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Ateus e pessoas muito religiosas têm menos medo da morte

Pesquisa também revelou que pessoas que seguem uma religião apenas por conforto pessoal ou pressão social tem mais medo do além.

Por Bruno Vaiano - 29 mar 2017, 18h09

Ateus e fiéis fervorosos são os dois grupos que menos têm medo da morte – e as maiores vítimas de crises existenciais são justamente as pessoas que estão na corda bamba entre crer em ou não em Deus. A conclusão está em um artigo do psicólogo Jonathan Jong, da Universidade de Oxford, e é resultado de uma revisão abrangente da literatura científica publicada sobre a relação entre fé e medo da morte entre 1961 e 2014. São mais de 100 estudos, que analisaram 26 mil pessoas do mundo todo. Dos 11 que incluíram ateus na amostragem, 10 reforçam a hipótese de Jong.

“Isso complica as coisas para a visão mais aceita pelo senso comum, a de que pessoas religiosas têm menos medo da morte do que as não-religiosas”, afirmou Jong à assessoria da universidade britânica. “Talvez o ateísmo também proporcione conforto – ou então pessoas que não têm medo da morte não se sintam compelidas a buscar uma fé.”

O compilado de Jong também deu atenção a uma distinção mais sutil: pessoas de religiosidade intrínseca – que vivem de acordo com sua crença e a encaram como um fim em si mesma, e não como uma utilidade imediata – não se importam tanto com a morte. Já as de fé extrínseca, que adotam uma religião por questões sociais ou conforto pessoal, sentem medo da própria data de validade com mais frequência.  

A morte é uma das angústias que dá rumo aos estudos da mente. A espécie humana, ao contrário de certas águas-vivas, não ganhou da evolução biológica o direito de voltar para a barriga da mãe e nascer de novo – para a ciência, nós só temos uma vida para viver, e não há nada depois disso. De prêmio de consolação, nós viemos de fábrica com equipamentos muito úteis para a sobrevivência. Um deles é um cérebro enorme e super inteligente – e, com ele, veio a consciência de que nós vamos morrer um dia.

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É claro que lidar com esse conflito primordial entre vida e morte não é fácil. É por isso que há uma teoria da psicologia que atribui boa parte do nosso comportamento à maneira como encaramos nosso fim inevitável. É a teoria do gerenciamento do terror – em inglês, terror management theory, ou só TMT. “Gerenciar”, no caso, é se convencer de alguma forma que a morte biológica não é o fim – e encontrar estratégias para convencer seu cérebro de que você não está fadado ao esquecimento.

Sob a luz dessa teoria, as religiões oferecem imortalidade ao pé da letra: na forma de vida após a morte ou reencarnação, por exemplo. Mas há formas de pensar que oferecem uma imortalidade mais simbólica, que busca a preservação eterna do seguidor ao torná-lo uma extensão de algo maior e imperecível: aqui entram o nacionalismo, a valorização da família e das árvores genealógicas e até a noção da superioridade humana em relação às outras espécies de animais. Essa lista não é mera especulação filosófica: há pesquisas empíricas que confirmam essas associações em algum grau.

A psicologia evolutiva, uma abordagem contemporânea dos estudos da mente que busca entender nosso comportamento como consequência da seleção natural, não aceita tão bem a TMT. Nessa visão, o medo da morte é só uma habilidade útil do ponto de vista evolutivo, pois permite a sobrevivência de um espécime por meio da sua reprodução. Esforços para integrar as duas perspectivas (como este aqui) já foram feitos – afinal, seja por instinto, seja por consciência da própria morte, o ser humano gosta mesmo é de viver para contar (ou fazer) a história. E nesse caso, psicólogos tradicionais e evolutivos se dão melhor ao se unir.

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