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Mentiram para você: psicopatas lidam pior com dinheiro

Ao contrário do que diz o cinema, um estudo com os lobos de Wall Street da vida real mostra que eles ganham menos dinheiro que seus colegas não-psicopatas

Você já viu esse enredo antes: um rapaz focado, ambicioso e sem medo de pisar em calos alheios (e até nos amigos) para conseguir o que quer explode no mercado financeiro. O estereótipo do psicopata como grande empresário já recebeu até certo apoio da ciência, com estudos afirmando que CEO é a posição com o maior número de psicopatas entre as profissões.

Mas aqui vai uma dica: se for investir, não dê seu dinheiro a um psicopata. Um novo estudo da Universidade de Denver analisou os traços de personalidade de mais de 100 gerentes seniores e CEOs de grandes fundos de investimento (que trabalhavam com capital médio de US$ 4,5 bilhões — ou seja, grana para caramba).

O objetivo do estudo era, em primeiro lugar, avaliar as tendências narcisistas e psicopatas de cada um desses grandes chefes do mercado financeiro. Depois, verificar o histórico de performance financeira deles por dez anos, de 2005 a 2015. O intervalo grande foi proposital: assim, não daria para atribuir estatisticamente as flutuações às crises econômicas, por exemplo.

Outro fator avaliado foi a tendência dos participantes a abraçar riscos em seus investimentos — afinal, uma das grandes vantagens dos psicopatas seria o sangue-frio para aguentar riscos e conseguir um lucro maior lá na frente, como nas operações que vemos Bobby Axelrod, de Billions, orquestrando.

Antes de mergulhar nos resultados do estudo, é interessante ver como os pesquisadores avaliaram a personalidade dos gerentes de investimento. Eles olharam para três traços diferentes, a chamada Tríade do Mal. São eles: maquiavelismo (manipulação alheia para conseguir objetivos), psicopatia (ausência de empatia e emoções rasas) e, por último, narcisismo (sentimento de superioridade).

Só que, em vez de entrevistar os caras, os autores classificaram centenas de vídeos e avaliaram comportamentos não-verbais previamente associados a cada um desses elementos. Impulsividade, agressividade, emoções erráticas, charme superficial e schadenfreude (prazer com as falhas alheias) contavam para o score da psicopatia. Falta de vergonha, comportamento calculista, apatia e postura expansiva elevavam a pontuação dos maquiavélicos. Por fim, superioridade, flerte e falar sobre si mesmo em momentos inapropriados era sinal de narcisismo.

Aí chegou a hora de cruzar as informações. Surpreendentemente, gerentes de fundo de investimento com tendências psicopatas não corriam mais riscos que o normal. Mas ganham menos dinheiro para os seus clientes. Segundo o artigo, uma pessoa que investiu US$ 1 milhão em 2005 com um cara desses ganhou, depois de uma década, entre 15% e 30% a menos do que quem investiu com um gerente normal.

Já quem tinha notas altas em narcisismo não perdia dinheiro, mas arriscava em excesso. Se você tivesse investido com esse tipo de gerente, não teria sentido impacto na carteira, e sim nos remédios da pressão: eles decidiam por estratégias muito mais arriscadas que, no fim das contas, rendiam a mesma grana que as abordagens mais conservadoras dos colegas.

Agora vem a parte difícil de responder: se os psicopatas são frios e calculistas, aguentam os riscos e conseguem o que querem, por que os gerentes mais psicopatas tiveram performances financeiras piores?

Não há uma resposta definitiva, mas a melhor hipótese é de que Hollywood realmente te enganou. Ao contrário do que mostra O Lobo de Wall Street, os ambientes mais inovadores (de qualquer tipo de empresa, não só do mercado financeiro) tendem a ser os que promovem mais colaboração entre as pessoas e estimulam o pensamento divergente. Isso é uma coisa que um gerente levemente psicopata vai ter dificuldade de promover, com pouca empatia e um estilo excessivamente agressivo.