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2014 é o novo 1914

Há cem anos, o mundo via sua era mais pacífica e globalizada desembocar na maior guerra da história até então. E a realidade de hoje talvez não seja tão diferente

Maurício Horta

O mundo nunca esteve tão calmo. Menos gente morreu em conflitos armados no século 21 do que em qualquer década do século passado. Foram 55 mil mortos por ano, contra o dobro disso nos anos 90 e o triplo na Guerra Fria. O número de governos eleitos subiu de 69 em 1991 para 118 em 2013, e democracias modernas nunca fizeram guerra entre si.

Nesse tempo, o comércio internacional quintuplicou, áreas de livre comércio pipocaram, o número de passageiros aéreos internacionais dobrou e a internet se expandiu de 0,1% para 36% da população mundial. A globalização cresceu de tal forma que o mundo se tornou interdependente demais para que uma guerra entre potências pareça plausível.

A última vez em que tudo parecia tão em ordem globo afora foi justamente há cem anos. No começo de 1914, o mundo vivia um auge inédito de paz e progresso. Desde o fim das Guerras Napoleônicas, em 1815, a Europa não via uma guerra de escala continental. Informações atravessavam fronteiras em tempo real pelo telefone e pelo telégrafo. O Expresso do Oriente ligava Paris a Istambul – e de lá até cantos exóticos como Bagdá e Medina, trazendo para as penteadeiras ocidentais perfumes com essências das Arábias. Os cosmopolitas londrinos, parisienses e berlinenses discutiam em mesas que serviam café brasileiro e chá indiano, frequentavam óperas com histórias vindas da Pérsia e se maravilhavam com invenções como o automóvel, o avião e o cinema.

Nada parecia impedir o avanço natural das sociedades. Só que havia algo de podre no reino da paz. Esse avanço não era natural, mas extremamente político. Por trás da duradoura tranquilidade havia um xadrez estratégico chamado “equilíbrio de poder”. Toda vez que uma potência do continente dava sinal de querer brincar de Napoleão, a Grã-Bretanha, nação mais poderosa da época, apoiava as potências rivais. Assim, nenhum país se sobressaía.

Tudo funcionou bem até que, no centro da Europa, uma salada de pequenos Estados rurais decidiu se unificar. Liderados pela Prússia, eles viraram o Império Alemão. Rapidamente, formaram a maior rede ferroviária da Europa, a maior indústria siderúrgica do mundo e a maior fome por recursos naturais e mercados. Se os tempos fossem outros, a Grã-Bretanha faria de tudo para barrar a expansão alemã, que ameaçava silenciosamente tanto a França quanto a Rússia. Mas eis que veio o conto da carochinha. Quando potências conseguem assegurar seus interesses pelo livre-comércio, elas não precisam fazê-lo pela guerra. E o Império Alemão e a Grã- Bretanha eram os maiores parceiros comerciais entre si na Europa. Uma guerra só poderia atrapalhar… Pois bem. Bastou o assassinato do arquiduque austro-húngaro Francisco Ferdinando por um estudante anarquista para começar a então maior guerra da história, que matou 9 milhões de pessoas, ergueu barreiras comerciais, e gerou o embrião da Segunda Guerra, ainda mais apocalíptica. E o mais incrível é que só na década de 1990 a globalização pré-1914 seria retomada de fato.

Mas a história nos ensina que a história não nos ensina nada, lembra o diplomata Rubens Ricupero. A revista britânica The Economist recentemente identificou a charada do centenário de Primeira Guerra. Se 1914 e 2014 fossem duas partidas de xadrez, as peças dos dois tabuleiros estariam em posições assustadoramente semelhantes, com a diferença de um estar na Europa e outro estar no Oceano Pacífico. A Grã-Bretanha de então seriam os EUA de hoje – o manda-chuva econômico e militar cada vez mais enfraquecido. A nova França seria o Japão – o aliado em decadência política e econômica que não consegue mais apitar sozinho em seu quintal. E quem faz o papel do Império Alemão é, claro, a China – a potência que há poucos anos se tornou o número dois do mundo em quase tudo o que importa em geopolítica: orçamento militar e uma indústria sedenta por recursos naturais e mercados.

Tal como no início de 1914, acreditamos que o comércio internacional se tornou tão dinâmico que uma guerra mais atrapalharia do que contribuiria para os interesses das potências. Para que a China faria alguma guerra se os EUA e o Japão são seus maiores parceiros comerciais? Mas, enquanto os agentes econômicos do mundo focam nessa pergunta, a China aumentou de 1% para 10% sua fatia no orçamento militar do planeta. Ainda é um quarto do orçamento americano, mas já é mais que o triplo do japonês e não para de crescer. Agora, começou a mostrar os dentes ao Japão na disputa por algumas ilhotas que servem de pouco mais que estacionamento de gaivotas. E continua a passar a mão na cabeça da Coreia do Norte, a ditadura atômica que vive de fazer ameaças insanas.
Nada disso significa a iminência de uma Terceira Guerra Mundial, claro. Não porque as economias de EUA, China e Japão sejam interdependentes – esse mito foi assassinado junto com Francisco Ferdinando em 1914. Não. A razão está em Hiroshima. Ironicamente, nosso seguro contra um conflito global é o risco de uma hecatombe maior – o holocausto atômico. E seria completamente idiota atravessar essa linha vermelha, certo? Certo. Há cem anos, porém, a ideia de uma guerra total parecia tão estúpida quanto. E nem por isso ela deixou de acontecer.