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Livro SuperImportante

Resenha do livro O espinho na estrela do mar, Robert S. Desowitz, Edições 70, Lisboa, 1989

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h50 - Publicado em 31 ago 1990, 22h00

Mario Mariano

Enfrentando os invisíveis invasores do organismo

O espinho na estrela do mar, Robert S. Desowtz, Edições 70, Lisboa, 09/1990

Raramente se consegue resgatar a história que conduziu ao atual estágio do conhecimento médico-biológico. Somos constantemente informados de fantásticos feitos científicos sem saber dos árduos e contraditórios caminhos percorridos na busca desses resultados. O espinho na estrela do mar sintetiza de modo harmônico a trajetória e os principais conceitos de um importante ramo das ciências biomédicas, a Imunologia. O autor, biólogo e ele próprio imunologista, conta como tudo começou com as descobertas do cirurgião inglês Edward Jenner (1749 – 1823). Observando que as mulheres que ordenhavam vacas haviam contraído uma forma benigna de varíola. Jenner supôs que as pessoas sãs ficariam protegidas da doença se fossem infectadas com material retirado das pústulas dos úberes desses animais. Não com pouca luta ele conseguiu demonstrar que essa prática, de fato, protegia as pessoas contra a varíola, tornando-as imunes. Assim, criou o conceito de vacina.
Nessa época, 1770, nem sequer se imaginava a existência de vírus, bactérias e outros agentes infecciosos. Só um século depois, por volta de 1870, é que o químico francês Louis Pasteur traria à luz o fato de que grande número de doenças era causado por microorganismos. E mais: Pasteur demonstrou que era possível imunizar hones e animais contra alguns dos males que os afligiam, como Jenner já havia percebido empiricamente. Quase ao mesmo tempo, outros cientistas também se preocuparam em conhecer os mecanismos pelos quais os mamíferos se defendiam das agressões dos microorganismos invasores. As descobertas nessa direção foram fundamentais para o desenvolvimento da Imunologia moderna. No final do século XIX, a escola médica alemã, liderada por gigantes como Robert Koch (1843 – 1910), deu os primeiros passos para evidenciar que a proteção contra os agressores invisíveis poderia se fazer por meio de substâncias presentes no soro dos mamíferos.
Koch e seu colega Emil Behring (1854 – 1917) conseguiram demonstrar em animais sadios a ação do soro extraído de animais inoculados com pequenas doses da toxina diftérica. O soro lhes proporcionava elevada resistência à bactéria virulenta. Nasceu assim o conceito de soroterapia. Mas coube a outro gênio alemão, Paul Ehrlich (1854- 1915), caracterizar as substâncias protetora no soro daqueles animais: os anticorpos. Há quase 100 anos, Ehrlich concebeu a estrutura das moléculas de anticorpos, aceita até hoje. Na mesma época, o cientista russo Èlie Metchnikoff (18545 – 1916) agregou-se ao grupo de Pasteur. Foi ele quem descobriu nos animais células móveis, distribuídas por todo o organismo, capazes de limpar, ingerir e destruir partículas estranhas, tais como bactérias invasoras. Também foi Metchinikoff quem denominou essas células macrófagas e micrófagas. Ele produziu uma teoria a respeito, depois de realizar um experimento simples, do qual Desowtz tirou o nome de seu livro.
Imaginando que os fagócitos – células que comem partículas – podiam eliminar invasores do corpo, Metchnikoff colheu alguns espinhos de roseira e os espetou em larvas de estrela-do-mar, na expectativa de que os fagócitos se acumulariam em torno dos espinhos, tentando eliminá-los. Foi o que aconteceu – e a partir daí o pensamento médico-biológico mudou de rumo. Acirrou-se a disputa entre a escola alemã, que imputava aos humores – líquidos produzidos pelo corpo – a propriedade de impedir a invasão dos microorganismos, e a escola francesa, para a qual o exército de fagócitos é o grande guardião do organismo. Dessas duas linhas de pensamento nasceram a Imunologia humoral e a Imunologia celular.

Depois de reviver esses acontecimentos. Desowitz discorre sobre a evolução da Imunologia neste século e discute a influência sobre o sistema imunológico da alimentação, do fumo e de outros fatores. Culmina, como não poderia deixar de ser, com considerações sobre a Aids. O espinho na estrela do mar conta uma história fascinante, que ainda está longe do fim.

 

Mario Mariano é chefe do Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo

 

 

 

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