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Começa o maior reality show do mundo: as eleições presidenciais americanas

Na última semana, foi dada a partida para mais um ciclo do processo eleitoral mais maluco - e também mais longo do planeta. Entenda o que está em jogo, conheça os personagens, escolha um para torcer e pode estourar a pipoca.

Por Denis Russo Burgierman - Atualizado em 4 nov 2016, 19h10 - Publicado em 5 fev 2016, 13h30

No dia 1º de fevereiro, o lugar mais importante dos Estados Unidos passou a ser um pequeno Estado caipira que quase ninguém conhece: Iowa. Toda a mídia do país e centenas de correspondentes estrangeiros do mundo todo se acotovelam na capital, Des Moines, uma cidade menor do que Araraquara ou Juazeiro da Bahia, para reportar ao país inteiro o que acontecia em 1.681 escolas, igrejas, bibliotecas e até residências do Estado. E o que acontecia era algo meio bizarro: uma espécie de gincana política. Cidadãos dos 99 municípios de Iowa tinham que passar pelo menos duas horas participando do caucus, que é uma “reunião de vizinhos”, na qual cada pessoa pode manifestar seu apoio para um dos pré-candidatos democratas ou republicanos à presidência dos Estados Unidos. Cidadãos pedem a palavra, falam no microfone, tentam convencer uns aos outros. Aí, no final da tarde, alguém pede para os apoiadores de um irem para um lado da sala, os de outro para o outro lado e os organizadores contam quem tem mais apoio. É um processo precário, incerto e bagunçado – e, no entanto, marca o início da eleição para o cargo máximo do país mais rico e poderoso do mundo.

Ao final do dia, Ted Cruz venceu o caucus republicano e Hillary Clinton ganhou o democrata. Dez candidatos, dos dois partidos, dividiram entre si os 73 delegados de Iowa, que em julho participarão junto com milhares de delegados de todos os Estados americanos das duas convenções que indicarão os dois candidatos que disputarão a eleição geral, em dezembro.

O sistema eleitoral dos Estados Unidos é único no planeta. Nenhum outro país leva tanto tempo escolhendo um presidente – quase 11 meses irão se passar entre o bizarro caucus de Iowa, em 1º de fevereiro de 2016, e a contagem dos votos da eleição geral, em 19 de dezembro de 2017.  Nenhum país tem regras tão intrincadas, com cada um dos 50 Estados criando o próprio sistema e disputando entre si a atenção do público do país inteiro. Por causa disso, as regras eleitorais parecem mais algo imaginado por algum roteirista de reality show do SBT. Acompanhar as eleições americanas provavelmente é mais divertido do que assistir ao Big Brother, mas, para que essa confusão toda faça algum sentido, tem algumas coisas que você precisa saber antes:

1. Qualquer um pode
O sistema americano é muito mais aberto do que o da maioria dos países. A princípio, qualquer americano de mais de 35 anos, nascido no país e residente lá por pelo menos 14 anos pode concorrer. Basta se inscrever num dos dois partidos e convencer os americanos, Estado por Estado, a votar nele. Esse sistema permite que pessoas sem nenhuma história dentro dos partidos de repente virem o candidato – algo impossível no resto do mundo, onde o candidato presidencial invariavelmente é alguém com bom trânsito partidário. Este ano, há dois outsiders tentando fazer isso: pelo lado dos democratas, o rebelde socialista Bernie Sanders; pelo dos republicanos, o falastrão ultraconservador Donald Trump. Vale lembrar que, historicamente, outsiders partidários costumam ficar para trás ao longo das primárias, quando a organização local vai ficando mais e mais importante. Acontece que isso está mudando na era da internet.

2. As vitórias são simbólicas
Como num reality show, ganhar as provas muitas vezes é menos importante do que ganhar o coração do público. O caucus de Iowa, por exemplo, não vale praticamente nada em termos concretos: os republicanos escolheram só 29 delegados, os democratas, 44 (um republicano precisa de 1.237 delegados para ser escolhido candidato; um democrata, de 2.382). Mas Iowa é importantíssimo porque ajuda a formar a imagem dos candidatos, que certamente vai influenciar nas primárias dos outros Estados. Trump, por exemplo, sai de Iowa com a imagem arranhada. Depois de passar meses com muita exposição midiática, ele ficou com fama de arrogante por não fazer muita campanha no interior de Iowa e faltar a um debate na TV. Embora não fosse mesmo o favorito, pareceu abatido ao reconhecer a derrota na TV – abatimento que deve desanimar seus apoiadores. Mas, às vezes, quem tem menos votos consegue somar mais pontos simbólicos. Os Clintons são famosos por serem mestres nessa arte. Bill Clinton, marido de Hillary, após perder o caucus de Iowa, em 1992, agradeceu ao Estado por fazer dele o “comeback kid” (o menino-azarão). Assim, ele reforçou a aura de vencedor, mesmo perdendo.

3. Os personagens
Até semana passada, havia mais de 20 candidatos concorrendo por duas vagas, uma em cada partido. Após Iowa, sobraram 11: nove republicanos e dois democratas. Mas os especialistas só levam a sério cinco deles: Hillary Clinton, Bernie Sanders, Ted Cruz, Donald Trump e Marco Rubio. Por alguns meses, até julho, haverá duas novelas para acompanhar: a republicana (que tem três personagens – Cruz, Trump e Rubio) e a democrata (com dois – Hillary e Sanders). Essas duas novelas são bem diferentes uma da outra. Mas ambas parecem ter um tema em comum: eleitores dos dois partidos evidentemente querem novidade. Tanto os democratas quanto os republicanos estão rejeitando os tais “políticos tradicionais”, do “mainstream“.

4. A novela democrata
A grande maioria dos analistas aposta em Hillary Clinton como favorita. Com muito mais doações corporativas (Hillary recebe muito dinheiro das indústrias financeira, farmacêutica e de tecnologia), muito mais apoio do partido e mais experiência em cargos importantes, ela é franca favorita. Se isso se confirmar, será a primeira vez que um dos dois partidos que contam na política americana terá uma candidata mulher à presidência – mais um ponto a favor de Hillary, já que 50% dos eleitores são mulheres. Só que Sanders é uma baita surpresa e, como tal, está empolgando os eleitores mais jovens – os mesmos que, em 2008, levaram Obama à presidência. Sanders é um velhinho de origem judaica que não se ofende quando o chamam de socialista – um tipo que até outro dia seria considerado inviável na política americana. Passou sua carreira batendo nos políticos do establishment e já arrumou quase tantas brigas com os democratas quanto com os republicanos. Em Iowa, elegeu 21 delegados, contra 23 de Hillary – ou seja, está na briga. E está conseguindo levantar muito dinheiro com doações de pessoas físicas, pela internet (o que foi a chave do sucesso de Obama em 2008). Se ele conseguir convencer o eleitorado de que é um rebelde jedi lutando contra as forças poderosas do império mainstream, a novela terá um final emocionante.

5. A novela republicana
Mas novelão bom mesmo será o republicano, com personagens extremos que mobilizam paixões – e, principalmente, ódios. Nas últimas semanas, a disputa se polarizou entre dois ultraconservadores de filme: o magnata e personagem de reality show Donald Trump, com seu absurdo topete e o ataque generalizado aos muçulmanos, terroristas ou não; e o texano Ted Cruz, com seu êxtase evangélico e a defesa ferrenha do sagrado direito de possuir armas em casa. No passado, candidatos extremos como Trump e Cruz nunca tiveram chance – não conseguiam arrecadar muito dinheiro e acabavam derrotados por alguém mais otimista, mais sorridente e mais moderado (a famosa escola de Ronald Reagan). Acontece que, este ano, candidatos assim estão se saindo muito mal nas pesquisas – os representantes do establishment, embora tenham mais apoio do partido e mais dinheiro de financiadores, ficaram bem para trás dos dois. Em Iowa, o único representante do mainstream que se salvou foi o senador pela Flórida Marco Rubio, que chegou num honroso terceiro lugar, com mais delegados do que se esperava. A esperança de Rubio para engrossar a briga contra Cruz e Trump é que os outros pré-candidatos republicanos desistam e o apoiem.

6. Os próximos capítulos
Na terça-feira de Carnaval, outro Estado insignificante faz sua primária: New Hampshire. Novamente, o resultado não vale quase nada. Novamente, eles vão dominar a mídia no mundo todo e dar margem a todo tipo de análise. E aí seguiremos nese ritmo por meses, com os candidatos lentamente juntando delegados para chegar mais perto da quota exigida. Um dia chave no processo eleitoral é a chamada “Big Tuesday“, dia 1º, quando 13 Estados fazem suas primárias no mesmo dia. As primárias duram até junho. Aí, em julho, depois de meses de brigas ferrenhas entre colegas de partido, começa o sempre difícil processo de fazer as pazes para que cada partido chegue unificado às eleições gerais. O melhor lugar para acompanhar esse reality show inteiro é o site do New York Times, com seus infográficos interativos nos quais dá para passar horas.

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