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Conversas duram muito porque pessoas não sabem como terminá-las

Só 2% das conversas acabam quando ambos os participantes querem que ela acabe, diz uma pesquisa de Harvard. O motivo? Pessoas temem parecer rudes.

Por Bruno Carbinatto Atualizado em 2 mar 2021, 19h11 - Publicado em 2 mar 2021, 19h00

Você já deve ter participado de uma conversa que durou muito além do necessário. Apesar de querer interrompê-la e acabar com o papo logo, você não encontrava brechas para colocar um ponto final sem parecer rude. É uma situação comum na percepção de muitas pessoas – e, agora, a ciência comprova que esse cenário é a norma, e não a exceção.

Apenas cerca de 2% das conversas terminam quando ambos os participantes querem que ela termine, de acordo com um estudo publicado nesta segunda-feira (1) na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences. Ou seja: se você ficou entediado e queria encerrar o assunto logo, saiba que há chances de que seu interlocutor estivesse sentindo algo parecido.

O motivo? As pessoas envolvidas escondem como estão se sentindo com o andamento do diálogo, o que faz ambas ficarem inseguras de dar o primeiro passo para encerrar a faladeira – mesmo que o desejo pelo término seja mútuo. Foi o que descobriu um grupo de psicólogos da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, após duas análises separadas de interações entre humanos.

  • A ideia do estudo surgiu quando o autor principal da pesquisa, Adam Mastroianni, fazia mestrado na Universidade de Oxford, no Reino Unido. Mastroianni foi a um evento de gala em que começou a se questionar o quanto as conversas que estavam acontecendo por lá de fato eram fruto da vontade de ambas as pessoas envolvidas. Ele próprio tinha o receio de acabar preso num bate-papo chato e sem uma saída educada, mas também começou a se perguntar se a preocupação não era mútua – ou seja, será que os dois interlocutores tem medo de por um ponto final no bate-papo para não parecer grosseiro?

    Para testar a hipótese, a equipe questionou mais de 800 pessoas selecionadas aleatoriamente em uma plataforma online de crowdsourcing sobre a última conversa que elas tiveram com alguém. A maioria dos diálogos tinha sido com algum familiar, parceiro romântico ou amigo pessoas conhecidas e próximas. Mais de 66% dos participantes relataram que houve um ponto durante a conversa em que sentiram que ela deveria ter terminado, mas isso não aconteceu.

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    Os pesquisadores, então, decidiram testar isso na prática. Eles recrutaram 252 voluntários que não se conheciam para um experimento no laboratório. Dividido em duplas, os participantes tinham que conversar entre si em uma sala separada por até 45 minutos – mas esse era um limite máximo; a equipe deixou claro que a conversa poderia acabar quando quisessem. Os assuntos também eram livres, e acabaram sendo sobre coisas leves e de apresentação, já que eram desconhecidos. Depois da experiência, os voluntários respondiam perguntas individualmente aos pesquisadores sobre como tinham se sentido durante o diálogo.

    Das 126 conversas, só 2% acabaram quando os dois participantes queriam que acabassem. Embora alguns (10%) tivessem dito que o bate-papo tenha acabado antes do que queriam, a maioria – 69% – julgou que ela tinha se estendido para além do que deveria. Em média, as pessoas queriam que suas conversas fossem 50% mais longas ou mais curtas.

    Os resultados também mostravam que os participantes tinham receio de terminar a conversa porque não sabiam o que seus interlocutores estavam achando do diálogo e temiam soar rudes ou desrespeitosos – e isso acontecia mesmo quando ambos estavam de saco cheio da falação. Em 63% das vezes os participantes julgavam a percepção do outro voluntário incorretamente (ou seja, achavam que ele ou ela queriam continuar a conversa, quando na verdade era o oposto).

    Isso não significa que as conversas necessariamente foram ruins – a maioria dos participantes alegou que a experiência foi “melhor do que o esperado”, mesmo quando ela podia ter acabado mais cedo.

    “Esses estudos sugerem que encerrar conversas é um ‘problema de coordenação’ clássico. Humanos são incapazes de resolvê-lo porque exige informações que normalmente escondemos uns dos outros”, escrevem os pesquisadores no artigo.

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