Clique e assine a partir de 8,90/mês

Não vai ter na Copa

Em sete anos de preparação para o Mundial, muitas promessas foram abortadas, vítimas da enguiçada burocracia nacional

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h51 - Publicado em 12 out 2014, 22h00

Camila Almeida

Gastos 100% privados

A promessa – Não utilizar dinheiro público na construção dos estádios.

Quem – Ex-presidente Lula e Ricardo Teixeira, então presidente da CBF.

Quando – 30 de outubro de 2007, logo após o anúncio do Brasil como sede da Copa.

O orçamento inicial dos estádios era de R$ 2,8 bilhões, todos da iniciativa privada. O valor quase triplicou em sete anos, e os governos arcaram com quase metade dos custos, R$ 3,9 bilhões, por meio de investimento dos governos estaduais e prefeituras. Dos R$ 8 bilhões gastos nas arenas, apenas R$ 133 milhões foram investimentos diretos de empresas, irrisórios 1,6% do total. O caso mais emblemático foi a reforma do Mané Garrincha, paga com R$ 1,9 bilhão dos cofres do Distrito Federal, fazendo dele o segundo estádio mais caro do mundo (perde apenas para Wembley, de Londres). A arena mais valiosa da Copa pertence à Agência de Desenvolvimento do DF (Terracap). Apenas três dos 12 campos da Copa são particulares (Itaquerão, Arena da Baixada e Beira-Rio), mas eles também receberam dinheiro público: diretamente, por financiamentos ou por incentivos fiscais. Dos R$ 820 milhões do Itaquerão, R$ 420 milhões foram bancados pelo governo local por meio de Certificados de Incentivo de Desenvolvimento (CID), um tipo de incentivo tributário, e o restante foi emprestado pelo governo federal.

Caxirola

A promessa – Incentivo à cultura nacional por meio de um instrumento com toque brasileiro, a caxirola.

Quem – Marta Suplicy, ministra da Cultura, e Dilma Rousseff, presidente da República.

Quando – 23 de abril de 2013, na abertura da exposição O Olhar que Ouve, do músico Carlinhos Brown, no Palácio do Planalto.

Continua após a publicidade

Logo na estreia, um Bahia x Vitória na Fonte Nova, em abril de 2013, evento-teste da Fifa para a Copa das Confederações, a caxirola catalizou o protesto dos torcedores do tricolor baiano, indignados com o desempenho do time. Desde a chuva de caxirolas, que virou um momento marcante da revolta do brasileiro contra tudo que tem sido empurrado goela abaixo em nome da Copa, o instrumento foi proibido nos estádios, mas ainda é possível encontrá-lo em algumas lojas (na internet, sai por R$ 29,90). Saldo final: a caxirola, um chocalho irritante, é um dos maiores micos da Copa. Criada por Carlinhos Brown, podia render em torno de R$ 1,5 bilhão para o artista baiano e seus sócios, que tinham a intenção de vender 50 milhões delas, e foi anunciada como o instrumento “oficial” da torcida. “Essa incrível caxirola vai ser uma marca na nossa música e no nosso futebol”, disse Marta, no lançamento. Não foi. Nem nunca será.

Mobilidade urbana

A promessa – 85% das obras prontas até dezembro de 2013.

Quem – Ministério dos Esportes.

Quando – 23 de maio de 2012, na planilha de apresentação do terceiro balanço da preparação para a Copa do Mundo.

Na primeira versão da Matriz de Responsabilidades, publicada em 2010, havia 50 projetos de mobilidade urbana. Hoje, aparecem listados apenas 45, que estão longe de serem os mesmos dos originais: vários deles foram retirados (os que não tinham a menor chance de ficarem prontos a tempo), outros foram acrescentados e quase todos reformulados. Em abril de 2014, o Tribunal de Contas da União apontou que apenas 57% dos recursos destinados à infraestrutura haviam sido repassados – o restante simplesmente não foi utilizado porque as obras não saíram do papel. Em Cuiabá, o Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT), obra de mobilidade mais cara da Copa, com custo superior a R$ 1,5 bilhão, não vai ficar pronto. O lendário metrô de Salvador (em construção há 14 anos) vai operar em fase de teste e, nos dias de jogos, só vai transportar aqueles que tiverem ingressos em mãos. E se tem uma cidade que não vai usufruir do legado da mobilidade é Porto Alegre. Nove obras previstas foram retiradas da Matriz. Apenas as vias de entorno do Beira-Rio andaram. E o mais trágico é que tudo ficou mais caro, mas nada vai ser entregue. O custo das obras subiu de R$ 524,9 milhões para R$ 887,9 milhões – aumento de quase 70% – e, então, foram cortadas do planejamento.

Aeroportos tinindo

A promessa – 16 aeroportos reformados.

Continua após a publicidade

Quem – Wagner Bittencourt, ministro da Secretaria de Aviação Civil, e Aldo Rebelo, ministro do Esporte.

Quando – 23 de novembro de 2011, em debate na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados.

Nenhum ficou pronto no prazo. Culpa dos projetos mal elaborados. O Galeão, no Rio, palco da final da Copa, tem problemas logo nos terminais destinados aos voos internacionais. Em Porto Alegre, pelo menos uma melhoria era certa: ampliação da pista em 920 metros para receber voos diretos de grande porte e com carga cheia – obra aguardada há mais de 15 anos. Em janeiro de 2011, para agilizar o processo, a Infraero entregou ao Exército a responsabilidade de fazer o projeto. O prazo era de três meses, mas foram tantos os atrasos dos militares (por diversos motivos, incluindo problemas descobertos no terreno) que, em dezembro de 2012, o governo desistiu de entregar a nova pista até a Copa.

Trem-bala

A promessa – Trem de alta velocidade ligando Rio e São Paulo.

Quem – Dilma Rousseff, então ministra-chefe da Casa Civil.

Quando – 3 de junho de 2009, durante apresentação de balanço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

O trem sairia do aeroporto de Viracopos, em Campinas, passaria por Guarulhos, teria como destino final o aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, e ainda contaria com outras cinco estações no caminho. Até agora, o projeto do trem, estimado em R$ 35 bilhões, não foi nem licitado, e a previsão é de que o edital seja lançado após as eleições. O maior problema foi a sucessão de adiamentos do leilão para a concessão do trem-bala. No último, em agosto de 2013, houve apenas um consórcio interessado (liderado pela francesa Alstom). Por falta de concorrência, foi remarcado. De acordo com o Ministério dos Transportes, um consórcio espanhol encabeçado pela empresa Renfe e um alemão liderado pela Siemens pediram mais prazo para participar do processo.

Continua após a publicidade

Torcidas controladas

A promessa – Integrantes de torcidas organizadas cadastrados até a Copa.

Quem – Ministério do Esporte e Ministério da Justiça.

Quando – 13 de março de 2009, no lançamento do projeto Torcida Legal.

Não está nem perto de terminar. O projeto Torcida Legal, bolado para identificar torcedores com antecedentes em confusões e impedir sua entrada nos estádios, garantiria maior segurança durante o Mundial. Mas, em agosto de 2013, o governo informou que ainda estava finalizando o desenvolvimento do sistema para receber os dados das torcidas organizadas. O programa chegou a ser iniciado no Paraná, em 2011, mas foi cancelado após suspeitas de irregularidades: o Sindicato do Futebol teria assumido o projeto sem licitação, e o ministério teria liberado a verba de R$ 6,2 milhões “em tempo recorde” (a proposta do sindicato foi apresentada em 1º de novembro de 2009 e o dinheiro liberado em 11 de abril de 2010). Após uma reformulação do Torcida Legal, que eliminou o cadastramento biométrico, foram recolhidas informações junto aos próprios clubes.

Filme de Pelé

A promessa – Longa-metragem sobre o rei do futebol.

Quem – Imagine Entertainment.

Continua após a publicidade

Quando – 3 de outubro de 2013, em nota oficial.

A nossa procrastinação foi contagiosa. Contaminou até o estúdio norte-americano Imagine Entertainment (de O Código da Vinci e Uma Mente Brilhante), que está produzindo uma cinebiografia hollywoodiana de Pelé. Mas o filme não ficará pronto a tempo da Copa, expectativa inicial dos produtores. A ideia era aproveitar a publicidade do Mundial, mas atrasos na etapa de pós-produção e a necessidade de refilmagem de algumas cenas atrasou o cronograma. O longa, roteirizado e dirigido pelos irmãos Jeff e Michael Zimbalist (dos documentários Favela Rising e The Two Escobars), reconstrói a trajetória de Edson Arantes do Nascimento na infância e adolescência até seus 17 anos, quando disputou sua primeira Copa do Mundo, em 1958, na Suécia. No elenco, estão os atores Seu Jorge, Rodrigo Santoro, Milton Gonçalves e Marianna Nunes. A nova data de estreia ainda não foi divulgada.

Estádios lucrativos

A promessa – Arenas lotadas após o Mundial.

Quem – Aldo Rebelo, ministro dos Esportes.

Quando – 28 de março de 2012, durante debate na Câmara dos Deputados, após divulgação de relatório do TCU.

O Tribunal de Contas da União (TCU) apontou em 2012 o risco de alguns estádios se tornarem elefantes brancos após a Copa, principalmente nas cidades carentes de clubes locais populares. No item 4.2 do relatório publicado em 15 de março de 2012, constava o seguinte alerta: “Em 4 cidades-sede observou-se que o risco da rentabilidade gerada pela arena de não cobrir seus custos de manutenção era grande: Natal, Manaus, Cuiabá, e Brasília.” No mesmo relatório, consta que o Ministério Público do Distrito Federal chegou a questionar os 71 mil assentos do Mané Garrincha (a Arena Pernambuco, por exemplo, onde três times grandes podem jogar, tem 46 mil), muito superior à demanda dos clubes locais. Mesmo após Rebelo continuar garantindo que nenhum estádio seria subutilizado, um levantamento feito pelo Instituto Dinamarquês de Estudos do Esporte (IDEE), que elaborou um índice mundial de estádios, confirmou a análise pessimista do TCU. Arena Amazônia, Arena Pantanal, o Estádio das Dunas e o Estádio Nacional deverão receber médias de público de 2,1 mil a 4,5 mil torcedores após a Copa. O estudo aponta que todas as 12 sedes devem ter público inferior às médias internacionais após o evento. No Amazonas, uma proposta para melhorar o uso da arena já foi lançada: transformá-la em centro de triagem de detentos.

Menções honrosas

Também não vai ter na Copa…

Internet rápida nos estádios

O 4G está disponível em cerca de cem municípios brasileiros, entre eles todas as cidades-sede da Copa, mas uma minoria de usuários possui celulares com a tecnologia (o equivalente a 2% do mercado 3G). Mesmo com o aparelho certo, será duro conseguir conexão. A consultoria norte-americana Infonetics afirma que “certamente haverá tráfego congestionado”: as 60 mil antenas instaladas no País seriam insuficientes. Em abril, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, admitiu que a internet será “deficiente” em metade dos estádios. A outra metade terá rede Wi-Fi dedicada.

Continua após a publicidade

Porto do Recife 100%

Inaugurado em outubro de 2013 ao custo de R$ 28,1 milhões, se assemelha a um aeroporto. Mas, para chegar lá, os turistas precisam passar aperto – após descer do navio, é preciso pegar um ônibus para usufruir dos serviços do novo terminal. Isso porque o cais de passageiros ainda não tem a estrutura necessária para atracar um navio do porte de um transatlântico.

Estádios verdes e certificados

O Ministério dos Esportes garantiu que todos os estádios da Copa teriam certificação ambiental. Mas, até agora, apenas as arenas Castelão e Fonte Nova têm o selo Leed (Leadership in Energy and Environmental Design). Nada garante que as outras vão conseguir – após a construção, ainda são avaliadas por seis meses. Ou seja, durante o Mundial, os jogos talvez ocorram em estádios que, de verde, só tiveram o dinheiro investido.

Publicidade