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Bruno Garattoni Por Bruno Garattoni Vencedor de 13 prêmios de Jornalismo. Editor da SUPER.

Terceira dose da vacina produz células adaptadas para combater Ômicron

Por Bruno Garattoni Atualizado em 14 jan 2022, 12h37 - Publicado em 11 jan 2022, 13h02

Estudo revela que células B, responsáveis por fabricar anticorpos e guardar informações sobre o vírus, se tornam mais capazes de reconhecer e atacar a nova variante após reforço da vacina; descoberta pode afastar a necessidade de uma quarta dose

Com o surgimento da variante Delta, vários países liberaram a terceira dose da vacina para todos os adultos – uma política que, após o aparecimento da Ômicron, se tornou quase universal. A dose de reforço eleva os níveis de anticorpos no organismo, restaurando a proteção contra infecção e doença severa causadas pela nova variante. Mas, assim como nas doses anteriores, esse aumento é temporário; alguns meses após a vacinação, a quantidade de anticorpos cai naturalmente. Isso cria uma dúvida crucial: a terceira dose será suficiente para frear a pandemia, ou a vacina terá de ser aplicada mais vezes (talvez até periodicamente, como a da gripe)? 

Um estudo feito por cientistas da Universidade Harvard e do MIT sugere que a terceira dose da vacina muda a resposta imunológica, induzindo uma diferenciação importante nas células B. Essas células, que fabricam anticorpos e guardam a “memória” do vírus, se tornam mais capazes de reconhecer e atacar a variante Ômicron (mesmo ela não estando presente nas vacinas, que ainda são baseadas no vírus “original”, de Wuhan). 

Os pesquisadores coletaram amostras de sangue dos voluntários em três momentos: antes da vacinação, logo após a segunda dose, e depois da dose de reforço. Os voluntários receberam imunizantes de RNA mensageiro, da Pfizer ou da Moderna. Os cientistas também colheram sangue de pessoas que haviam sido infectadas pelo Sars-CoV-2. 

Em seguida, todas essas amostras foram colocadas em contato com a proteína spike (os “espetos”) da variante Ômicron. Como esperado, o sangue pré-vacinação não apresentou níveis significativos de células B anti-Ômicron. Após vacinação ou infecção pelo coronavírus, o sangue passou a conter células B capazes de reconhecer e atacar o vírus. Isso era esperado também. 

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O surpreendente foi o que ocorreu após a terceira dose da vacina. Ela não aumentou a quantidade de células B. Porém, “o boost [dose de reforço] induz a diferenciação de células B pré-existentes em células efetoras e de memória que se conectam à Ômicron”, relata o estudo. O nível de células B “genéricas” diminui – porque elas dão origem a células capazes de reconhecer e atacar a variante Ômicron. Veja abaixo:   

gráficos
No primeiro gráfico, níveis de células B “dormentes” antes e depois do boost (terceira dose da vacina). A quantidade delas diminui. Isso acontece porque, como você pode ver no segundo gráfico, elas dão origem a células B efetoras (que produzem anticorpos) e de memória (que reconhecem o vírus) adaptadas à Ômicron. medRxiv/Reprodução

Tanto as células B efetoras (que fabricam anticorpos) quanto as células B de memória (que guardam informações sobre o vírus) se tornam mais adaptadas à Ômicron. Mais do que simplesmente aumentar os níveis de anticorpos ou de células de defesa, a terceira dose da vacina parece provocar uma alteração qualitativa na resposta imunológica do organismo, inclusive contra a nova variante. 

Isso significa que ela não é um mero “reforço”, que precise necessariamente ser refeito de tempos em tempos; ao aperfeiçoar as defesas do organismo, talvez estabeleça um patamar de imunidade mais alto – e, com isso, afaste a necessidade de reaplicações periódicas da vacina. 

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A necessidade ou não de uma quarta dose ainda é uma incógnita. Alguns países, como Israel e Chile, já começaram a aplicá-la em certos grupos demográficos; outros, como França e Alemanha, cogitam a medida. Já os EUA dizem que é prematuro considerar uma quarta dose – e o Reino Unido decidiu não aplicá-la. Ontem o CEO da Pfizer, Albert Bourla, disse que a empresa está desenvolvendo uma vacina adaptada contra a variante Ômicron, que deverá estar pronta em março. 

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