Clique e Assine a partir de R$ 8,90/mês

Os donos da bola

A Fifa é muito mais do que a entidade que regula o futebol global. Com 209 países-membros - mais do que a ONU - e uma estrutura que abrange todos os clubes e seleções do planeta, a Federação Internacional de Futebol é quase um Estado paralelo, quase como a Igreja. Tem leis próprias, rejeita qualquer interferência e não hesita em usar seu arsenal para subjugar governos.

Por Robson Pandolfi Atualizado em 31 out 2016, 18h52 - Publicado em 12 out 2014, 22h00

Na tarde de 30 julho de 2011, a Fifa, entidade máxima do futebol, única responsável por realizar (e controlar) a Copa do Mundo, ordenou o fechamento do Aeroporto Santos Dumont, no Rio. Como se sabe, quem manda nos aeroportos brasileiros é o governo federal, por meio de organismos como a Anac e a Infraero. E ninguém mais. Mesmo assim, a ordem da Fifa foi atendida e, entre as 14h e as 18h daquele sábado, ninguém aterrissou ou decolou do sexto aeroporto mais movimentado do País. O motivo: a Fifa temia que o barulho dos aviões pudesse atrapalhar a transmissão e a logística do sorteio preliminar dos grupos da Copa, que ocorria a menos de 2 km dali, na Marina da Glória. Para garantir que tudo saísse como o esperado, mandou fechar a pista – e o Brasil obedeceu. Por quatro horas, mais de 4,5 mil passageiros tiveram de ser remanejados para outros aeroportos.

O poder da Fifa é avassalador. E não é de hoje. A entidade surgiu dez anos depois do Comitê Olímpico Internacional (COI), em 1904, quando o futebol ainda era pouco conhecido. Em 1908, nos Jogos de Londres, o football começou a chamar mais atenção. Com o destaque, Fifa e COI começaram a entrar em conflito. O motivo? Dinheiro. Ou melhor, a profissionalização dos atletas. O COI queria preservar o “nobre” espírito da competição. Pierre de Frédy, o Barão de Coubertin, criador das Olimpíadas modernas, era contra que atletas competissem por dinheiro. Naquele tempo, valia mais a dignidade da disputa do que o resultado final. Bonito, mas talvez fosse papo-furado, já que o amadorismo também servia para elitizar a competição: somente os aristocratas tinham dinheiro para treinar e pagar as contas (a regra do amadorismo nas Olimpíadas durou até 1988, mas praticamente todos os atletas de ponta já eram profissionais). A Fifa começou a questionar essa filosofia. “Esse foi o grande elemento que culminou na criação da primeira Copa do Mundo, em 1930, no Uruguai”, explica Sérgio Settani Giglio, integrante do Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol da USP.

A primeira Copa foi aberta para todos os jogadores, profissionais ou amadores. A Fifa percebeu que, profissionalizando o esporte, teria sempre os melhores jogadores em campo, o que garantiria cada vez mais atenção do público – e, no futuro, dos patrocinadores. Essa visão persiste até hoje. Mas, no início, ainda havia muito amadorismo. Embora políticos tenham percebido desde a primeira edição que a Copa é uma ótima oportunidade para agradar eleitores e, por isso, vale a pena bajular a Fifa, foi somente na segunda metade do século 20 que a entidade conquistou o poder de fechar aeroportos. Um dos grandes responsáveis pela atual musculatura da Fifa foi o brasileiro João Havelange. Ex-nadador olímpico dos Jogos de Berlim (1936) e Helsinque (1952), o então presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD, a antiga CBF) logo se notabilizou entre os dirigentes como um sujeito afável e astuto, que dominava quatro línguas e se relacionava bem com todo mundo. Àquela altura, a entidade contava com 122 integrantes, mas dialogava com menos de metade deles. Africanos e asiáticos ocupavam poucas cadeiras na Fifa e ainda tinham de se estapear por apenas três vagas na Copa – o resto se dividia entre latino-americanos e europeus. Era preciso abrir a Fifa para o resto do planeta, globalizá-la. E foi justamente por isso que um sujeito chamado Horst Dassler, filho de Adi Dassler (o criador da Adidas), decidiu apadrinhar Havelange nas eleições da Fifa, em 1974.

Era Dassler

O empresário sonhava em estampar sua marca na camiseta das principais seleções do mundo. Para isso, era necessário ter alguém que expandisse a Fifa e estivesse disposto a ganhar dinheiro com a Copa. Havelange estava. Uma de suas prioridades foi dar mais espaço para a participação das seleções africanas – um prato cheio para Dassler garimpar contratos de patrocínio para a Adidas. Em troca, Havelange tinha apoio irrestrito do empresário para se manter no poder. Em Jogo Sujo – O Mundo Secreto da Fifa, o jornalista Andrew Jennings afirma que, a cada eleição, Dassler distribuía maços de dinheiro entre os “indecisos ou resistentes” para convencê-los a votar em Havelange. Mais do que parceiras, a Fifa e a Adidas agora eram irmãs. Jennings garante que até Joseph Blatter, o atual presidente da entidade, teria passado seis meses recebendo “treinamentos” na sede da Adidas, na Alemanha, muitos anos antes de suceder Havelange, em 1998. Boatos à parte, o certo é que a parceria rendeu para ambos os lados. Desde 1970, todas as bolas utilizadas da Copa do Mundo têm sido da Adidas. No ano passado, o contrato de exclusividade com a marca foi prorrogado até 2030, e a Adidas aparece, hoje, nos uniformes de nada menos que 61 seleções, mais que o dobro da Puma (29) e da Nike (27). Já a Copa do Mundo cresceu em tamanho e importância – o número de participantes mais que dobrou -, e a Fifa se consolidou como a mais poderosa entidade esportiva do mundo. Mas o caminho até aqui foi tortuoso e recheado de episódios obscuros. Um deles foi a ascensão e queda da International Sport and Leisure, a ISL. Criada em 1982 por Dassler, a empresa era a única autorizada a revender os direitos de transmissão da Copa do Mundo para as emissoras de TV. “Mais ou menos como vender água no deserto. Não tinha como dar errado”, diz o jornalista Jamil Chade, autor do livro A Copa Como Ela É. A empresa não só atuava sozinha em um mercado bilionário como tinha autonomia para impor preços. Em 1994, analistas da ISL esquadrinharam os balancetes de cada emissora para verificar quanto elas ganhavam com a Copa. Os lucros, claro, eram astronômicos. As redes de TV compravam os jogos por um valor muito abaixo daquele que cobravam de seus anunciantes. Ou seja: a Fifa devia aumentar preços – com o apoio da ISL. A empresa, porém, teve vida curta. Em 2001, decretou falência e deixou dívidas de mais de US$ 300 milhões – a segunda maior quebra na história da Suíça. Intrigados, juízes suíços iniciaram uma devassa nos balancetes para entender como um negócio tão promissor chegou à bancarrota. Acabaram descobrindo que a ISL era o caixa 2 de alguns dirigentes da Fifa. O processo mostrou que eles cobravam propinas para favorecer certas empresas na disputa pelas cotas de patrocínio e dos direitos de transmissão das Copas. Ou seja: fecharam negócios bons para seus bolsos e nem tanto para o caixa oficial da própria ISL.

O esquema envolvia diversos caciques do futebol internacional – em seu livro, Jennings menciona uma lista com 175 episódios de suborno que totalizariam, juntos, cerca de US$ 100 milhões. Mas as investigações dos suíços identificaram somente três pessoas: João Havelange, presidente de honra da Fifa, Ricardo Teixeira, presidente da CBF, e Nicolás Leoz, presidente da Conmebol, a confederação sul-americana. Juntos, teriam recebido R$ 45 milhões em subornos. Para evitar punições, os três renunciaram a seus cargos entre 2012 e 2013. Teixeira, Havelange e Leoz conseguiram sair praticamente impunes porque os desvios ocorreram entre 1992 e 2000 e, nesse período, o pagamento de propina não era considerado crime na Suíça (sendo de comum acordo e declarado no imposto de renda, podia). Num acordo extrajudicial, concordaram em devolver uma pequena parte do dinheiro, R$ 6 milhões – na Suíça, os tribunais saem de cena quando a parte fraudada aceita fazer um acordo com os fraudadores. Blatter também foi investigado, mas não surgiram provas suficientes para incriminá-lo. A ISL havia se tornado, assim, o maior caso de corrupção da história da Fifa.

Mas a empresa era apenas uma intermediária. A entidade continua com a propriedade dos direitos da Copa do Mundo e demais competições. Qualquer empresa que deseja patrocinar, transmitir ou lançar algum produto que faça menção a um campeonato da Fifa precisa pagar uma licença para a entidade. Há outras fontes de receita, como venda de ingressos e pacotes turísticos oficiais da Copa. Um mercado bilionário.

Intocável

Não é por acaso que, mesmo com a credibilidade abalada, a entidade continua fechando aeroportos pelo mundo. Como? Parte da resposta, é claro, está na popularidade do futebol. “A Fifa não só controla o esporte mais popular do mundo. Ela sequestra as nossas emoções”, resume Jamil Chade. A fome para se associar ao maior fenômeno de massas do nosso tempo é tanta que os candidatos a sede de Copa do Mundo se sujeitam a todo tipo de exceção, como isenções fiscais ilimitadas para a Fifa, que nunca paga imposto em lugar nenhum (nem na Suíça, onde mantém sua sede administrativa), ou como no caso da liberação da cerveja nos jogos da Copa, o que era proibido no Brasil inteiro. A entidade também criou uma série de escudos para se proteger. No papel, a Fifa é uma associação civil sem fins lucrativos. Isto é: um agrupamento de pessoas que buscam um interesse comum e não-econômico. Pela lei, a Fifa pode ganhar rios de dinheiro, mas não pode ter lucro – ou seja, seus sócios não podem simplesmente embolsar o dinheiro que sobra no caixa. Tudo tem de ser reinvestido na sua missão primordial: a promoção do futebol ao redor do mundo. Mas não há como assegurar que isso realmente aconteça por causa de um detalhe aparentemente banal: a sede administrativa da Fifa fica em Zurique. E a Suíça, como se sabe, é um paraíso fiscal – um país que não faz questão nenhuma de fiscalizar as atividades financeiras de seus cidadãos e organizações. Assim, nada impede que a Fifa ganhe muito dinheiro com a Copa e faça o que bem entender com ele. Até 2002, a entidade sequer publicava seus balanços financeiros – que são obrigatórios na maioria dos países, inclusive no Brasil. Quando passou a publicá-los, fez bem resumido, sem os detalhes que realmente explicam o que acontece com o dinheiro. Assim, quem confere o balanço de 2013, por exemplo, descobre que a entidade gastou US$ 36 milhões só com os salários dos seus 24 dirigentes mais importantes, como Blatter e o secretário-geral, Jérôme Valcke. A folha da Fifa cresceu US$ 2,8 milhões em relação a 2012. Até aí, tudo certo. Só que o lucro total da entidade encolheu quase US$ 17 milhões de um ano para o outro. Ninguém sabe – e a Fifa sequer tem a obrigação de informar – quem está ganhando salários mais gordos e por quê.

Continua após a publicidade

Só que ninguém sabe quem recebeu o quê. Nesse vale-tudo suíço, a Fifa pode distribuir dividendos internamente e gastar com premiações, bonificações e repasses às federações de cada país – desde que pareça reinvestimento em futebol. Em 2011, por exemplo, Joseph Blatter iniciou o congresso geral da Fifa com uma notícia alentadora: o desempenho financeiro da entidade tinha sido tão bom que o Comitê Executivo daria US$ 10 milhões às federações de cada um dos 209 países-membros. Assim, arbitrariamente. Todos aplaudiram a decisão com furor. Minutos depois, ainda no clima de celebração, Blatter anunciou o início das eleições internas da entidade – e não é preciso dizer que foi reeleito. “A Fifa se tornou um grande governo do futebol. Institucionalmente, é maior do que a ONU, com a vantagem de que não responde a ninguém”, diz o historiador Maurício Drummond, líder do Laboratório de História do Esporte e do Lazer (Sport), ligado à UFRJ. Por que ninguém investiga mais a fundo essas e outras manobras? Simples: porque a Fifa não deixa. As únicas leis que se aplicam à entidade são as da Suíça. Além disso, qualquer país que ouse confrontá-la pode ser excluído das Copas e perder seus representantes nas competições de clubes – como a Libertadores da América e a Champions League. Conclusão: nenhum governo quer correr o risco de ver seus eleitores afastados da comunidade do futebol, mesmo quando o objetivo é o mais nobre. O governo espanhol tentou, em 2007, renovar os dirigentes das federações esportivas do país. Mas Blatter ameaçou tirar a Espanha das Copas caso o ultimato do governo fosse levado adiante. Resultado: a Real Federación de Fútbol, a CBF deles, foi a única entidade esportiva que não realizou eleições – e a Fúria pôde, assim, buscar seu primeiro título na Copa do Mundo de 2010.

Mas esses excessos de autoridade não são cometidos por acaso. Todos vêm em nome de um ideal, a valorização da experiência de quem está diretamente envolvido na Copa, como patrocinadores, emissoras de TV e os torcedores que compram os ingressos. Estádios com padrões mínimos de arquitetura, organização e limpeza, cidades com boa mobilidade e serviços padronizados – tudo ajuda no aprimoramento do produto Copa do Mundo. Os meios até podem ser questionáveis, mas os resultados, não. Até 1998, o faturamento anual da Fifa não passava de US$ 700 milhões. Neste ano, a ideia é catapultar a arrecadação para quase US$ 5 bilhões – sete vezes mais. Quase 90% desses valores vêm de contratos de patrocínio e da venda dos direitos de transmissão da Copa do Mundo, que crescem a cada edição. A Copa de 2006 gerou receitas de cerca de U$ 2,6 bilhões. Em 2010, bateu em US$ 3,2 bilhões, e no Brasil a previsão é de um faturamento acima de US$ 4 bilhões. Além dos escudos externos, a Fifa ainda tem proteções internas. Duas vezes por ano, os representantes dos 209 países-membros vão até Zurique discutir questões gerais como mudanças no estatuto, o desempenho financeiro da entidade e a aceitação ou veto a novos membros. Tudo é decidido no voto e ninguém desfruta de privilégios. Potências como Brasil, Alemanha e Itália, por exemplo, têm o mesmo peso que países perna-de-pau como Islândia e Ilhas Seicheles. Até o presidente e o secretário-geral são eleitos e reeleitos a cada quatro anos, sempre depois de cada edição da Copa. Fora dos encontros semestrais, não há tanta democracia: todas as decisões são tomadas pelo Comitê Executivo, uma panelinha que reúne 24 chefões do futebol mundial. Mas ninguém tenta tirá-los de lá porque, na prática, todos os afiliados estão relativamente satisfeitos com a forma como as coisas funcionam (em 110 anos, a entidade teve apenas oito presidentes). O comitê pode aplicar todos os bilhões da Fifa a favor da manutenção do próprio poder. O resultado é um sistema em que todos têm interesse em perpetuar o status quo. E o próprio estatuto da Fifa dá essa prerrogativa à panelinha de Blatter: o Comitê Executivo tem o compromisso formal de dar assistência a seus membros. O valor é definido conforme as regras do Programa de Assistência Financeira (FAP, na sigla em inglês). Funciona mais ou menos assim: cada federação elabora um orçamento para realizar aquelas atividades e investimentos que considera essenciais ao desenvolvimento do futebol – desde a organização de competições até a construção de centros de treinamento de jovens atletas. A Fifa, então, analisa o orçamento e decide se vai bancar a conta ou não – sabe-se lá com que critérios. Por fora do FAP há, ainda, os repasses relativos à Copa do Mundo. Só para a de 2014, a entidade vai desembolsar US$ 576 milhões, 37% a mais do que na Copa da África do Sul, em 2010. A maior parte desse valor será destinada a premiações – US$ 35 milhões só para a federação campeã. Outros US$ 70 milhões de dólares irão para os clubes que cederem jogadores à Copa, e US$ 100 milhões serão alocados no Programa de Proteção de Clubes da Fifa – uma iniciativa que dá compensações financeiras a clubes cujos jogadores sofram lesões graves.

A Fifa, no entanto, vem se esforçando para apagar a imagem de caixa-preta. Em 2004, criou seu primeiro código interno de ética – até então, não havia um regimento formal que condenasse atitudes como as de Havelange e Teixeira. Em julho de 2012, a Fifa criou um comitê interno de investigação. Dessa vez, para escarafunchar outro escândalo: as denúncias de que alguns delegados seus teriam recebido suborno para votar na Rússia e no Catar como sedes das Copas de 2018 e 2022, respectivamente. Aparentemente, a Fifa está levando a iniciativa a sério. O chefe do comitê é ninguém menos do que o advogado Michael Garcia, um ex-peso-pesado do FBI, admirado por Barack Obama. Na Fifa, Garcia está sendo assessorado por um ex-funcionário do FBI e outro da CIA. Pois é: às vezes é preciso mudar tudo para que nada mude – e a Fifa continue enchendo seus cofres na santa paz.

 – Há 12 Copas, desde 1970, a Adidas assina a bola do Mundial

 – 45 milhões é o quanto Havelange, Teixeira e Leoz teriam recebido de suborno

Eterno poder

 

Um dos frutos do sistema da Fifa são sujeitos como Zeca Xaud, um contador de 69 anos que comanda, desde os 30, a Federação Roraimense de Futebol. Seu campeonato estadual conta com seis times na primeira divisão e uma média de 50 torcedores por jogo. Ainda assim, Xaud recebe cerca de R$ 700 mil por ano da CBF para administrar o futebol local. Seu voto, é claro, tem tanto peso quanto o do presidente da Federação Paulista de Futebol. Imagine, agora, quantos Zecas Xauds existem no futebol africano, asiático, latino-americano…

Continua após a publicidade
Publicidade