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Alexandre Versignassi

Por Alexandre Versignassi
Blog do diretor de redação da SUPER e autor do livro "Crash - Uma Breve História da Economia", finalista do Prêmio Jabuti.
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Por que o petróleo barato nunca vai entrar no seu tanque

Quer ganhar R$ 137 milhões hoje? Fácil: pega um petroleiro, vai até o Golfo do México e enche de gasolina. Cabem 320 milhões de litros lá. Mas tudo bem: aproveita e enche até a boca mesmo, já que agora, com o petróleo em recorde de baixa, o litro da gasolina por lá tá mais barato […]

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Atualizado em 21 dez 2016, 09h49 - Publicado em 7 jan 2015, 09h38

Oil-Tanker

Quer ganhar R$ 137 milhões hoje? Fácil: pega um petroleiro, vai até o Golfo do México e enche de gasolina. Cabem 320 milhões de litros lá. Mas tudo bem: aproveita e enche até a boca mesmo, já que agora, com o petróleo em recorde de baixa, o litro da gasolina por lá tá mais barato que paçoca: R$ 1. Aí você pega, paga R$ 320 milhões para os caras do Golfo e volta. Sabe por quanto vai dar para vender a gasolina toda aqui? R$ 457 milhões. É que o preço no Brasil ficou 40% maior que o do mercado internacional. Um litro de gasolina no atacado sai por R$ 1,43 – é o que as refinarias da Petrobras cobram dos distribuidores, que depois revendem a gasolina para os postos. Nisso, você transforma R$ 320 milhões em R$ 457 milhões. E  levanta uma Mega-Sena de lucro, R$ 137 milhões, sem se dar ao trabalho de ficar conferindo bilhete.

Mas claro: se fosse fácil assim eu mesmo não tava aqui plantando capim-guiné pra boi abanar rabo. Estava era tentando convencer meu gerente a me emprestar R$ 320 milhões – mais uns quebrados para alugar petroleiro, caminhão-tanque… esses detalhes logísticos. Como ele provavelmente não vai me liberar a grana, e os mexicanos não parcelam no cartão, perdi. Eu e basicamente todo mundo, porque não tem jeito: a infraestrutura financeira para aproveitar este momento de gasolina barata lá fora e cara aqui dentro é tão brontossáurica que poucas empresas têm como aproveitar.

Por causa do seguinte: até o meio do ano passado passado a situação era inversa. A gasolina no atacado lá fora estava custando na faixa de R$ 1,60 o litro. E o preço no Brasil, imposto pelo governo, era de R$ 1,39. Não valia a pena importar, lógico: o prejuízo era de quase R$ 70 milhões para cada petroleiro que fizesse a viagem até o golfo – isso só na diferença de preço do combustível, sem contar os detalhes logísticos. Mas a Petrobras importava. A demanda aqui estava bem mais alta que a nossa capacidade de produção de derivados (e continua estando). E aí era aquela história que todo mundo cansou de ouvir: o governo mandava a estatal comprar caro para vender barato. Segurava a inflação, já que não deixava a gasolina subir, ao mesmo tempo em que criava um rombo multibilionário no caixa da empresa.

Mas essa é só a parte mais conhecida da história. A merda mesmo, pra quem não é acionista da Petrobras, foi outra. A manutenção da defasagem de preços matou a indústria de importação de combustíveis no Brasil. Uma distribuidora que quisesse concorrer com a estatal teria que vender por mais de R$ 1,60 o litro. Com a estatal vendendo a R$ 1,39, ela ficava sem mercado. E a Petrobras virou a única importadora de combustíveis do país. Agora, sem concorrentes para atrapalhar, a Petrobras cobra R$ 1,43 e pronto, que se dane se pagou só R$ 1.

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Claro: tem o lado de que a Petro precisa repor as perdas e coisa e tal. Foram seis anos de prejuízo nessa jogada de comprar caro e vender barato. Mas com a diferença de preços nesse patamar de hoje, isso não vai ser problema: até o final de 2015 eles repõem tudo o que perderam, informam os repórteres Rodrigo Pedroso, Camila Maia e Claudia Schuffner, no Valor. Mas isso só é uma notícia boa para quem é acionista da Petrobras. Os quase 200 milhões de brasileiros que não são estão dando dinheiro de graça para a estatal na hora de encher o tanque. A falta de concorrência impede que a diminuição dos preços internacionais da gasolina chegue ao mostrador da bomba do posto. Lá fora, o petróleo 50% mais barato deve jogar US$ 1 trilhão/ano limpos nas economias. Dinheiro que acabaria queimado nas câmaras de combustão dos motores acaba circulando por todos os setores. E quem agradece é o PIB. O dos EUA já está subindo 5% ao ano (o melhor ritmo deles em 11 anos), e a China deu uma bela desafogada: anunciou que vai investir US$ 1 trilhão em infraestrutura, boa parte porque está gastando menos em combustível. Nisso, não deve ter dificuldade para manter seu PIB crescendo 8%, 9%. O nosso se arrasta a 0,2%, enquanto os bilhões que poderiam estar regando a nossa economia agora mesmo vão virando fumaça de escapamento – ou coisa pior, tendo em vista o histórico da empresa onde esse dinheiro vai parar.

 

 

 

 

 

 

 

 

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