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Inveja

Homens, mulheres, bebês e macacos - estamos todos à mercê do menos nobre dos sentimentos. Ainda bem - porque a inveja pode ser útil para você

Douglas Ceconello

Quem nunca sentiu schadenfreude provavelmente está mentindo. Sem tradução para o português, a palavra alemã representa aquela alegria inconfessável de ver o outro se dando mal. E não há pimenteira, figa ou reza forte que impeça a inveja de atacar, porque querer o que é do outro faz parte da natureza – de macacos a bebês.

Quando sentimos aquela inveja que nos faz desejar os bens materiais, o status ou alguma qualidade, como a beleza, de outrem, a área ativada é a mesma responsável por processar as sensações de dor física ou emocional, segundo um estudo do Instituto Nacional de Ciência Radiológica, em Tóquio, de 2009. Ou seja: invejar dói, de verdade.

Quando o invejoso percebe que a outra pessoa tem um insucesso – fracassa no trabalho, briga com a mulher ou bate o carro, por exemplo -, ele se sente recompensado por isso. E aqui não se fala de maneira figurada: a área ativada no cérebro quando ocorre o schadenfreude é exatamente a mesma que processa sensações de prazer e alegria. “Esse sentimento depende de nossa percepção de quanto uma outra pessoa é bem-sucedida. E essa percepção depende dos traços de cada indivíduo, do que consideramos invejável”, afirma Márcia Chaves, chefe do Departamento de Neurologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Quer dizer: a grama do vizinho será tão mais verde que a sua quanto você enxergar. O gramado pode estar seco e com aspecto de assombrado, mas, para quem a invejar, será digno de final de copa do mundo. Mesmo se não houver grama. Isso porque, em maior ou menor intensidade, ninguém está livre da inveja. E isso não acontece porque somos pessoas más. “Os estímulos do ambiente refletem no cérebro e essa atividade cerebral provoca a inveja. Há uma base neurológica constituída para isso”, afirma. E não é só isso: existe mesmo a inveja boa e a inveja má – não é mentira daquele seu vizinho que adorou seu carro novo.

O cérebro reage de forma expressiva quando processamos esses estímulos. Primeiro, em um estágio básico – o mais comum -, vem aquela vontade de ter o que pertence a outra pessoa. Ou seja, o vizinho apenas queria ter o seu carro. É um passo além da admiração, mas um comportamento natural. Em uma etapa mais avançada, a inveja se manifesta por meio da felicidade com o insucesso do outro, com o desejo de que algo ruim lhe aconteça – que você bata o carro ou que ele seja roubado. Nesse caso, é o tal do schadenfreude.

Ao longo da história, diversos personagens causaram prejuízos a oponentes que ameaçavam roubar seu status. Em um caso famoso que entrou para a galeria de lendas sobre a inveja, o compositor italiano Antonio Salieri teria envenenado Mozart, então com 36 anos. Segundo o psicanalista Renato Trachtenberg, autor do livro As Sete Invejas Capitais, a história, ainda que não seja verdadeira, é uma boa alegoria do processo individual desencadeado pela inveja. Segundo a lenda, ao se preocupar somente em alcançar o gênio austríaco, Salieri teria desprezado suas próprias qualidades excepcionais. “Além de ser um excelente compositor, ele havia descoberto Mozart, o que mostra uma sensibilidade aguçada. Ele também era um gênio e não precisava invejar ninguém”, diz.

As pessoas com maior propensão à inveja em nível patológico são aquelas que têm graves falhas ou lesões nos lobos frontais do cérebro, regiões responsáveis pelo reconhecimento das regras e pelo respeito aos outros. “Muitas vezes, apresentam traços de uma personalidade sociopata, com comportamentos não aceitáveis socialmente. Então, elas não querem mais o que o outro tem, mas sim ser exatamente o que o outro é”, afirma Márcia Chaves.

 

Uva ou pepino?

Dá para colocar (parte) da culpa na evolução – e nem os macacos estão livres da inveja. Pesquisadores do Instituto Yerkes, em Atlanta, nos Estados Unidos, detectaram traços de inveja em outros primatas. Dois macacos recebiam pepinos para colaborar com a pesquisa, até que um dia um deles ganhou algo mais saboroso: uvas. Aquele que continuou recebendo o pepino se tornou mais hostil durante os trabalhos – não há mais bobo na pesquisa científica.

Na verdade, a inveja teve um importante papel. Em uma época primitiva, desejar o que o outro conseguia era um indicativo de quanto seria possível conquistar em determinado ambiente: se um macaco conseguia dois cachos de banana, mas um outro obtinha cinco, o invejoso percebia que ele também poderia voltar para casa com uma quantidade maior. Esse componente estimulava a competição, que serviu para o desenvolvimento da espécie. “As áreas do cérebro que processam a inveja, entre outras sensações, só aparecem nos primatas e em alguns mamíferos. Trata-se de um mecanismo evolutivo importante. Do contrário, o cérebro sequer nos disponibilizaria esses mecanismos”, analisa Márcia Chaves.

O psiquiatra José Toufic Thomé concorda: “É um dos nossos sentimentos mais primitivos. Quando começamos a perceber o mundo, a inveja logo se manifesta: o que o outro tem, eu quero ter ou quero ser. Temos uma carga de instintos que contém inveja. É um comportamento evolutivo: se eu tenho que sobreviver, preciso usar todos os meus recursos, mesmo os mais primitivos”, afirma.

Até os bebês são invejosos

Nem mesmo aquele bebezinho fofo sendo amamentado pela mãe está livre de sentir inveja. Conforme conceito da psicanalista austríaca Melanie Klein, a inveja se manifestaria no contato com a mãe, durante a amamentação. Ela chamou esse sentimento de “inveja do seio”. Conforme a teoria, o bebê não suportaria a ideia de que não é ele quem produz seu próprio alimento, percebendo uma condição de dependência em relação à mãe. “No momento em que o bebê passa a perceber que o leite que necessita é fruto do seio de uma mãe que tem esse poder de criar esse alimento, o sentimento de inveja é acionado com toda a sua força primitiva, e a reação inicial é de rejeitar ou destruir essa percepção frustrante”, afirma César Brito, psicanalista e professor da faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Essa primeira relação desenvolvida entre o bebê e a mãe, que faz com que o recém-nascido perceba que não está sozinho, que há outro de quem sua sobrevivência depende, vai se refletir em novas áreas de sua vida. “O bebê precisa desenvolver a capacidade de tolerar as frustrações, reconhecer que as diferenças existem para que se desenvolva de forma mais saudável”, afirma.

Mas, se nem ao longo da vida é fácil aprender essa lição, tentar “curar” a inveja também parece uma missão impossível. “Tirar a inveja de alguém seria como amputar essa pessoa”, afirma o psicanalista Renato Trachtenberg. Mesmo os casos mais exacerbados de inveja não têm uma cura definitiva. Não é como uma cirurgia em que a doença é extirpada. Quando atinge níveis patológicos, o sentimento de inveja pode ter desfechos trágicos. Em uma versão moderna do fratricídio cometido por Caim contra Abel, em 2011 um jovem confessou ter matado o próprio irmão por invejar seu sucesso. O crime bíblico foi cometido porque Caim acreditava que Deus privilegiava Abel. Na versão urbana, no Mato Grosso, ambos eram DJs e o assassino reclamou que o irmão era mais requisitado para festas.

Como ainda não há uma base de estudos neurocientífica que detalhe todo o caminho percorrido até que o pecado se consuma, uma das abordagens adotadas no tratamento é a psicanalítica: a inveja tem de deixar de interferir em nossa vida. Ou seja, se deixar de invejar é mesmo impossível, pelo menos dá para transformá-la em estímulo.

Demônio – Leviatã

Um dos dez mandamentos dizia: “Não cobiçarás”, o que vale para a mulher do próximo, mas também para o carro do próximo, a casa do próximo, o corpo sarado do próximo… O capeta da inveja é representado por um dos príncipes do inferno, o Leviatã. O monstro importado da mitologia já aparecia no Antigo Testamento como dragão marinho, serpente, baleia e até como um crocodilo, disposto a engolir suas vítimas sem piedade.

Baile de máscaras

Cobiça é querer o que não se tem
Ciúme é uma relação que envolve um terceiro, uma disputa por afeto ou atenção de algo/alguém que já se conquistou

Inveja é uma relação dual: alguém quer ter ou ser o que o outro já conquistou ou é

Schadenfreude é o êxtase do invejoso: a alegria que ele sente quando o invejado fracassa

Admiração parte de um vazio, do princípio de que algo está faltando ¿ só admiramos o que não temos: assim, pode ser considerado um tipo inicial de inveja

A inveja está na cabeça
O mais dissimulado dos pecados provoca sofrimento, alegria e depressão. Os estímulos do ambiente refletem no cérebro, que processa a inveja

Eu quero
A serotonina é responsável pela inveja. Pessoas com problemas de comportamento registram a falta desse hormônio.

Inveja que dói
Quando a inveja se manifesta, é ativada a área do cérebro conhecida como córtex cingulado anterior, a mesma em que é processada a sensação de dor física.

Benfeito
Ao sentir prazer pelo insucesso alheio, a área cerebral estimulada é o estriado límbico, a mesma região responsável pelos sentimentos prazerosos, de alegria ou recompensa.

Azar o seu
Pessoas com lesões ou falhas nos lobos frontais do cérebro são mais propensas à inveja. Dependendo do estágio, a inveja exacerba os sentimentos de injustiça e desigualdade, quadro que pode evoluir para a depressão clínica.

Tô nem aí
Pessoas com coágulos ou lesões no córtex pré-frontal ventromedial (área ligada a condutas sociais e tomada de decisões) tendem a não sentir inveja ou prazer pelo insucesso alheio.

Quando a inveja não é tão ruim assim
Morrer de inveja do colega mais bem-sucedido pode servir de combustível para te levar a galgar degraus no trabalho ou na escola

Você torceria o nariz para um currículo profissional que contivesse a inveja como uma habilidade. Mas o fato é que o pecado pode ser um tremendo combustível para o desenvolvimento. Em outras palavras, invejar o sucesso alheio, em um ambiente competitivo, pode ser o que faltava para ampliar a produtividade.

Não importa se é na escola, na família, no trabalho, entre amigos. Somos incentivados a querer sempre mais, mantendo um modo de vida e uma forma de pensar baseados no embate. “Há um estímulo à competição. A partir daí, as pessoas reagem de diferentes maneiras: algumas são estimuladas, outras sofrem”, diz Márcia Chaves, do departamento de Neurologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Nesse cenário, a inveja é uma via de mão dupla: provocar o desejo alheio, convidar o outro ao pecado, é encarado como uma espécie de antídoto contra os próprios maus pensamentos. “Existem pessoas que querem se livrar da sua inveja fazendo com que alguém as inveje”, afirma o psicanalista Renato Trachtenberg. Por outro lado, há quem se sinta desconfortável em progredir ou adquirir bens, com medo de se tornar vítima da inveja.

Inveje, mas trabalhe
Aquela história de pontuação, metas de vendas, equipes contra equipes para chegar ao melhor resultado, como algumas empresas estimulam, pode ser saudável? A inveja pode ser encarada como uma forma de aumentar a disputa entre os trabalhadores e melhorar a produtividade. Essa relação pode ser positiva para o crescimento das empresas e dos próprios funcionários. Mas, em estágios avançados, gera prejuízos para as equipes. “A inveja está presente no mundo corporativo. As pessoas acabam fazendo de tudo para permanecer em seus cargos ou subirem na hierarquia”, afirma a psicóloga Glaura Verdiani, autora da tese Um Estudo Sobre a Inveja no Ambiente Organizacional. O verdadeiro impulso motivacional dos empregados não está mais em fatores externos como dinheiro e relacionamento interpessoal, mas em aspectos internos, dependendo do sentido que cada indivíduo atribui ao trabalho. Essa mudança de percepção revolucionou o gerenciamento corporativo. Se a motivação parte de cada um, a inveja impulsiona o empregado na disputa dentro da empresa.

Em teorias da psicologia aplicada à administração, acredita-se que, depois de compararmos nosso insucesso ou fracasso com o dos colegas, tendemos a buscar um equilíbrio em relação aos outros. “Por exemplo, se o indivíduo constatou que o esforço-recompensa do outro foi superior ao seu. É nessa condição de estar `sub¿ em relação ao outro que nasce a inveja, solapando o impulso motivacional”, aponta Glaura Verdiani. Durante a pesquisa, o que a psicóloga percebeu é que, em vez de o trabalhador ficar desmotivado pela inveja, ele acaba sendo estimulado por ela. Para Trachtenberg, o ambiente empresarial “estimula parentes próximos da inveja, como a voracidade, a avidez e a rivalidade”. A lição é: vale, sim, invejar, mas só se for para subir pelos próprios méritos.

Para saber mais

As Sete Invejas Capitais
Arnaldo Chuster e Renato Trachtenberg, Artmed, 2009

Otelo
William Shakespeare, L&PM, 1999

 

A inveja pelo mundo
A concepção de inveja muda conforme diferentes culturas e religiões

Na Grécia, cinco séculos antes de Cristo, a inveja era encarada como um comportamento político, uma condição inevitável a ser enfrentada por quem obtivesse sucesso. Em Atenas, havia votação para expulsar alguém da cidade por dez anos. Esse exílio era o Ostracismo, que vitimava aqueles que conseguiam muito poder.

No Islamismo, a inveja, ou hassad, é abordada como doença espiritual corrosiva que destrói e anula todas as boas ações praticadas pelo invejoso. Após admirar um bem ou sucesso alheio, é comum usar a expressão “É a vontade de Deus” para demonstrar que não se está sendo invejoso, mas, sim, homenageando o outro.

No Judaísmo, a inveja só é considerada pecado quando existe o desejo de tirar algo do outro. Quando tem o caráter de admiração, é vista como estímulo para o desenvolvimento material e espiritual. Ficou consagrada a expressão “inveja santa” ou “inveja boa”, incentivo para alcançar os objetivos de crescimento.

No Budismo, a inveja é encarada como a conjunção da cobiça e do ciúme, sentimentos que impedem o alcance do nirvana, o paraíso. A alma dos invejosos reencarna no reino Asura, pertencente a semideuses rebeldes e frequentado por pessoas que haviam tomado atitudes positivas, mas motivadas pela inveja.