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Alugo: casa, furadeira, carro, tempo, wi-fi, conhecimento…

Estamos entrando em uma nova era da economia, em que tudo pode ser compartilhado. Com menos intermediários, menos desperdício e mais oportunidades. Mas também menos direitos, menos privacidade e mais desigualdade. Seja bem-vindo. A casa é sua (e de todo mundo).

Depois de seguidas quedas, a Petrobras chegou ao início do ano de 2015 com o mesmo valor de mercado que tinha em 2004: cerca de 40 bilhões de dólares. Por essa medida, a gigante brasileira virou uma empresa menor que a novata Uber, que apesar de ainda não estar na bolsa, é avaliada em 41 bilhões de dólares. Se você nunca ouviu falar, não se preocupe. A Uber foi criada em 2009 nos EUA e é, essencialmente, um aplicativo para celular que compete com os táxis e está dobrando de tamanho a cada 6 meses. Ela já está presente em mais de 53 países, inclusive no Brasil.

Ambas, de alguma forma, estão ligadas à indústria automotiva. A Petrobras fornece o combustível para os carros rodarem. A Uber permite que qualquer pessoa se cadastre como “taxista”. Nela, de um lado, qualquer um pode usar seus próprios carros para ganhar sustento como motorista e, de outro, clientes garantem um serviço superior (em conforto e muitas vezes preço) em relação ao táxi. Hoje a Uber é o maior exemplo de empresa que possibilita o que os estudiosos chamam de “economia compartilhada” ou “economia sob demanda”. Os termos são novos e ainda estão aguardando definições exatas, mas é só dar uma olhada em centenas de empresas parecidas para entender como elas estão mudando profundamente a nossa economia.

Ao lado da Uber, o AirBnB é a mais famosa face do movimento. Também baseado em um aplicativo (ou site), ele conecta pessoas que querem passar alguns dias em alguma cidade do mundo com donos de quartos, casas, apartamentos e até barcos dispostos a alugá-los – e cobra uma pequena comissão. Em poucos anos, ele já vale mais que qualquer rede de hotéis e tem 1 milhão de casas catalogadas na sua plataforma. Dezenas de empresas parecidas pipocaram ao redor do mundo.

Pessoas se ajudando, freando o consumismo desenfreado parece uma utopia hippie. Mas na verdade é só a confirmação da ideia bem capitalista de maximizar a eficiência do que temos à nossa disposição: dinheiro parado no banco, carro na garagem ou tempo no final do dia. É um pouco a volta da ideia de uma biblioteca, onde os livros passam pela mão de mais gente e têm uma vida útil muito maior. Com a diferença de que não é o governo ou uma escola gerenciando esses bens, mas os próprios indivíduos através de aplicativos no celular ou redes sociais – daí muitos chamarem isso de “economia peer-to-peer” (pessoa para pessoa). Todas essas empresas só existem graças à tecnologia.

Mas isso não seria problemático para as velhas empresas? À primeira vista, sim. Uma enorme parte delas fez a sua fortuna apostando na ideia de que as pessoas queriam possuir coisas. A economia compartilhada marca uma mudança de mentalidade: para uma quantidade crescente de gente, especialmente mais jovem, é melhor ter acesso do que posse. Por essa lógica, não queremos mais carros, exatamente, mas a utilidade do carro. Ter o aplicativo da Uber no celular é a garantia que você chegará rápido e confortavelmente a qualquer lugar. E, se fizer a conta de gasolina, estacionamento e estresse gastos atrás do volante, verá que é possivelmente mais barato.

À primeira vista, a economia colaborativa reduz o consumo – o que poderia, em tese, machucar a economia. Mas não necessariamente. “Podemos ver esse fenômeno como uma busca para outro tipo de economia, uma em que os negócios se preocupam mais com o reúso, o reparo e o acesso a bens de alta qualidade, em vez da manufatura de bens baratos e descartáveis”, diz Yassi Eskandari-Qajar, diretora do Centro de Leis para Economia Sustentável, da Califórnia. Não é difícil provar esse argumento: uma casa bem decorada no AirBnB é mais confortável do que um hotel fajuto.

A mesma ideia vale para os serviços. Há uma infinidade de novas plataformas que ligam demandas específicas a prestadores de serviços rápidos. Quer alguém para buscar comida em um restaurante que não oferece delivery? Há o Postmates, nos EUA, que emprega 6 mil entregadores. Precisa de alguém para traduzir um documento de coreano para espanhol? No Mechanical Turk, da Amazon, alguém faz isso no mesmo dia cobrando centavos por frase. Precisa de alguém que pinte sua casa amanhã? O site brasileiro Getninjas mostrará uma lista, com avaliações de clientes anteriores. Alguém para gerenciar todas essas outras pessoas? Há o Alfred, que oferece (adivinhe) mordomos que podem até separar a sua roupa suja. Alguns especialistas defendem que esse tipo de contratação de serviços é diferente da economia compartilhada, que troca bens. Por isso, o movimento é chamado de “on-demand economy” (economia sob demanda).

Da mesma forma que clientes podem usar diversos aplicativos da nova economia ao mesmo tempo, pessoas também podem oferecer diferentes serviços. Segundo informações da Freelance Union, espécie de “sindicato dos freelancers”, um terço dos americanos já faz algum trabalho fora do “emprego”, o que permite horários flexíveis, por exemplo, para pais que querem cuidar dos filhos em casa. Com a facilidade de conseguir vários freelancers com os aplicativos, não é difícil imaginar que essas pequenas demandas, somadas, virem o trabalho da pessoa. “Muitos freelancers veem essa forma de trabalho como a melhor maneira de tomar controle de sua vida”, definiu Sara Horowitz, diretora executiva da Freelance Union, à revista Fast Company.

Ou seja: a economia colaborativa reduz o consumismo exagerado, cria carreiras com mais liberdade e tira o poder de grandes corporações para devolvê-lo às pessoas – tudo isso enquanto oferece serviços e produtos melhores e mais baratos. “Os fundamentos econômicos dessa transição apontam para implicações positivas: taxas de crescimento econômico mais altas, um melhor padrão de vida, mais inovação e menos barreira de entrada para empreendedorismo”, resume Arun Sundarajan, professor de economia digital da New York University, um dos muitos na academia simpáticos à ideia.

Só há o que comemorar, certo?

Hmm, não é bem assim

Os americanos podem estar deslumbrados com as possibilidades dessa nova economia, mas para pessoas de países mais “atrasados” é relativamente fácil e barato para alguém um pouco mais rico achar pessoas para cuidar do cachorro, passar a roupa ou levar o carro para oficina. É só achar algum imigrante/migrante/menos favorecido disposto a aceitar um salário baixo em troca de um serviço. Da mesma forma, a ideia de trocar roupas de criança ou pegar todo tipo de objeto emprestado com os vizinhos não é novidade para quem mora na periferia – o uso consciente dos recursos já é prática corriqueira. Não há nada de revolucionário nisso. Em um artigo para a revista online Quartz, o indiano Leo Mirani escreveu que tinha todas essas conveniências da nova economia em Bombaim, na Índia, bem antes do smartphone. “Não foi a tecnologia que acelerou a economia sob demanda. Mas uma enorme massa de pessoas pobres”, conclui, dizendo que a “economia da Uber” só é possível graças à desigualdade.

Não é surpresa que muitas das empresas dessa nova economia tenham surgido, ou ganhado tração, logo depois da crise de 2008. “As pessoas que estão dirigindo para estranhos entre meia-noite e oito da manhã, ou executando todos esses trabalhos de meio-período, fazem isso porque não têm uma alternativa melhor”, diz Steven Strauss, professor de políticas públicas de Harvard. Para ele, basta ver que a maior parte de quem vai atrás dessas novas oportunidades – que ele chama de gig economy (“economia do bico”) – são os americanos que não têm ensino superior, para quem a renda caiu até 20%, em termos reais, na última geração.

Em um cenário econômico incerto, dirigir para a Uber parece uma boa oportunidade. Pelas contas da empresa, os motoristas chegam a ganhar 6 mil reais por mês, ou até 90 mil dólares por ano nos EUA, especialmente se trabalharem em horários com menos oferta, como de madrugada. Parece atraente, mas nenhum desses trabalhos configura o que convencionou-se chamar de emprego. Não há férias remuneradas, 13º, plano de saúde, previdência ou mesmo garantia de serviço. Por isso Guy Standing, economista da Universidade de Londres, chama essa crescente classe de freelancers de “precariado” – em oposição ao proletariado. Em um livro influente (Precariat, sem tradução para o português), ele diz que as lutas dos movimentos trabalhistas, as CUTs do mundo, ainda precisa alcançar a nova realidade.

Se o conceito de “firma” perde sentido, também vai com ele o “plano de saúde da firma”. Isso coloca mais pressão para que os sistemas públicos de saúde funcionem bem. Para a economia sob demanda ser bem sucedida, Standing argumenta, é preciso que os governos criem redes de seguridade social mais robustas.

Se por um lado as empresas da nova economia exigem que os governos cuidem mais dos cidadãos, por outro elas querem que nenhuma lei atrapalhe a sua entrada nos mercados. Experimente, em uma cidade como São Paulo, conversar com um taxista sobre a Uber. Durante esta reportagem, conversei com três. Eles reclamam que os carros da Uber não são vistoriados pelos órgãos oficiais, que os motoristas não precisam passar por checagens de antecedentes criminais e que falta segurança ao passageiro. Para ser tão bom e barato, taxistas argumentam, eles não concorrem em igualdade com os negócios antigos. De fato, como qualquer pessoa pode se cadastrar no aplicativo, a Uber já registrou casos criminosos ao redor do mundo: em Londres, passageiros foram vítimas de homofobia durante uma carona e, em Chicago, uma mulher foi estuprada pelo motorista depois de pedir um carro alcoolizada e desmaiar no trajeto. A pressão dos grupos de taxistas fizeram a Uber se adequar a leis locais em diversos países da Europa e dos EUA – isso para não falar de onde foram banidos, como Espanha e Índia. A adequação deve acontecer no Brasil também. A mesma batalha se dá para o AirBnB, que sofreu ações em cidades como San Francisco e Nova York, e passaram a recolher um imposto semelhante ao dos hotéis.

Apesar de ser uma oportunidade fácil para empregar quem está fora do mercado, a economia sob demanda pode afetar o salário também. Quando precisamos de alguém para fazer uma pequena reforma em casa, normalmente conversamos com outras pessoas para buscar indicações e não temos uma base muito grande para comparar – até por uma questão de tempo. Isso significa que nem todas as pessoas que fazem obras na cidade estão no mesmo “mercado”. Essa imperfeição da concorrência faz com que seja possível que as pessoas cobrem preços diferentes, atendam em bairros específicos e tenham tabelas decididas por elas mesmas. No caso de serviços como o Handy (que oferece reparos para casa), a coisa muda de figura: há um preço único – normalmente baixo para ser atrativo -, e os prestadores de serviço precisam se adequar a essa realidade.

Por último e não menos importante, há a questão da privacidade. Para que esses serviços funcionem, normalmente é preciso se cadastrar usando telefones reais e perfil no Facebook. Um táxi que você pega na rua não sabe nada sobre você, mas um executivo da Uber causou um escândalo ao mostrar a uma repórter uma lista de todas as corridas que ela havia feito com o serviço. Em uma época em que surgem novas demandas de proteção à privacidade, a quantidade de informações que esses serviços têm é assustadora.

Pode ser que as questões de privacidade sejam resolvidas, assim como as regulações. A tecnologia tem um papel fundamental, mas ela, e os bilhões de dólares investidos nas empresas, não provoca a revolução sozinha. É necessária uma mudança comportamental da sociedade – querer uma vida fora da firma, um governo que dê mais garantias, confiar mais em estranhos – para que o novo mercado funcione. Resta saber se os vencedores nessa nova economia irão compartilhar os ganhos. 

Único dono

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