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Jogo de cores

Reflexos de ondas de luz, as cores têm forte influência sobre as pessoas. Animam, relaxam, provocam emoções boas e más. Mas, nesse jogo, a personalidade de cada um e os costumes da época também desempenham um papel. As pesquisas ajudam o homem a tirar proveito de todos os matizes.

Reflexos de ondas de luz, as cores têm forte influência sobre as pessoas. Animam, relaxam, provocam emoções boas e más. Mas, nesse jogo, a personalidade de cada um e os costumes da época também desempenham um papel. As pesquisas ajudam o homem a tirar proveito de todos os matizes.

Imagine quatro fotografias de um mesmo prato. Toda a diferença está no fundo. Sobre o branco, parece uma insossa refeição de hospital. O verde também corta a fome, porque chama mais a atenção que a própria comida. O violeta esfria o prato. Sobre o vermelho, porém, o filé parece suculento, os legumes mais tenros — sem dúvida, esta é a foto que mais impressiona. Ao vê-la, alguém é bem capaz de correr à geladeira ou dar um pulo à lanchonete mais próxima.

Esse jogo de quatro pratos prova que cor não é só beleza — desperta reações tanto emocionais quanto fisiológicas. Pode provocar apetite ou inapetência, sugerir ódio ou paixão, excitar ou relaxar. Quando se fica exposto a uma luz vermelha por certo tempo ou se permanece num ambiente onde essa cor predomina, o ritmo cardíaco aumenta, a respiração se acelera, o metabolismo é impulsionando. Com isso, as secreções glandulares aumentam — daí a tendência a sentir fome. Não é à toa que as lanchonetes preferem os tons de vermelho, laranja e amarelo na decoração.

Já as chamadas cores frias — como o violeta, o azul e certas tonalidades de verde — têm efeito inverso. Eis por que se tem uma sensação de relaxamento ao se olhar o mar. Essas cores, principalmente o azul, colocam freios no metabolismo, como se a pessoa estivesse prestes a adormecer: a pressão arterial cai, o ritmo cardíaco diminui, a respiração se torna mais lenta. Os cientistas acreditam que essa resposta do metabolismo tenha surgido com o homem primitivo, que se guiava basicamente por dois fatores: dia e noite. A claridade o obrigava a estar fisicamente preparado para buscar alimento ou lutar para se defender; a escuridão era sinônimo de sono e descanso. O homem manteve até o presente essas reações fisiológicas diante das cores vivas e suaves.

De certa maneira, instintivamente, se conhece a ação das cores. Ninguém associa emoções fortes, que fazem disparar o coração, com tonalidades suaves e, muito menos, escuras. A paixão, por exemplo, é eternamente simbolizada por corações vermelhos. Já quando se está desanimado, a tendência é usar roupas de cores frias. Nas pesquisas sobre preferências de cores, invariavelmente a maioria das pessoas que vivem em grandes cidades escolhe o azul — talvez numa busca nostálgica de tranqüilidade.

Se as cores estimulam as pessoas, há quem acredite que podem até curar doenças, cada matiz fornecendo energia para uma parte específica do organismo. Os indianos praticam até hoje a terapia cromática na sua forma tradicional e milenar, expondo a água que será servida ao doente à luz do Sol, sob filtros coloridos. A água ficaria, assim, energizada com uma certa cor, da qual o organismo estaria carente.

Os cientistas sabem que determinadas cores precisam ser evitadas em certas situações. Objetos de cor laranja ou vermelha tendem a deixar os doentes mentais ainda mais confusos. Nos quartos dos hospitais modernos, as paredes estão sendo pintadas de cores suaves em substituição ao clássico branco, isso porque o branco traz tamanha sensação de paz que, em pessoas deprimidas por causa de doenças, pode acabar resultando numa impressão de solidão. Parece claro que, se há cores que devem ser abolidas em alguns casos, também devem existir cores com excelentes efeitos terapêuticos.

Na decoração, em geral, a escolha de cores costuma ser deliberada. Os quartos de dormir são pintados de suaves tonalidades pastel, para acalmar e induzir o sono. Mas, nos motéis, aonde ninguém vai exatamente para dormir, os quartos têm colorações fortes. Nas escolas, chegou-se à conclusão de que o ideal é o amarelo-claro ou mesmo o bege. Parece correto: com muito branco nas classes, as crianças tendem a sentir monotonia e qualquer aula se torna chata; os tons de azul e o verde-claro, por outro lado, fazem até mesmo um aluno nota-10 dormir em aula; tons fortes estimulariam a bagunça, em vez da atenção.

A idéia de usar cores para obter determinadas reações psíquicas é antiga. Os monges tibetanos há milhares de anos enfatizam uma cor — como o verde, para obter harmonia — conforme a meditação que pretendem fazer. Tem lógica: na escala cromática, que vai do vermelho ao violeta, a cor verde fica bem no meio. Nessa posição estratégica, parece quente ou frio, dependendo da tonalidade. Os tons que puxam mais para o azul, como o musgo, são repousantes. Já o verde-limão, próximo do amarelo, é considerado uma cor estimulante. O verde médio é o perfeito equilíbrio.

Mas, em geral, qualquer verde dá sensação de bem-estar, e por esse motivo é a cor que significa “siga” no semáforo: diante da luz verde, o motorista é induzido a crer que tudo está tranqüilo e ele pode avançar. O gritante vermelho, porém, provoca sempre um choque — pois é a cor associada à agressividade, às mudanças repentinas, às revoluções onde corre sangue. Não há quem ouse ignorá-lo, a não ser algumas pessoas ao volante, com os resultados que todos conhecem. Em matéria de cor, porém, não se pode pintar tudo em um único tom. Os mais recentes estudos mostram que tudo depende do estado emocional e da personalidade de cada um — e principalmente dos valores a que se adere.

O marrom, por exemplo, é sempre relacionado com segurança e recato — por isso os que preferem trajes marrons são chamados sóbrios. Contudo, conforme o estado emocional, o apego ao marrom pode significar dependência ou seu oposto — sensação de poder, excesso de confiança. Qualquer pessoa tende a combinar a cor de sua emoção com a cor que está vestindo ou preferindo em dado momento. Todos sentem isso no dia-a-dia.

Ignoram-se as chamadas cores alegres quando se está triste, buscando no guarda-roupa trajes escuros. Afinal, a escuridão é associada às tristezas, às perdas, ao medo e à morte. A Psicologia, porém recomenda que cada um brinque com as cores, criando contrastes. Assim, quem está alegre, ao escolher tons mais claros, intermediários como o cinzento ou mesmo os tons tristes, não corre o risco de exacerbar ou sentir-se, por exemplo, agitado.

Por sua vez, vestir tons fortes e contrastantes dá mais colorido à vida, quando a situação parece preta. Em relação à idade, é interessante perceber que os jovens — cujo metabolismo funciona a toda — gostam dos tons fortes, justamente os que os estimulam ainda mais. Os mais velhos, porém, combinam o passar dos anos com uma crescente sobriedade. Ou seja, preferem as cores que diminuem ainda mais o seu ritmo metabólico. Em países como os Estados Unidos, onde os idosos procuram levar vida normal, viajando e se divertindo em locais públicos, em vez de se trancar dentro de casa, eles tendem a usar roupas ainda mais coloridas.

A cultura de uma sociedade também influi na escolha das cores. Povos tropicais costumam apreciar cores vivas. E só lembrar a arte plumária dos índios brasileiros.

Já as sociedades do hemisfério norte gostam de tons mais sóbrios, como os das milenares porcelanas chinesas.

E, numa mesma sociedade, os mais pobres gostam de cores contrastantes, mais do que os ricos. Estes, muitas vezes, apontam tons quase raros, como cor de vinho e lilás, nas suas preferências. Isso, segundo a Psicologia, significaria uma tentativa inconsciente de mostrar sofisticação. Afinal, as chamadas cores nobres não são tão fáceis de ser encontradas na multicolorida natureza.

Às vezes, também, uma mesma situação é colorida de modo diferente em lugares diferentes. O luto nos países ocidentais é preto porque essa é a cor da morte — a sensação de preto é causada justamente pela ausência de luz, que por sua vez é relacionada à vida. Mas os budistas, por exemplo, usam branco nos enterros, como símbolo da paz alcançada pelo morto. A preferência por esta ou aquela cor também está relacionada à época. O vermelho, antigamente, era símbolo de riqueza, porque a tintura dessa cor para tecidos era caríssima. Eis, então, o motivo de ter sido a cor dos mantos de reis, tapetes de palácios e de catedrais. Hoje o símbolo da riqueza é o próprio dourado do ouro. Contudo, não importa quem, quando ou onde — toda cor tem seu momento. Não é por menos que se pergunta o que seria do azul,. se não fosse o amarelo.

Para saber mais:

De olho no olho

(SUPER número 1, ano 4)

Pintura a olho

Ninguém passa a vida em branco e preto pela simples razão de que o olho humano não pára de medir as ondas luminosas do Sol. Cada uma produz uma sensação de cor: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul-anil, índigo, violeta. Quando a luz alcança um objeto, este reflete algumas ondas que acabam determinando a sua cor. O branco é a sensação produzida por coisas que refletem toda a luz; um objeto preto, ao contrário, absorve todas as ondas, sem refletir nada.

Na retina há cerca de 7 milhões de cones, receptores especializados em cores, que só trabalham às claras. No escuro, funcionam os 10 milhões de bastonetes, receptores que, em matéria de cor, só percebem o preto e os tons de cinza. É por isso que, em ambientes sem iluminação, tudo parece acinzentado. O fisiologista inglês Thomas Young (1773-1829) provou que o olho é como um pintor que mistura tintas, forma novas cores e cria uma imagem multicolorida para o cérebro.

Ele mostrou que bastam três tipos de receptores: aqueles sensíveis às ondas longas do vermelho, os que são estimulados pelo verde e os que percebem as ondas curtas do violeta. Toda onda luminosa estimula os três receptores, mas somente um com prioridade. Assim na soma dos estímulos, os receptores formam comprimentos de ondas ou sensações de cor diversas. Não se chegou ainda à conclusão sobre quais seriam as reais cores primárias para o olho: muitos cientistas substituem o violeta pelo azul, por exemplo. Também não se sabe o número exato de tipos de cones. Com certeza, o olho só precisa se especializar em algumas cores para sentir todo o colorido do mundo.