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Futebol americano letrado

Jogo inspirado num dos esportes mais populares dos EUA força o uso do cérebro.

Luiz Dal Monte

O futebol americano pode ter ficado mais conhecido entre os brasileiros nos últimos anos, mas ainda está longe de cair no gosto da torcida verde-amarela, fiel apaixonada do esporte inglês que consagrou Mané Garrincha. Não é para menos. Afinal, como é que os americanos podem chamar de futebol (palavra que vem de foot, pé em inglês, e ball, bola) um esporte que é jogado quase que só com as mãos? Sim, eles também usam os pés. Mas, quando metem o pé na bola – se é que se pode chamar assim aquele objeto ovalado –, o resultado parece, digamos, pouco artístico para os nossos exigentes padrões pebolísticos. Sabemos bem o que é futebol. O que os americanos praticam seria, nessas horas e com muito boa vontade, um chutebol.

O nome, porém, é irrelevante. O que importa é que uma olhada mais atenta à modalidade futebolística do norte acaba revelando uma lógica e uma estratégia – inexistentes à primeira vista – naquela interminável sucessão de colisões de pesos pesados. Dessa forma, é possível entender o motivo pelo qual os jogadores de certas posições nem tocam na bola, enquanto outros aparecem muito, fazendo todos os lançamentos. Esse é o papel do quarterback, que pode ser traduzido por quarto-zagueiro em português.

Existe um jogo de letras, inspirado no futebol americano, que reproduz o papel decisivo do quarterback. Seu criador, um certo Van Phillips, o divulgou no início da década de 80 na revista americana Games. Prose Bowl, como foi batizado, é para dois jogadores munidos de lápis e papel. Dispensam-se capacetes, mas bons cérebros são bem-vindos.

Cada partida tem duas fases: a escolha do time e a disputa propriamente dita. Cada equipe é formada por onze letras, recolhidas de algum trecho de livro, jornal ou revista. Para isso, abre-se uma página ao acaso e copiam-se as primeiras 21 letras, ignorando a pontuação. Após sortear quem vai começar, o jogador deve escolher uma seqüência de quatro letras – isto é, uma do lado da outra – e anotá-las no topo da sua folha. Depois é a vez de o adversário fazer o mesmo, escolhendo quatro das dezessete restantes. A vez retorna, então, ao primeiro jogador, que deve escolher mais três letras das treze remanescentes. O adversário também escolhe mais três, das dez que sobraram. O imprescindível é que sempre seja um grupo de letras adjacentes.

Nesse ponto, ambos os jogadores têm sete letras no time. Daqui para a frente, eles se alternam escolhendo uma letra por vez, até que os dois tenham dez e reste apenas uma. Essa última pertencerá a ambos e deverá figurar na folha dos dois, em destaque, abaixo das demais, como se fosse o quarterback.

Na segunda fase, os jogadores dispõem de 3 minutos para tentar formar o maior número possível de palavras com suas onze letras, usando obrigatoriamente o quarterback em cada uma delas. Uma letra não pode ser usada mais que uma vez dentro da mesma palavra, a não ser que exista mais que uma no time. Não valem nomes próprios, abreviaturas ou plurais. Verbos, só no infinitivo. Também não valem palavras com o mesmo radical. Se você formar a palavra cabeleira, por exemplo, não poderá usar a palavra cabelo. Com o tempo esgotado, os jogadores ganham pontos pelas palavras que formaram, de acordo com seu comprimento (veja tabela de pontuação à esquerda).

A disputa é feita no sistema de melhor-de-três. O time é sempre o mesmo, exceto pelo quarterback – escolhido pelo perdedor do jogo anterior dentre todas as letras do alfabeto–, que será igual para ele e para o adversário. Após as três partidas, quem tiver o maior número de pontos será o vencedor.

Luiz Dal Monte é arquiteto e designer de jogos e brinquedos