Sistema Solar, é famoso por suas tempestades ferozes – como a Grande Mancha Vermelha, uma esfera escarlate que se destaca nas fotografias do gigante gasoso e que, na verdade, é um enorme ciclone. Apesar disso, algumas áreas da atmosfera de lá permanecem misteriosas para os cientistas, especialmente nas suas camadas intermediárias (que, juntas, formam a estratosfera).

Agora, pela primeira vez, uma equipe de astrônomos conseguiu medir com precisão a velocidade dos ventos da atmosfera média de Júpiter, e os números impressionam: a ventania pode chegar a até 1.450 km/h, cerca de três vezes o marco alcançado pelos tornados mais poderosos aqui na Terra. O estudo foi publicado no periódico científico Astronomy & Astrophysics. 

A velocidade dos ventos em Júpiter é estudada principalmente por meio de observações das nuvens do planeta, que correspondem às faixas brancas e vermelhas que vemos nas fotos. Essas nuvens, porém, não existem nas camadas mais inferiores da atmosfera jupiteriana. Nas camadas mais superiores, também é possível medir a velocidade dos ventos com os estudos das brilhantes auroras que acontecem nos polos do planeta quando partículas carregadas vindas do espaço colidem com átomos dos gases em movimento.

  • O meio-termo, porém, é muito mais difícil de ser estudado: ele não tem nuvens nem fenômenos luminosos que conseguimos observar. Por isso, a velocidade dos ventos da estratosfera intermediária nunca tinha sido determinada até agora.

    No estudo, publicado na última quinta-feira (18), astrônomos do Observatório Europeu do Sul (ESO) finalmente conseguiram calcular esses valores. Isso só foi possível porque, em 1994, um cometa chamado Shoemaker–Levy 9 colidiu com Júpiter. O acidente resultou em diversas moléculas espalhadas pelo planeta – algumas das quais são levadas pelos ventos dessa camada intermediária. E, usando o enorme radiotelescópio Atacama Large Millimeter Array (ALMA), localizado no Chile, os cientistas conseguiram rastrear o percurso de uma delas: o cianeto de hidrogênio (HCN).

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    O observatório ALMA, na verdade, consegue medir a radiação emitida pelo HCN e como ela varia. A partir daí, é possível calcular a velocidade da trajetória graças a um fenômeno conhecido como “Efeito Doppler” – que diz que a frequência das ondas emitidas por um objeto em movimento variam de acordo com a trajetória. É só pensar em uma ambulância passando por você na rua – o som da sirene parece mais ou menos agudo de acordo com a distância.

    Assim, observando as variações nas ondas de radiação emitidas pela molécula carregada pelo vento, os cientistas conseguiram medir a velocidade das correntes de jatos da atmosférica intermediária do planeta. (O termo “corrente de jato” representa, no jargão científico, estreitas faixas de ventos vento na atmosfera de um planeta, incluindo na Terra.)

    Próximo aos polos de Júpiter, essas correntes atingem os incríveis 1.450 km/h. Isso equivale a mais de duas vezes a velocidade máxima alcançada nas tempestades da Grande Mancha Vermelha de Júpiter, e mais de três vezes a medida nos tornados mais fortes da Terra. No equador do planeta, as brisas são mais suaves: “apenas” 600 km/h.

    “Nossa detecção indica que esses jatos podem se comportar como um vórtice gigante, com um diâmetro de até quatro vezes o da Terra e a cerca de 900 quilômetros de altura na atmosfera de Júpiter”, explicou em comunicado o coautor do estudo Bilal Benmahi, do Laboratório de Astrofísica de Bordeaux, na França. “Um vórtice desse tamanho seria uma fera meteorológica sem comparações em nosso Sistema Solar”, acrescentou.

    As observações também surpreenderam porque, anteriormente, alguns teóricos defendiam que os ventos na estratosfera média de Júpiter seriam bem mais fracos e menos relevantes do que os observados na atmosfera inferior e exterior – o que, agora, provou-se uma ideia errada.

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