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Conheça o ukai, a milenar técnica japonesa de pesca com pássaros

A tradição, que já dura mais de 1300 anos, virou atração turística no país. Mas gerou polêmica quanto ao trato das aves usadas

Por que usar varas de pesca para pegar peixes se você pode usar… pássaros?! A cidade de Gifu, no Japão, tornou-se famosa pelo ukai, uma técnica de aproximadamente 1300 anos na qual os pescadores utilizam como principal ferramenta de trabalho a ave aquática cormorão, conhecida também como corvo-marinho.

Mesmo não tendo penas impermeáveis, o cormorão caça a sua presa mergulhando na água. Graças a essa habilidade, a espécie foi a escolhida para ser treinada para esse tipo de pesca. Funciona assim: os pescadores amarram uma corda em volta do longo pescoço das aves e, em seguida, eles são lançados ao mar. Ao capturar um peixe, os cormorões são puxados de volta aos barcos, onde têm a presa arrancada de seu bico. O laço com a corda é feito de uma maneira que só peixes pequenos possam ser engolidos. 

A pescaria com os cormorões é também praticada em outras regiões da Ásia, como China e Coreia, mas o festival de Gifu é o mais famoso. Todos os anos, milhares de pessoas viajam para assistir os barcos no rio Nagara. Há, inclusive, um pedido da cidade à UNESCO para que a atividade se torne Patrimônio Cultural Imaterial.

Veja este vídeo, que mostra uma parte da cerimônia:

Pesca controversa

Apesar de apreciada por turistas, o ukai, nos últimos anos, tem gerado opiniões controversas em relação ao tratamento que os animais recebem. Em entrevista ao National Geographic, a especialista em ética animal Lori Gruen criticou a pescaria. “Os pássaros pareciam angustiados com o modo como estavam sendo manipulados”, disse ela, após assistir a um vídeo da prática.

Os pescadores, em contrapartida, defendem a tradição. Eles dizem que massageiam o pescoço do pássaro para relaxá-lo (e facilitar a saída dos peixes). Além disso, afirmam que os donos dos pássaros e os animais funcionam como uma equipe, trabalhando em conjunto. No final do século 19, o Ministério da Casa Imperial do Japão confiou aos moradores de Gifu a tarefa de preservar a técnica. Até hoje, os descendentes daqueles antigos pescadores recebem o título de “mestre imperial da pesca de corcomão”.

Segundo Gruen, mesmo tradições culturais seculares deveriam ser revistas caso elas entrem em conflito com as concepções atuais de comportamento e bem-estar de animais. Enquanto as autoridades não definem o destino do ukai, ele segue sendo praticado e dando um novo sentido ao famoso ditado “quem não tem cão, caça com gato” (no caso, pássaro).

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