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A extinção do etanol

Até outro dia, o Brasil era a "Arábia Saudita do etanol". Agora importamos álcool. Veja como a intervenção do governo nos preços da gasolina nos levou a essa situação constrangedora. E o que fazer para sairmos dela

Alexandre Versignassi e Rodrigo Rezende

O preço da gasolina é uma ficção. Para cada R$ 3 que você gasta em combustível, deveria pagar R$ 4 (o mesmo vale para o diesel). Se isso não acontece, é porque existe alguém mantendo o preço em baixa: o governo. Para fazer isso, ele usa a Petrobras. É que a estatal tem o monopólio do comércio de derivados de petróleo – se você é dono de um posto, tem de comprar sua gasolina e seu diesel com a Petrobras.

Quem tem um monopólio determina o preço. Então é o governo, como maior acionista da petroleira, quem dita quanto a gasolina e o diesel vão custar. E nos últimos anos ele tem mantido esse preço abaixo do que se cobra no mercado internacional. Fazendo isso, o Estado pretende combater a inflação. Natural. Com energia cara, a inflação decola – os gastos extras das empresas com gasolina e diesel vão parar nas etiquetas de preço dos produtos. E se a inflação decola, a economia degringola. Há vários meios de tentar manter a inflação sob controle. Uns são indiretos e complexos. Outros, mais simples. E um é tão direto que chega a parecer tosco: garantir energia barata. A qualquer preço.

O problema, agora, é justamente o tal preço. A gasolina barata está ficando cara para o País. É que interferir dessa forma num mercado é algo tão arriscado quanto mexer em um ecossistema. E controlar o preço da gasolina tem um efeito colateral óbvio no “meio ambiente” dos combustíveis: afeta o mercado do etanol. Basta olhar um dado que o motivo salta aos olhos: mais de 80% dos carros vendidos a cada ano são flex. Você escolhe se quer encher o tanque com álcool ou com gasolina. Se ela estiver barata o bastante, você não usa álcool. E sem você a indústria do etanol morre.

O álcool, vale lembrar, só teve seu lugar ao sol depois da crise do petróleo. O evento que explodiu na década de 1970 foi quase tão ruim para a economia quanto o asteroide que caiu na Terra há 65 milhões de anos foi para os dinossauros. Sem esse asteroide, por outro lado, não estaríamos aqui. Como ele tirou os dinossauros do caminho, abriu terreno para que nossos ancestrais, os primeiros mamíferos (uns cotocos menores do que camundongos) tivessem seu lugar ao Sol. E deu no que deu.

Bom, com a crise do petróleo a gasolina ficou tão cara que ter um carro era tão complicado quanto ser um dinossauro no day after do asteroide. Mas o Brasil foi esperto: aproveitou a oportunidade para investir numa espécie de “pequeno mamífero” do mundo dos combustíveis: o etanol. Deu certo. O “dinossauro” petróleo até sobreviveu. Mas o álcool garantiu seu lugar. Tanto que os próprios Estados Unidos, que sempre se orgulharam de nadar em gasolina e hoje produzem quase tanto petróleo quanto a Arábia Saudita, investiriam pesado na produção de etanol, até se tornarem os maiores produtores do mundo.

E o Brasil faz exatamente o oposto agora. Com o governo segurando o preço da gasolina no braço, o que ele acaba fazendo é destruir o etanol por aqui. Nos últimos três anos, a frota de carros subiu 20%. Doze milhões a mais. Quase todos com motor flex, claro. E o que aconteceu? O consumo de gasolina cresceu 50%. E o de álcool caiu 50%. Um pouco mais, na verdade: despencou de um pico de 22,8 bilhões de litros (em 2009) para 10,7 em 2011. E a corrida ladeira abaixo continua firme: 2012 deve fechar abaixo dos nove bilhões de litros. Desse jeito, produzir álcool no Brasil virou um mico. O lucro dos usineiros foi para o espaço. E a produção, naturalmente, despencou. Tanto que já tivemos de importar bilhões de litros de etanol de milho dos EUA (para suprir os 20% de álcool obrigatórios na composição da gasolina).

Para um país que até outro dia se dizia a “Arábia Saudita do etanol”, é uma situação constrangedora ter de importar álcool de tortilla dos americanos.

Pior ainda. Nossas refinarias não dão conta dessa demanda louca por gasolina que o preço controlado criou. E entramos numa situação patética: sete anos depois de o governo declarar nossa autosufiência em petróleo, precisamos importar combustível a rodo. Hoje são mais de 3 bilhões de litros de gasolina por ano, contra 500 milhões em 2010. De cada 100 litros de derivados de petróleo que consumimos, 15 vêm do exterior.

Como Dilma Rousseff não é a “presidenta” do planeta, ela não apita nos preços lá de fora. E a Petrobras tem comprado por R$ 4 para vender por R$ 3. Aí não tem quem aguente. O prejuízo com as importações de gasolina foi de R$ 5 bilhões nos últimos dois anos. Com o diesel, por sinal, o rombo foi maior ainda: R$ 17 bilhões – só que aí o buraco é mais embaixo: não dá para substituir diesel por álcool. Mas esse vazamento de dinheiro, por si só, também afeta o etanol. A própria Petrobras cortou investimentos na área, para aliviar o caixa. Um dos projetos de que a empresa abriu mão, por exemplo, foi o de um etanolduto de mais de mil quilômetros ligando regiões produtoras em vários Estados – o que diminuiria drasticamente os custos de transporte do álcool.

Assim fica difícil. E agora? O primeiro passo para a solução é liberar o preço da gasolina. Seria indigesto num primeiro momento, mas a indústria do álcool ganharia força, já que uma gasolina mais cara aumentaria a demanda por biocombustível. Sem falar que é importante a Petrobras se livrar de pelo menos parte das perdas. Porque se ela não der conta de continuar importando tanto para vender com prejuízo e, para completar, a produção de etanol definhar de vez, uma hora pode faltar combustível nos postos. Aí nosso crescimento econômico, que já está bem travado, acabaria pior ainda: em risco de extinção.