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E se as pessoas só pudessem ter um filho?

A política do filho único poderia ser a solução para um mundo à beira do colapso. Se a regra vingasse por muitas gerações, seria um mundo mais velho e bem mais vazio. Após um par de séculos, as crianças nem saberiam mais o que é "irmão".

Por Emiliano Urbim Atualizado em 31 out 2016, 18h53 - Publicado em 6 abr 2014, 22h00

Ela caminha, ele resmunga. “Achei que o nosso trabalho da faculdade ia ser sobre icebergs.” Ela não reage, ele segue. “Ou petróleo. Ou cinema. Mas você insistiu tanto para que fosse sobre irmão. Por quê?” “Ó: quanto antes a gente começar, antes a gente termina.” Derrotado, ele lamenta. “Odeio aula de História.”

Ele e ela nasceram em uma realidade singular: nesse mundo, todos são filhos únicos. Começou como exemplo, se tornou obrigação e, passado tanto tempo, é como as coisas são. A semana tem sete dias, as pessoas têm só um filho.

No começo do século 22, era isso ou o apocalipse. As previsões otimistas falharam: 20 bilhões de habitantes exauriam o mundo. Espécies eram extintas semanalmente. Mesmo com países inteiros transformados em pasto e lavoura, faltava comida. Mesmo com os rios amazônicos apropriados pela ONU, faltava água. O avanço científico e tecnológico não era mais capaz de suprir a demanda da humanidade.

Foi quando a Austrália decidiu ressuscitar a política do filho único, abandonada oficialmente pela China desde a revolução democrática de 2049. As regras eram rígidas e valiam para todos os residentes, cidadãos e imigrantes. Após o primeiro parto, as mulheres eram esterilizadas. O pai, quando identificado, também. Caso segundos filhos fossem descobertos, quem arcava com as consequências eram os adultos responsáveis – uma ferramenta que se demonstrou extremamente eficaz em coibir nascimentos ilegais. Valendo-se de isolamento geográfico e armas nucleares, o país resistiu às sanções e ao desprezo internacional.

Após décadas como escória do mundo, a Austrália passou a colher e divulgar resultados. Com menos gente, havia lugar para fauna – coalas e cangurus foram recriados em laboratório e soltos na natureza. A previdência, reformulada e vitaminada por recursos liberados pela economia com educação, deixou de ser um problema. Cada geração, sempre metade da anterior, contava com mais dinheiro, espaço, opções de emprego – as vagas encerradas eram automatizadas sem atritos. O mundo, à beira de uma guerra mundial por recursos básicos, perdoou a Austrália. E seguiu seu exemplo.

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Conforme ele e ela descobrirão em sua pesquisa, registros de revoltas e protestos contra a doutrina foram convenientemente suprimidos dos registros oficiais. Fala-se na Petição dos Pets, que baniu todo e qualquer animal de estimação – alguns consumiam mais que filhos. Acabou também qualquer tipo de oposição ao casamento gay: a união sem reprodução passou a ser a mais incentivada de todas. Algumas fontes mencionam um Massacre dos Gêmeos, mães tendo de escolher um filho só – o fato é que eles desapareceram há tempos.

É verdade que alguns líderes, ansiosos por sobrepujar vizinhos, mandaram seus povos se multiplicarem. Suas nações acabaram sendo atacadas com o controverso gás esterilizante, ainda ativo em alguns territórios. Ainda hoje, hordas de antirreprodutores fanáticos peregrinam até os locais atingidos para se tornarem estéreis.

E o mundo foi ficando menor. Ou melhor, diferente. Vagas nas escolas viraram camas de asilos. Buffets infantis deram lugar a estúdios de pilates. Universidades pertinho do metrô deram lugar a imensos bingos próximos de trens turísticos. Ídolos adolescentes deram lugar a celebridades da terceira, quarta, quinta idade. Quando alguém cogita derrubar o dogma de um filho só, a resposta é sólida: menos é mais. Por falta de carros, avenidas viraram parques. O trânsito… que trânsito? O crime, com cada vez menos jovens, caiu sucessivamente. Profissão, você escolhe a que quiser – quase uma formalidade, já que máquinas fazem quase tudo.

A população das cidades encolheu, sobram imóveis de todos os tipos. E faz 200 anos que ninguém sabe o que é dividir um quarto – ou qualquer outra coisa. Duzentos anos sem saber o que é ser caçula, mais velho, primo de alguém, sem os escudos e cicatrizes que vêm desse convívio.

Ele acha melhor assim. “Imagina ter de amar mais de um filho. Loucura.” Ela tem certeza de que este mundo de filhos únicos é, em vários sentidos, muito vazio. Calada, acaricia sua barriga, onde batem dois pequeninos corações.

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