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E se.. fosse possível prever os crimes dos psicopatas?

Não tenha dúvida: o mundo se livraria da maioria dos assassinos seriais e a violência urbana cairia. O problema é como pôr isso em prática

Texto Eduardo Szklarz

Psicopatas cometem 4 vezes mais crimes graves do que os bandidos comuns. Livrar a sociedade deles teria um grande impacto na segurança pública. Mas estamos longe dessa solução. Para começar, especialistas dizem ser muito difícil detectar os psicopatas antes que pratiquem seus crimes. “O psicopata é um predador que se oculta no cotidiano. É como um tigre que estuda a gazela escondido entre os arbustos e a ataca no momento exato”, diz o psiquiatra argentino Hugo Marietan, professor da Universidade de Buenos Aires. “Psicopatas são atores natos, mestres em se camuflar.”

Até existem ferramentas capazes de identificar os tigres que estão entre nós. A mais usada é a avaliação psiquiátrica Psychopathy Checklist Revised (leia página 10). Ela permite diagnosticar pacientes de forma individual, mas é complexa demais para aplicar-se em toda a população como num censo demográfico.

Temos ainda mais um dilema. Por um lado, sabemos que o nível de reincidência dos criminosos psicopatas chega a 70%. Portanto, se um deles sair da cadeia, terá grande risco de reincidir. Mas o que dizer do psicopata que nunca cometeu um crime? Podemos afirmar, com 100% de certeza, que ele vai cometer um crime algum dia? A resposta é não, apesar da alta probabilidade. Afinal, a polícia não conta com paranormais capazes de visualizar o crime antes de acontecer, como no filme Minority Report. E, ainda que ela contasse com eles, não teria provas que a permitisse prender o suspeito.


Pré-crime

Mas a prevenção não se limita totalmente à ficção científica. Na Inglaterra já existe um projeto piloto em andamento: o Programa para Pessoas Perigosas com Transtornos Graves da Personalidade (DSPD, da sigla em inglês), uma iniciativa conjunta entre os Ministérios da Justiça e da Saúde e o sistema prisional (leia à direita). Nele, presos libertos ou perto do fim da sentença passam a ser acompanhados por funcionários do governo, caso sejam considerados perigosos por causa de seu transtorno. Se a probabilidade de reincidir em crimes violentos for enorme, continuam presos ou internados.

Como o programa ainda está em fase de implantação, é cedo para falar de resultados. Principalmente para os psicopatas, mestres da atuação. A equipe do programa vai precisar ter muito cuidado para não ser enganada nem ser injusta com eles.

O certo é que ingleses aceitaram o DSPD por estar acostumados à vigilância: lá a polícia faz em média 300 imagens de cada pessoa por dia. Mas o que dizer dos brasileiros? Nós aceitaríamos que nossa liberdade fosse cerceada desse jeito? E qual seria a idade mínima para uma medida assim? O dilema aumenta ao se considerar que os psicopatas não têm tratamento. A não ser que, no futuro, a ciência possa implantar um dispositivo que faça seu cérebro funcionar como o das pessoas normais. Será?

 

 

Transtornados na linha
Como o governo britânico age no DSPD, o programa para pessoas perigosas com transtorno da personalidade

FAREJAR
Profissionais de saúde identificam uma pessoa com alta probabilidade de reincidir em crimes violentos, como resultado de transtornos da personalidade. Ela pode ser tanto um preso que voltou à liberdade quanto um que está perto de terminar sua sentença.

VIGIAR
Essa pessoa passa então a ser acompanhada de perto por um funcionário do governo para que não venha a cometer esses crimes novamente.

ILAR
Ela só será presa ou internada se a probabilidade de cometer um crime que provoque danos físicos e psicológicos graves a outros for maior do que a de não o cometer. Há 150 celas individuais em prisões de alta segurança e 140 vagas em dois hospitais psiquiátricos de alta segurança. Psicopatas podem ir para prisões ou hospitais.

TRATAR
Em um desses hospitais, o de Rampton, existem quase 5 funcionários para cada um de seus 400 pacientes, 70 deles do DSPD. O custo semanal por internado é de R$ 5 mil. Deles, 75% já foram condenados por “crimes muito graves”, como estupro e homicídio. Os 25% restantes não foram condenados e estão internados para tratar suas propensões “violentas, perigosas ou criminosas” – esses não participam do DSPD.

REINTEGRAR
Se a pessoa progredir, poderá ser transferida a outra instituição de menor segurança ou liberada, porém sob supervisão do Estado.