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O Pib não mede mais o progresso

O principal índice econômico faliu. A alternativa é medir não produção, mas felicidade, saúde e impacto ambiental. E nisso a América Latina é líder

Nic Marks*

Quando Martin Luther King inspirou o movimento pelos direitos civis nos EUA, ele não disse que teve um pesadelo. Ele disse que teve um sonho. Ainda assim, por muito tempo o movimento ambientalista, do qual faço parte, tem usado imagens aterrorizantes do futuro para defender que sociedades seguem o caminho errado.

Um dos problemas que encaramos é que a atual medida dominante de progresso, o PIB, é baseado apenas na produção econômica. É uma visão muito limitada, que não leva em consideração relações e atividades geralmente não pagas que estão na base de nossa vida, como a criação de filhos, o trabalho doméstico e a ajuda a amigos e vizinhos. Além de não medir o que mais importa, o PIB não dá conta das consequências imprevistas do desenvolvimento econômico, como desigualdade social e degradação do ambiente. É uma visão puramente financeira do bem-estar que se mostrou falida – não apenas finaceira mas também moral e espiritualmente.

A Fundação para Nova Economia [NEF, na sigla em inglês], da qual faço parte, passou então a refletir sobre nosso sonho. E sonhamos que, juntos, podemos criar um mundo onde ter uma boa qualidade de vida não custe a Terra. Um mundo onde pessoas vivam por mais tempo e mais felizes dentro das limitações ambientais do planeta. Para realizar esse sonho, criamos um índice de progresso completamente novo, que chamamos de Índice do Planeta Feliz (IPF). Ele usa dados de expectativa de vida e felicidade autodeclarada para avaliar o bem-estar, e a pegada ecológica para medir o impacto ambiental. Assim, o IPF reconhece que o objetivo final de uma nação é oferecer para seus cidadãos uma vida feliz e saudável, mas também reconhece que a contribuição fundamental como os recursos do planeta são usados. Afinal, queremos que tanto as pessoas quanto o planeta sejam felizes.

Essa forma de olhar o mundo muda repentinamente a ideia que temos de progresso. Algumas nações, como os EUA e outros países ocidentais, conseguem oferecer bastante bem-estar, mas usam uma quantidade absurda do planeta para isso. Já outras – tipicamente as da África subsaariana – simplesmente não geram bem-estar, com expectativa de vida que chega a 40 anos em muito deles. Por isso, estão nos últimos lugares do IPF, apesar de não terem necessariamente uma pegada ecológica alta.

Mas agora vem a boa notícia! Países da América Latina ocupam 9 dos 10 primeiros postos. Eles têm uma expectativa de vida considerável, alto nível de felicidade e pegada baixa ou média. Na Costa Rica, que lidera o ranking do IPF, as pessoas vivem por mais tempo que nos EUA e são muito mais felizes. Na verdade, é o país mais feliz do mundo, segundo pesquisa do Instituto Gallup. E tudo isso com um quarto da pegada ambiental americana. Brasileiros, apesar de graves desafios sociais, vêm em 9º lugar.

O resto do mundo, portanto, tem que levar em conta que o futuro não deverá ser americano nem europeu, mas, sim, latino-americano.

*Nic Marks criou o Centro de Bem-Estar da Fundação para a Nova Economia (New Economics Foundation) e é idealizador do Índice do Planeta Feliz. Os artigos aqui publicados não representam necessariamente a opinião da SUPER.