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Enchendo o cubo de grana

O Minecraft, um jogo aparentemente tosco, feito de bloquinhos virtuais, se tornou o game mais valioso do mundo. Entenda como.

Bruno Romani

 

 

Você já deve ter ouvido falar de Grand Theft Auto V. É o game mais sofisticado, e mais caro, de todos os tempos: custou US$ 265 milhões e exigiu o trabalho de centenas de artistas e programadores ao longo de quatro anos. Tanto esforço deu resultado: o jogo já vendeu 33 milhões de cópias e faturou mais de US$ 1,5 bilhão. Minecraft é o oposto disso. Foi criado por apenas uma pessoa, o programador sueco Markus Persson, de 35 anos, que tocava o projeto nas horas de folga e em 2009 lançou a primeira versão do jogo. Sua mecânica é muito simples, e o visual, assumidamente pobre. Mesmo assim, o game se tornou um fenômeno avassalador, alcançando 54 milhões de cópias vendidas. E, em setembro, foi comprado pela Microsoft por US$ 2,5 bilhões (o valor inclui os direitos sobre o jogo e uma empresa, de 43 funcionários, que o sueco havia montado para administrar o sucesso de Minecraft). Markus embolsou o dinheiro e foi embora, o que tem preocupado os ardorosos fãs do jogo – entre eles uma menina americana de 10 anos, que escreveu uma carta-aberta à Microsoft pedindo que não “estrague” o game.

Minecraft tem várias versões, para computador, smartphone e consoles de videogame, mas sua essência é sempre a mesma. Você assume o papel de Steve, um bonequinho que cai do céu, sem motivo aparente, numa terra inabitada e cheia de árvores e montanhas. O objetivo é sobreviver à primeira noite, que chegará em dez minutos. Quando cai a escuridão, que também dura dez minutos, surgem monstros que tentam matar Steve. O jogo não dá nenhuma instrução, mas você logo percebe o que deve fazer: construir um abrigo usando as matérias-primas, como madeira e pedra, que estão disponíveis no ambiente e você deve minerar (daí o nome do jogo). É isso. Não há fases, missões nem bônus. “Hoje em dia, os games têm uma longa lista de elementos que precisam estar presentes. Mas o Minecraft quebrou essa regra”, diz o designer Peter Molyneux, que é conhecido pelos jogos inteligentes e ousados (e respeitado no meio desde 1989, quando criou Populous, o primeiro game em que o protagonista assume o papel de Deus).

Só que construir o abrigo em Minecraft não é fácil. Exige dedicação, determinação, habilidade (a internet está cheia de guias que ensinam técnicas de construção) e acima de tudo imaginação. Essa é a chave para entender o sucesso do jogo. O bacana é construir o abrigo mais sofisticado possível – há pessoas que fizeram réplicas da Casa Branca e do Congresso Nacional, por exemplo – e mostrá-lo aos outros jogadores. É como montar algo com pecinhas de Lego; só que em rede e num ambiente infinito, que vai crescendo conforme mais jogadores entram.

Além de montar abrigos, o game também permite construir coisas reais – como um computador. Foi o que fez o paulista Bruno Schenberg, de 13 anos. Usando as ferramentas do jogo e três de seus elementos (pedra, madeira e redstone, um material fictício capaz de conduzir eletricidade), ele montou um computador virtual, que tem transístores e diodos e é capaz de fazer operações matemáticas simples. A capacidade é de apenas 4 bits (metade do antiquíssimo videogame Atari), e só faz contas de soma. Mas seu tamanho encanta: o computador é uma estrutura gigante de peças e alavancas virtuais com 150 metros de altura. A construção foi parte de um projeto escolar. “Eu queria aprender sobre computação. Vi alguns vídeos sobre isso, e levei as ideias para dentro do jogo”, conta Bruno. Além de montar a máquina, o garoto a apresentou aos professores em vídeo – num cinema virtual que também construiu dentro de Minecraft. Ele não é o único a fazer construções intrigantes. O americano Hans Lemurson foi mais longe: montou um computador virtual que roda uma versão primitiva de Minecraft, dentro do próprio Minecraft. Reproduziu o jogo dentro do próprio jogo. Mas essas coisas todas só se tornaram possíveis depois que o inventor do game resolveu tomar uma medida ousada: acabar com os monstros.

MODO CRIATIVO

A primeira versão de testes de Minecraft foi liberada em maio de 2009. Desde o começo, Markus Persson procurava interagir com os jogadores em fóruns e redes sociais. Os jogadores deram uma sugestão interessante: e se o game também tivesse um “Modo Criativo”, sem monstros, para que as pessoas pudessem fazer suas construções com tranquilidade? Markus não gostou muito da ideia, pois achava que o game ia ficar chato se não tivesse nenhum desafio. Mas acabou aceitando. E esse foi seu grande acerto. Você pode jogar com os monstros ou sem eles. Hoje, o Modo Criativo é um dos mais populares de Minecraft. Sem ele, as grandes construções dificilmente existiriam – e o jogo nunca teria se tornado tão popular.

Outra explicação para o sucesso de Minecraft é sua abertura. O game pode receber modificações não oficiais, criadas por entusiastas. Elas acrescentam funções, ferramentas, animais e até desastres naturais – coisas que Markus sequer imaginava. “O verdadeiro valor não está no jogo, seu inventor, ou em coisas que Markus ou seus funcionários tenham feito. O valor está na comunidade de jogadores, que diariamente criam coisas novas para o jogo”, diz o investidor americano David Pakman, especializado em desenvolver empresas de tecnologia. De fato, algumas das construções mais impressionantes de Minecraft são resultado do esforço conjunto de grupos de jogadores. Uma delas, a WesterosCraft, recria todo o continente da série medieval Game of Thrones. Ela tem área equivalente a 1.260 quilômetros quadrados, mesmo tamanho da cidade do Rio de Janeiro, e começou a ser construída em 2011. O líder do projeto, Jacob Granberry, passa de 20 a 30 horas por semana administrando a empreitada.

Depois de construir uma coisa, é provável que você queira mostrá-la. E como: hoje, uma busca no YouTube por “Minecraft” leva a mais de 95 milhões de vídeos, em que os jogadores apresentam seus projetos e modificações. Isso funciona como propaganda do jogo, gerando um boca a boca perfeito para atrair novos usuários ou manter motivados aqueles que já jogam.

“O fã de Minecraft é engajado, busca informações para melhorar a sua experiência com o jogo”, diz Leon Oliveira, dono do canal Coisa de Nerd, que tem 2,3 milhões de assinantes no YouTube e se especializou em publicar vídeos do jogo. Foi dessa maneira, sem investimentos em marketing, que Minecraft conquistou seus milhões de fãs (em comparação, os criadores de Grand Theft Auto V gastaram US$ 150 milhões com publicidade).
Depois de vender sua criação para a Microsoft e ficar bilionário, Markus Persson foi se dedicar a seus outros interesses – ele gosta de compor música eletrônica e é membro do Partido Pirata, que luta pela legalização dos downloads piratas na Suécia. E, mesmo sem seu pai, Minecraft continua bem, obrigado. No começo de setembro, pouco antes do negócio com a Microsoft, o jogo ganhou versões para os consoles da nova geração, PlayStation 4 e o Xbox One. Em menos de um mês, a versão para PS4 já tinha vendido 1 milhão de cópias (os números do Xbox ainda não foram anunciados). Ao que tudo indica, os bloquinhos ainda vão continuar em alta por um bom tempo.

A onda dos indie games

Minecraft não é o único jogo independente e de baixo orçamento a fazer sucesso. Veja outros hits:

BRAID

Lançado em 2008, é o precursor da nova era de jogos indie. Foi criado por apenas duas pessoas, que trabalharam por três anos. A história é banal (você controla um boneco que deve salvar uma princesa), mas a forma de jogar traz uma novidade: é possível voltar no tempo para superar obstáculos. Já vendeu mais de 450 mil cópias.

FEZ

Criado pelo canadense Phil Fish, que trabalhou no projeto durante cinco anos, Fez é uma versão pós-moderna dos games de plataforma (como Mario e Sonic). É possível girar o cenário, revelando passagens secretas e soluções para desafios. Após vários adiamentos, foi lançado em 2012 – e já superou a marca de 1 milhão de cópias.

LIMBO

Você deve ajudar o protagonista a encontrar e resgatar a irmã, percorrendo cenários monocromáticos, sombrios – e absolutamente lindos. É o primeiro jogo do estúdio dinamarquês Playdead, e já superou 3 milhões de cópias vendidas. Influenciou vários games (inclusive o blockbuster Donkey Kong Country Returns, da gigante Nintendo).

SUPER MEAT BOY
O protagonista, um pedacinho de carne, é um dos mais simpáticos do mundo dos games. Seu objetivo é atravessar cenários cheios de armadilhas cortantes, como facas, lanças e serrotes. Com visual retrô, faz nítidas referências a clássicos dos anos 90, como Castlevania e Ninja Gaiden. Foi lançado em 2013 e ultrapassou a marca de 2 milhões de cópias vendidas.