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A volta do World Trade Center

Treze anos depois do maior ataque terrorista da história, o edifício-símbolo de Nova York finalmente foi reerguido. No lugar das Torres Gêmeas, há apenas um prédio - construído com novas tecnologias e supostamente preparado para resistir a atentados. Veja o que o novo WTC tem. E saiba por que ele demorou tanto para ficar pronto.

Maurício Moraes

A queda das Torres Gêmeas, em setembro de 2001, teve um impacto gigantesco. E não só como você pensa. Além das 2.977 vítimas mortas, dos US$ 10 bilhões em prejuízos, do abalo psicológico global e da invasão do Afeganistão, o maior atentado terrorista de todos os tempos trouxe consigo um problema mais direto. Depois que os bombeiros conseguiram apagar o incêndio, o que levou intermináveis três meses, as autoridades começaram a refletir sobre o futuro daquele espaço. Reerguer as duas torres? Deixar o local vazio? Transformá-lo em parque? Fazer um memorial? Depois de muita discussão, os americanos decidiram construir um prédio no local: o One World Trade Center. Ele está pronto, e deve ser inaugurado nas próximas semanas (a data exata não foi divulgada, possivelmente por questões de segurança). Foi uma das obras mais caras e tumultuadas de todos os tempos, cheia de inovações tecnológicas e reviravoltas políticas.

Sua história começa em dezembro de 2001.
Com o incêndio finalmente extinto, veio o primeiro problema. Como se livrar dos destroços das Torres Gêmeas? Era uma montanha gigantesca, com 1,5 milhão de toneladas de aço e detritos. Um problemaço. Para piorar, policiais, bombeiros e operários envolvidos na demolição brigavam sem parar. Um dos principais motivos eram os furtos. Isso porque as torres e seu entorno ficaram interditados, trancados, com todos os objetos dentro. E foram implacavelmente saqueados pelos envolvidos na limpeza da área. Laptops foram levados de prédios vizinhos, que ficaram abalados, mas não caíram. Bolsas e maletas foram furtadas. Havia muitas lojas na região atingida, que se tornaram alvos. Segundo o jornalista William Langewiesche, autor de American Ground (“Solo Americano”, sem versão em português), os bombeiros preferiam relógios de luxo, os policiais gostavam de eletrodomésticos e os operários levavam o que vissem – sobretudo vinhos, encontrados nas ruínas do hotel Marriott, e cigarros achados num depósito da Alfândega.

Também havia um tesouro sob os escombros: um cofre com mil quilos de barras de ouro e prata do Banco da Nova Escócia, no valor de US$ 250 milhões. Quando ele foi encontrado, e uma equipe chamada para retirar o conteúdo, descobriu-se que alguém já havia tentado arrombar a porta, sem sucesso. Foram necessárias 120 viagens de caminhão para levar as barras embora.

Durante a operação de limpeza, os operários encontraram um carro de bombeiros soterrado. Não havia ninguém dentro. Mas a cabine estava cheia de calças jeans – algumas dúzias delas, que os bombeiros haviam furtado em lojas do WTC antes do desabamento das torres, quando deveriam estar socorrendo pessoas. Isso causou escândalo nos EUA e arranhou a imagem dos bombeiros, que até então eram vistos como os herois do 11 de Setembro. O corpo de bombeiros se desentendeu com a polícia, que também atrapalhou o trabalho dos operários. “O local foi tratado como a cena de um crime. Todos os escombros foram vasculhados manualmente em busca de provas”, diz John Knapton, professor de engenharia de estruturas na Universidade Newcastle, na Inglaterra. Os detritos foram colocados em balsas e levados para um aterro em Staten Island, onde eram analisados e depois agrupados em montanhas.

O aço não ficou ali. Quase 200 mil toneladas dele, que ainda estavam em bom estado, foram cortadas e vendidas para outros países. A Turquia comprou um pouco, mas a maior parte foi para Índia e China. Ele foi derretido, moldado em barras, revendido e usado na produção de diversos produtos – inclusive utensílios de cozinha, como facas, colheres e garfos. Os Estados Unidos também reaproveitaram uma parte do metal das Torres Gêmeas, usado para construir um navio da Marinha, o USS New York. O processo foi polêmico. Alguns disseram que era um desrespeito à memória das vítimas, outros que a reciclagem poderia estar destruindo provas. O Greenpeace alegou que o aço poderia estar contaminado por substâncias tóxicas, como mercúrio, chumbo e cádmio, que teriam se misturado a ele durante o incêndio. Não deu em nada. A reciclagem continuou. E se você comprou talheres naquela época, é possível que tenha pedaços do WTC na sua casa.

A ALTURA DA INDEPENDÊNCIA

Depois que a remoção dos escombros terminou, em 2002, começaram as discussões sobre o que construir no Marco Zero. Um concurso foi aberto em agosto para eleger um plano de ocupação da área. O vencedor, anunciado em fevereiro de 2003, foi o arquiteto Daniel Libeskind, responsável pelos projetos do Museu Judaico de Berlim e da Universidade Metropolitana de Londres. Filho de sobreviventes do Holocausto, ele nasceu logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1946, e emigrou para os Estados Unidos na adolescência. Na chegada a Nova York, de navio, se encantou com a visão da Estátua da Liberdade e do horizonte de prédios da cidade.

O plano que Libeskind desenvolveu para o Marco Zero foi inspirado por essa visão. O desenho original do One World Trade Center trazia uma silhueta estilizada que acompanhava o perfil da Estátua da Liberdade, quando vista de lado. Mas a ideia foi abandonada, e o prédio final é bem diferente (veja na página ao lado). Na época, especulou-se que o projeto original fosse complexo demais, impossível de construir – uma versão questionada por especialistas. “Ele podia ser mais desafiador e mais caro, mas não era impossível de ser feito”, afirma Mir Ali, professor de arquitetura da Universidade de Illinois. Na prática, o desenho foi alterado por um motivo simples. O investidor Larry Silverstein, que manda no WTC (um mês e meio antes dos atentados, ele comprou os direitos de uso das torres por 99 anos), simplesmente não gostou dos primeiros esboços. E chamou outro arquiteto: o americano David Childs. Ele não se deu bem com Libeskind, que acabou deixando o projeto. As disputas atrasaram a construção, e pouca coisa restou da ideia original. Uma das características mantidas foi a altura: 1.776 pés (541 metros), uma referência ao ano da independência dos Estados Unidos. Isso tornou o One World Trade Center o edifício mais alto do Ocidente (e o quarto mais alto do mundo). Mas não há um consenso a respeito. Isso porque, na verdade, o prédio em si é bem mais baixo: tem 417 metros. A altura recorde só é atingida graças a uma “ponta” de 124 metros, o que é considerado um truque por alguns arquitetos.

Também não houve consenso na escolha do nome. Após os atentados, a ideia era que se chamasse Freedom Tower (Torre da Liberdade). Mas a Autoridade do Porto de Nova York, dona do local, decidiu em 2009, de uma hora para outra, que o prédio seria batizado de One World Trade Center. O argumento foi de que se tratava de um nome mais conhecido. Suspeita-se que o primeiro nome, que tem conotação patriótica e ideológica, pudesse afastar interessados em alugar os andares. Por enquanto, o novo WTC tem pouquíssimos inquilinos. O principal é a editora de revistas Condé Nast, que alugou 24 andares por um prazo de 25 anos – e vai pagar uma mensalidade de US$ 6,6 milhões. Além dela, também vão se mudar para o prédio o China Center, mistura de centro cultural e espaço de negócios ligado ao governo chinês, e a Administração Geral de Serviços (GSA), um órgão do governo americano. A construção do prédio custou US$ 3,9 bilhões – é a segunda obra mais cara, em preço por metro quadrado, de todos os tempos (só perde para o Antilla, um prédio residencial construido por um bilionário em Mumbai, na Índia). Metade do WTC está vazia, ainda sem interessados.

Em termos comerciais, não existia necessidade de se fazer o prédio. A torre vai acrescentar apenas 278 mil metros quadrados de escritórios à cidade (não muito mais do que o oferecido pelo Empire State Building, inaugurado em 1930). E, na área de Manhattan onde o One World Trade Center está localizado, já havia 674 mil metros quadrados de escritórios disponíveis para aluguel no final do ano passado, segundo a empresa Lee & Associates. Ou seja: levando em conta apenas os números, Nova York não precisaria do novo prédio. Isso não significa que as empresas não possam acabar se mudando para ele, atraídas pelo prestígio do local. Mas, para que isso aconteça, elas precisam se sentir seguras.

NÚCLEO DURO

A construção das Torres Gêmeas, nos anos 70, reinventou as técnicas de engenharia. Os edifícios tradicionais, como o Empire State, são grandes blocões de tijolos e concreto. O WTC era diferente. Sua estrutura era feita de aço, e usava um sistema inteligente: parte do peso de cada prédio era sustentado por uma rede de vigas que revestia todo o seu exterior. Graças a essas características, as Torres Gêmeas eram mais leves – e puderam ser construídas com mais andares.

Mas, quando os aviões bateram nas torres, em 2001, o ponto fraco dessa estratégia ficou evidente. Primeiro, o impacto rasgou a malha externa. Depois, as aeronaves explodiram e geraram bolas de fogo com 800 graus Celsius de temperatura. O problema é que a 600 graus o aço fica mole – perde cerca de metade da rigidez. Isso foi demais para os prédios. “A estrutura remanescente, sobrecarregada e com o aço debilitado, não suportou as cargas dos andares superiores”, explica Ricardo Fakury, professor de engenharia da UFMG. Por isso as torres caíram retas, como numa implosão. Sua estrutura ficou mole, cedeu, e os andares de cima foram esmagando os de baixo.

O novo WTC adota uma filosofia diferente. Ele também é feito de aço, mas tem uma grande base central de concreto, que ocupa 50% da área interna e funciona como uma espinha dorsal. “Isso adiciona resistência à estrutura. E as paredes de concreto ao redor de escadas e elevadores protegem muito mais as saídas de emergência”, explica Venkatesh Kodur, professor de engenharia da Universidade de Michigan. Os elevadores e as escadas ficam dentro desse núcleo, que na base é ainda mais reforçado: os primeiros 20 andares do prédio são uma espécie de bunker, sem janelas nem escritórios, construído com um novo tipo de concreto, três vezes mais forte que o tradicional. Segundo os construtores, isso permite que ele resista a um carro-bomba com até 680 kg de explosivos. Os vidros do prédio também são mais fortes, 50% mais grossos que o normal.
Tudo para ajudar o One World Trade Center a suportar eventuais ataques. E torná-lo capaz de vencer o que talvez seja seu maior desafio: convencer as pessoas a quererem trabalhar lá.