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Álcool não apaga memórias – não as traumáticas, pelo menos

Se o plano era beber para esquecer, más notícias...

Se por um acaso você cruzar com aquele sertanejo que diz que bebe para esquecer, porque se fosse para lembrar anotava; uma dica: não acredite tanto não. Ao contrário do que a crença popular diz, beber não te deixa com amnésia quando o que você quer esquecer é traumático – na verdade, as consequências são opostas. O álcool acaba impregnando ainda mais essas experiências no seu cérebro.

Quem chegou a essa conclusão foram pesquisadores da universidade americana Johns Hopkins Medicine. Para isso, eles traumatizaram ratos, e deram uma birita para eles aforarem as mágoas. Primeiro colocaram os animaizinhos em uma gaiola, quando eles já estavam tranquilos no ambiente, uma sequência de quatro notas musicais era tocada, e, logo após, o chão do ambiente era eletrificado, dando um choque nos animais. Em seguida o grupo era dividido em dois: metade tomava água, e a outra metade uma mistura de H2O com 20% de álcool.

No dia seguinte, os roedores eram colocados na mesma jaula em que tomaram o choque e, em seguida os cientistas repetiam as quatro notas musicais que haviam antecedido as descargas elétricas. Dessa vez, nenhum choque foi dado, mas mesmo assim, todos os ratinhos ficaram apavorados, sem conseguirem se mexer. Acontece que os animais que beberam água se acalmaram mais rápido do que quem havia bebido álcool um dia antes, e voltaram a se movimentar em um período 10% mais rápido do que os colegas.

Os pesquisadores ainda examinaram o cérebro dos animais antes, durante e depois do processo, e perceberam que, depois dos choques, o cérebro dos animais que ingeriram álcool tinha mais sinapses com enzimas relacionadas ao medo.

De acordo com os pesquisadores, o álcool acaba alterando a química do cérebro, e isso dificultaria o processo de esquecimento após eventos traumáticos. Como consequência, esse efeito pode retroceder um tratamento terapêutico correto já em andamento.

O objetivo do estudo é encontrar formas de tratar melhor os transtornos pós-traumáticos e mostrar que usar o álcool como auto-medicação não funciona (o que é feito por até 80% da população, de acordo com o estudo).