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Infra-Estrutura da cidade: O essencial é invisível

A cidade funciona como um organismo vivo. Quando ocorre uma falha, o sistema inteiro corre o risco de colapso.

Spensy Pimentel

Nada lembra tanto a atividade do corpo humano quanto uma metrópole a todo vapor. Ambos precisam se abastecer de água e de energia e eliminar os resíduos de forma eficaz. Os veículos que trafegam pelas ruas e avenidas podem ser comparados aos nutrientes circulando pelas veias e – veja como, neste caso, até a palavra é a mesma – pelas artérias. As linhas telefônicas cumprem a mesma função dos nervos, que despacham e recolhem informações o tempo todo.

Tal como um organismo vivo, a cidade deve seu funcionamento ao trabalho discreto de um conjunto de sistemas cuja existência só é percebida quando surge algum problema. Eles são como o fígado, que precisa doer para ser notado. A infra-estrutura urbana é o resultado de um conjunto enorme de operações, muitas delas complicadíssimas. Para chegar às torneiras e aos chuveiros de Los Angeles, nos Estados Unidos, a água do Rio Colorado percorre um canal de 500 quilômetros, em pleno deserto. Em São Paulo, um exército invisível de 5 800 trabalhadores se esfalfa, noite e dia, na manutenção dos sistemas de eletricidade, telefone, água e esgoto instalados debaixo da terra.

Sem uma rede de serviços eficiente, a metrópole se torna um lugar insuportável. Não se trata apenas de conforto, mas também de saúde e até de sobrevivência. “Em qualquer cidade do planeta, o número de domicílios com esgoto está diretamente relacionado com a taxa de mortalidade infantil”, explica a urbanista Raquel Rolnik, professora da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Quem sabe é super

Segundo a Organização Mundial da Saúde, existem em São Paulo três ratos para cada habitante.

Onde tudo é gigantesco

Conheça os serviços essenciais da Grande São Paulo, a segunda maior metrópole do planeta.

CAMINHOS SEM FIM

 

Os 17 milhões de habitantes da área metropolitana de São Paulo utilizam 77 000 ruas e avenidas para ir de um lugar para outro. As autoridades ainda não conseguiram calcular a extensão total das vias públicas da Grande São Paulo. Sabem apenas que a chamada “rede viária principal” (as vias que ligam bairros diferentes) mede mais de 15 000 quilômetros, o equivalente a duas vezes a distância entre os pontos extremos do país no norte e no sul. (leia na próxima página informações sobre os transportes em São Paulo).

LIGA PRA MIM

A rede telefônica conta com 3 milhões de aparelhos – 180 por 1 000 habitantes, o dobro da média brasileira. Mesmo assim, mais de 50% dos paulistanos não têm telefone em casa. Os aparelhos públicos são 60 000.

APETITE DE LEÃO

Só de frutas, verduras e legumes, são comercializadas diariamente na metrópole 13 000 toneladas, o equivalente à carga de 800 caminhões. Os alimentos chegam à população por meio de 900 feiras, 25 sacolões e 995 supermercados.

UM MAR A CADA DIA

A metrópole consome 5 bilhões de litros de água por dia, uma média de 305 litros por habitante. O sistema opera no limite e costuma faltar água em dias de calor, quando o consumo aumenta em 20%.

MONTANHAS DE SUJEIRA

São produzidas diariamente 17 000 toneladas de lixo, quase 1 quilo para cada habitante. Cerca de 60% vêm das residências. Desse total, apenas 0,5 % é reciclado. A prefeitura gasta 30 milhões de reais por mês para recolher tudo isso. Mesmo assim, há quase 500 pontos clandestinos de descarga de lixo.

CIDADE BRILHANTE

A Grande São Paulo utiliza anualmente quase 40 000 gigawatts-hora de energia elétrica, o equivalente a 16% de toda a eletricidade consumida no país. É o suficiente para manter acesas ao mesmo tempo 72 milhões de lâmpadas de 100 watts.

 

LATRINA A CÉU ABERTO

São Paulo produz cerca de 39 000 litros de detritos sanitários por segundo. A cada três residências, uma não é atendida pela rede de esgotos. Apenas 24% do que é coletado recebe tratamento. O restante vai direto do banheiro para os córregos e os rios da região metropolitana.

A favela global

A origem da palavra “favela” tem a ver com a Guerra de Canudos (1896-1897). Era esse o nome de um dos morros onde as tropas que dizimaram o arraial do beato Antônio Conselheiro haviam instalado seu acampamento. No regresso ao Rio de Janeiro, muitos daqueles soldados foram dispensados do Exército e tiveram de morar em casebres nas encostas dos morros – que passaram a chamar de favelas. Hoje, o mundo todo enfrenta o problema da favelização. Há cerca de 1 bilhão de pessoas morando em barracos, cortiços ou casas precárias. Entre as cidades com mais de 60% de favelados estão Lagos, na Nigéria, e a brasileira Recife. Na foto, uma favela do Capão Redondo, na periferia paulistana.