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As mentiras sinceras das pesquisas

Qualquer pesquisa de opinião está sujeita a erros grosseiros. E a solução para esse problema passa por uma pessoa importante: você

Por Pedro Burgos - Atualizado em 18 jul 2017, 19h36 - Publicado em 15 set 2014, 22h00

Do dia para a noite viramos um país de estupradores. O Ipea divulgou em março de 2014 que, segundo uma pesquisa, 65% dos brasileiros achavam que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo mereciam ser atacadas”. Começou ali a campanha “não mereço ser estuprada”, Dilma tuitou o seu apoio, todo tipo de especialista ofereceu explicações. Mas, dias depois, o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas corrigiu o gráfico. Disse que não eram 65% dos entrevistados, mas sim 26% que concordavam com o “ataque”. O diretor responsável pela pesquisa pediu demissão, como se sabe.

Mesmo com a correção, os protestos continuaram. Claro: 26% ainda era muito. E não existe dúvida de que falta muito para que haja igualdade de fato entre os gêneros – qualquer mulher que saia de shorts na rua não precisa de um levantamento do Ipea para ter certeza disso. Mas o caso também deixou claro que precisamos desenvolver um olhar crítico sobre outra coisa: as próprias pesquisas.

O problema maior aí é que tanto os 65% do primeiro momento como os 26% posteriores foram tratados como fato. Como há uma crença de que os números não mentem, a pesquisa foi divulgada e compartilhada como um achado científico incontestável. Só que há números e números. Uma coisa é, digamos, o total de pessoas nascidas no Brasil em um determinado ano – algo registrado individualmente. Outro é uma porcentagem de pessoas que responderam de determinada forma em uma pesquisa de opinião. Um é dado concreto, outro, uma estimativa baseada em uma amostragem. O primeiro é fato. O segundo, nem tanto.

Todas as pesquisas de opinião estão sujeitas a erro. Algumas mais que outras. A do Ipea, especificamente, tinha vários problemas. O maior foi na escolha da amostra, que simplesmente não representava a população brasileira. Entre as 3.810 pessoas entrevistadas, apenas 29% moravam em regiões metropolitanas (no Brasil real, são 44%); mais de 65% eram mulheres (contra 51% da população de verdade) e 19% tinham 60 anos ou mais (contra 11% da realidade). Pessoas mais idosas e que moram fora dos centros urbanos tendem a ter um pensamento mais conservador (e, logo, menos favorável ao uso de roupas sensuais), mas a pesquisa ignorou isso. O texto das perguntas também sofreu críticas – o que significa exatamente “atacadas”? Uma senhora interiorana pode tranquilamente interpretar isso como um “ataque” verbal – e vindo de outra mulher; algo bem diferente de estupro. Se o termo da pergunta fosse justamente “estupro”, talvez os números fossem outros, mais baixos, até pelo fato de a maioria dos entrevistados ser mulher.

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O problema não está só no Ipea. Todos os grandes institutos têm erros importantes no currículo. Porque mesmo que os institutos falassem com todos os brasileiros, poderíamos não ter certeza sobre o que pensam as pessoas. Sim: a ordem das perguntas pode influenciar as respostas, por exemplo. Nas eleições de 2010, vários institutos de pesquisa foram questionados por enviesar o entrevistado. Antes de perguntar sobre a avaliação do presidente ou governador, por exemplo, o pesquisador fazia perguntas sobre o sentimento de insegurança, o desemprego, a inflação. Dependendo das respostas anteriores, uma avaliação que seria neutra ou positiva podia passar a ser negativa – já que o governante (citado na última pergunta) seria percebido como o culpado pela insegurança, pelo desemprego e pela inflação. Não que eventualmente não fosse: mas que a pergunta direcionava o entrevistado, direcionava.

Outra questão está em quem divulga as pesquisas, seja a imprensa, seja cada um que compartilha no Facebook. É que o mesmo levantamento pode trazer dados que mostram realidades diferentes. O próprio texto do Ipea que acompanha os gráficos da fatídica pesquisa começa dizendo que 91% da população concordou com a frase “Homem que bate em mulher tem que ir para a cadeia”. E, mais adiante, diz que os jovens culpam menos as mulheres pelo comportamento violento dos homens. São sinais claros de progresso. Mas ninguém levou em conta.

O ponto aí, difícil de admitir, é que o nosso julgamento também afeta a conclusão de uma pesquisa. Inconscientemente, escolhemos quais números merecem crédito ou não, baseados nas nossas certezas. É humano: os psicólogos chamam isso de “viés confirmatório”. Nate Silver, um estatístico americano que ficou famoso pelas margens de acerto que obteve em pesquisas eleitorais, explica: “A razão que torna a previsão tão difícil para nós é a mesma que a torna importante: o ponto em que a realidade objetiva e a subjetiva se encontram. Distingui-las requer tanto conhecimento científico quanto autoconhecimento”. Em português mais claro: quando a pesquisa do Ipea foi divulgada, por exemplo, pessoas mais engajadas na luta pelos direitos das mulheres não questionaram os números, já que eles reforçavam a urgência da causa que elas defendem. Da mesma forma, gente normalmente crítica ao movimento de afirmação feminina foram os primeiros a tentar mostrar que havia algo errado na pesquisa – não por amor à ciência, mas para provar as convicções que já tinham antes.

Tudo isso é um problema, porque pesquisas não são apenas termômetros da realidade. Elas ajudam a moldar o futuro. O Ipea, que antes só fazia estudos econômicos, tem como missão agora elaborar pesquisas que ajudem a “ditar políticas públicas”. A porcentagem de gente que concorda com isso ou aquilo vai direcionar recursos para esta ou para aquela contratação de pessoal ou mudança no currículo escolar. Da mesma forma, pesquisas eleitorais direcionam o voto – o eleitor pode mudar a intenção para forçar um segundo turno, por exemplo, baseado nas pesquisas. No fim das contas, as pesquisas servem como uma arma a favor da democracia. Mas isso só vale, claro, se elas forem confiáveis. E só existem três formas de garantir isso. Primeiro, os institutos devem ser transparentes na hora de divulgar seus dados, mostrando como as perguntas foram feitas. Segundo, têm de gastar mais tempo e cérebro com a redação dessas questões, para evitar termos dúbios (como o “atacadas” do Ipea). Terceiro, e mais importante, é o papel do público: avaliar os números e o método. Porque não são só os institutos: nós também precisamos diminuir nossa margem de erro.

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