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E se alguém quiser ser super-herói no Brasil?

Na vida real, esse paladino da Justiça teria um grande adversário: nosso código penal. Ignorar as leis prejudicaria o mais bem-intencionado dos heróis - como mostra a carta ao lado, destinada ao desmotivado Homem-Mico

 

Prezado Homem-Mico,

Escrevo esta carta para lhe fazer um apelo. Não desista de seus sonhos, de seus valores, de seus ideais. Não abandone sua corajosa luta para fazer desta metrópole cinza um lugar melhor para se viver.

Sim, eu sei. As coisas não andam lá muito fáceis para o seu lado. Mas ninguém disse que seria fácil se tornar um super-herói, certo? Ainda mais assim, sem os poderes do Super-Homem ou a herança do Batman… Não bastassem essas desvantagens, você vai e escolhe um codinome desses: Homem-Mico?

Não, meu caro, nem venha falar do Homem-Aranha, OK? Ele foi picado por um aracnídeo radioativo e lança teias por aí. Você, pelo que sei, apenas quis homenagear um bichinho simpático, símbolo nacional, certo? Bom, foi uma decisão infeliz.

Além disso, tem esse seu uniforme. Não bastasse a monotonia do marrom com bege, as orelhas de macaco, essa cauda bizarra, ele não valoriza muito seu tipo físico. Mas talvez seja uma questão de gosto, sei lá…

Em todo caso, acho que seu principal problema é outro. E peço desculpas pela falta de jeito, mas preciso ser franco: você, Homem-Mico, não está fazendo o seu dever de casa.

Lembra daquela primeira vez na delegacia? Você apareceu todo pimpão, avisando que tinha capturado um criminoso da mais alta periculosidade. Diante da cara de surpresa dos policiais, até citou o artigo 301 do Código de Processo Penal, que diz que qualquer cidadão pode dar voz de prisão, né? Estava se achando. Até que eles lhe perguntaram o que o tal bandido tinha feito. E o que você respondeu? “Ah! Eu ouvi este monstro planejando botar fogo no teatro municipal, alagar uma escola estadual, explodir uma universidade federal etc. etc. etc.” Era só trazer as algemas e tirar a foto.

Nunca me esquecerei, Homem-Mico, da tristeza em seu olhar quando o delegado explicou que nada daquilo era crime. Ou melhor, que só haveria crime se algum daqueles planos fosse colocado em prática. Enquanto a coisa ficasse só na base da ameaça, não dava para prender ninguém. Que fiasco. Ou melhor: que mico!

Deu para ouvir daí minha risada malévola?

A segunda vez também foi um bocado constrangedora. Você voltou à delegacia com um suposto meliante e disse ao delegado que, agora sim, possuía provas de que vários crimes tinham sido cometidos. Apresentou uma gravação em que se ouvia o acusado contar para um colega sobre as aventuras de seu fim de semana. Entusiasmado, o marginal relatava que tinha roubado um carro, dirigido bêbado e assaltado um banco. Era uma confissão atrás da outra.

Dessa vez, você estava confiante de que a justiça seria feita, não é, Homem-Mico? Mas o delegado explicou que nenhuma daquelas gravações era válida, pois é proibido grampear o telefone dos outros sem prévia autorização judicial. A prova não poderia ser aceita. E você, meu caro aspirante a herói, sentou e chorou.

Calma. Não quero cutucar suas feridas, juro. Mas, convenhamos, tenha dó…

Não posso deixar de comentar aquela vez em que você quis comprovar que um vilão terrível armazenava uma substância tóxica para poluir o reservatório de água da cidade. E quem acabou preso foi você, por invasão de propriedade privada!

E o que dizer daquele outro episódio lamentável, tão comentado nas redes, em que você deu voz de prisão a uma moça porque ela estava se prostituindo? Ora, Homem-Hamster, prostituição não é crime!

Foi muito embaraçoso também quando você chegou à delegacia com um homem que teria furtado um celular. Ninguém sabia onde estava o dono do telefone, ninguém achou o aparelho, foi aquele diz- que-diz, sua palavra contra a dele. E o suposto ladrão acabou processando você por calúnia, lembra?

Depois de tantos fracassos, é natural que perca a motivação. Mas eu espero que você não desista, Homem-Mico. Mais do que isso: eu exijo que você estude, pesquise, e se torne um exemplo de coragem e bondade. Afinal, eu também preciso de alguém que me desafie a ser cada vez melhor, um oponente que esteja à minha altura. O que seria de nós, supervilões, sem vocês, super-heróis?

Pense nisso.

Um abraço fraterno de seu arqui-inimigo,
Senhor Sagui.