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Como a laranja-baía explica Darwin

Essa variação da fruta é a prova de que mutações genéticas não têm nada de ruim: elas são o combustível da seleção natural, e a razão de você existir.

Por Bruno Vaiano Atualizado em 11 set 2018, 11h12 - Publicado em 10 set 2018, 16h16

Ontem, sei lá eu por quê, eu cortei uma laranja-baía ao meio em vez de descascá-la. Percebi que a casca era bem mais grossa que a de uma laranja normal, e se desprendia com facilidade dos gomos. Percebi, também, que era possível desprender os próprios gomos – e comê-la sem fazer sujeira nenhuma, como se faz com uma tangerina. Muito prático.

Conforme puxava os gomos, notei que eles eram recortados na região em que, do lado de fora da laranja, se vê o tal “umbigo”. Esses recortes arrendondados delineavam uma espécie de núcleo, facilmente separável do resto. Era como um gomo sobressalente – esférico, e não em forma de meia lua, alojado no interior da fruta.

Quando os gomos acabaram, me dei conta de que tinha em mãos uma pequena laranjinha, que morava no interior da laranja maior. Não era um golpe de sorte: na verdade, o que torna a laranja-baía maior e mais gostosa que uma laranja normal é justamente o fato de que ela são duas laranjas em uma. E o umbigo é só efeito colateral disso.

Isso ocorreu pela primeira vez graças a uma mutação genética sobre a qual não encontrei mais detalhes, numa laranjeira plantada no quintal de um monastério na Bahia, por volta de 1820. Foi um salto e tanto: esse combinado de laranja no interior de laranja era muito mais doce que o normal. De bônus, a casca ficou laranja de fato – e não esverdeada.

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As incômodas sementes sumiram, e isso sim era um problema: só havia uma cópia da laranjeira mais gostosa do mundo, e ela não podia se reproduzir! O jeito foi cloná-la por meio de enxertos. De novo e de novo. Até nos EUA elas foram parar. Toda laranja-baía que existe no mundo hoje contém, grosso modo, o mesmo DNA (imagino que algumas mutações locais já tenham tido tempo de se acumular, desde então, mas não sou especialista para cravar).

Da mesma maneira que uma mutação acidental em uma única árvore foi selecionada pelo ser humano e agora domina o mundo, os recursos limitados disponíveis no meio ambiente selecionam seres vivos com mutações que os tornam mais aptos a viver ali. Assim operam, respectivamente, as seleções artificial e natural. Se a sopinha de letrinhas do DNA não variasse – às vezes com resultados bons, às vezes com resultados ruins – nós sequer existiríamos. Todo ser vivo é um acúmulo de erros que, por uma feliz coincidência, foram acertos.

O que é tido como melhor (seja pelo ser humano fazendo seleção artifical, seja pelo ambiente fazendo seleção natural), depende completamente do contexto. Se o que acontece com as laranjas ocorresse com dois seres humanos, daríamos ao resultado o nome de gêmeos siameses. Eles seriam vistos como aberrações. No século 19, seriam atrações circenses, no século 21, virariam documentário do History Channel. Pessoas mais sensíveis, de tanta aflição, sequer conseguiriam olhar para eles.

Não é legal colocar as pessoas na TV por causa disso, certo? Talvez seja hora de olharmos para as coisas diferentes como sendo só isso, mesmo: diferentes, e não melhores ou piores. Trinta por cento de todos os vegetais que crescem em fazendas britânicas são descartados antes mesmo de serem colhidos – muitos porque têm protuberâncias ou cores que não se encaixam nos padrões. A laranja-baía poderia ter entrado para essa estatística. Mas virou queridinha. Por que o resto não poderia entrar para o clube (e de quebra ajudar a resolver uma eterna crise de disponibilidade de alimentos?)

Abrace os mutantes: você é um.

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Ciência
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