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Para onde vai quem não tem para onde ir

Fomos até um campo de refugiados na Suazilândia, uma pequena monarquia africana, descobrir como é o dia a dia das 400 pessoas que fugiram de conflitos em seus países e foram viver lá

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h52 - Publicado em 13 jan 2014, 22h00

Marcela Bordin

No campo de refugiados de Malindza, no interior da Suazilândia, é comum encontrar pessoas usando trajes de festa durante o dia, homens com calças femininas e crianças vestindo fantasias. Não é carnaval. A estranha moda local nasceu de uma peculiaridade típica de um campo de refugiados. A maior parte dos acolhidos (nesse caso, pessoas que escaparam de confrontos em várias regiões da África) não tem documentação e, portanto, não pode trabalhar fora do campo e muito menos deixar o país. Então a minoria que pode vai até os países vizinhos, compra roupas de segunda mão e revende em Malindza. Aí volta e meia você dá de cara com menininhas de pés descalços, aparência suja e ranho escorrendo pelo nariz vestidas de princesa.

Praticamente ignorada pela imprensa, a Suazilândia só costuma virar notícia em função dos altos índices de contaminação pelo vírus da aids – metade das mulheres suazis convive com a doença – ou graças às excentricidades do rei Mswati III. Em 2001, por exemplo, o rei proibiu as jovens suazis de fazerem sexo pelos próximos cinco anos a fim de conter a propagação do HIV, e exigiu que as meninas usassem uma espécie de pendão representando sua castidade. O descumprimento da lei custava uma vaca a cada uma das partes envolvidas (o próprio rei depois acabou se casando com uma menina de 17 anos e, para não ficar chato, teve de pagar a vaca que lhe cabia).

As “peculiaridades” de Malindza
Os refugiados são castigados por condições sanitárias deficientes, pela ausência de educação e, acima de tudo, pelo pessimismo em relação ao futuro. “Eu não sei a que lugar eu pertenço, onde estão meus direitos como ser humano”, diz Mahamud Shukri, o refugiado somali de 30 anos que nos acompanhou em uma caminhada atrás de dois garotos negros e franzinos que iam buscar água em um açude a dois quilômetros do campo (só os prédios administrativos têm água corrente). Além de Shukri, estávamos eu, minha irmã, uma estudante brasileira de pós-graduação em Relações Internacionais, e um americano, membro de uma organização de voluntariado, que serviu como nosso guia durante a visita de uma semana ao campo.

Shukri deixou a Somália aos 8 anos de idade, fugindo do conflito entre grupos rebeldes e forças governamentais que começou em 1991 e dura até hoje. Seu pai, seu irmão mais velho e seus primos foram mortos ainda na Somália. Sua irmã morreu no caminho para a África do Sul. Sua mãe, com quem ele não fala há anos, está em outro campo, no Quênia. Fruto de uma trajetória errante e violenta, Modu, como é conhecido no campo, é poliglota (fala inglês, swahili e siswati fluentemente), faz as vezes de tradutor para os estrangeiros que passam pelo campo e não tem ideia do que esperar do amanhã: “O tempo passa. Eu preciso de uma família, preciso de um trabalho, preciso de uma vida melhor”.

Na caminhada, os tons amarelados e acinzentados dos prédios e o colorido do lixo que se acumula a céu aberto compõem a paisagem árida. O campo de Malindza foi criado no final dos anos 70 pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). No auge, foram abrigadas cerca de 8 mil pessoas. Mas com o estabelecimento da paz em Moçambique e o fim do Apartheid na África do Sul, o número de refugiados foi diminuindo gradualmente, e em 2005 até a ONU se afastou. Hoje, o campo abriga 200 adultos e 200 crianças, e é administrado pelo próprio governo da Suazilândia.

Campos de refugiados são construídos para acolher populações móveis, que são obrigadas a deixar suas casas em função de conflitos ou desastres naturais. O porta-voz do Acnur no Brasil, Luiz Fernando Godinho, explica que existe um padrão para a construção de campos de refugiados, mas diz que “cada campo tem sua peculiaridade”. Entre as diretrizes, há especificações sobre as dimensões mínimas do campo (cada refugiado deve ter, pelo menos, 30 m² de área), sobre as condições sanitárias e sobre o acesso a água, alimentação e educação.

Embora seja obviamente difícil comparar campos de refugiados, Malindza parece mesmo estar devendo. Em primeiro lugar, há o problema da falta de água. Além disso, o campo é teoricamente uma forma de apoio, um facilitador, e portanto deve fornecer recursos para educação (especialmente em um país onde o ensino é pago) e para a capacitação de adultos e crianças. Mas não oferece. Em Malindza, as crianças não vão à escola, e o comércio fica restrito à venda de roupas usadas, de refeições e de frutas e vegetais. O problema é que a produção desses alimentos depende da agricultura, uma prática que não faz parte da cultura de todas as etnias.

1968
A Suazilândia foi colônia da Grã-Bretanha até 1968, quando passou a ser governada pelo rei Sobhuza II.

1973
O rei dissolveu o parlamento e colocou todos os partidos na ilegalidade.

1986
Esse mesmo rei casou pelo menos 70 vezes e teve 210 filhos (o que significa que ele era pai de 0,02% da população na época). Quando ele morreu, quem assumiu o trono foi o 68º filho, Mswati III. Ele governa junto com a mãe, que recebeu o título de “Grande Elefanta”.

2005
Depois de muita negociação, Mswati III foi obrigado a assinar uma nova Constituição. Mesmo assim, ele continua podendo escolher o primeiro-ministro e todos os ocupantes de cargos importantes.

Hoje
69% dos 1.128.362 habitantes estão abaixo da linha da pobreza. Enquanto isso, o rei construiu um estádio de 15 mil lugares para comemorar o próprio aniversário e encomendou uma porção de BMWs para receber os amigos.

Dois caminhos
Restam poucas alternativas para refugiados como o somali Adam Abdulahi Daar, 34 anos, que vem de uma cultura mercante, não possui nenhuma experiência agrária, e que, apesar de estar no campo há dois anos, ainda não recebeu os documentos que o liberam para viajar. Questionado sobre suas habilidades e qual profissão poderia exercer, respondeu “nenhuma”. Adam é tímido, não fala quase nada de inglês e apresenta nos braços as marcas da xenofobia sul-africana: cortes e queimaduras, frutos de ataques motivados pelo ódio contra estrangeiros. Mesmo assim, ele gentilmente cedeu seu quarto para que pudéssemos almoçar. Nas paredes, Adam mostrou orgulhoso a decoração composta por cartazes escritos por voluntários, com informações a respeito dos mais diversos assuntos, desde dicas sobre como se prevenir do vírus da aids a regras de gramática em inglês.

Outro jovem que cresceu em Malindza, William Hatungimana, de 23 anos, foi a exceção da regra e conseguiu driblar a aparente falta de oportunidades. William tinha 4 anos quando, em 1994, caiu o avião do presidente de Ruanda, Juvénal Habyarimana, e teve início o genocídio no país ¿ foram mortas em torno de 800 mil pessoas. “Você está se divertindo durante o feriado e, no outro dia, acorda e tem pessoas mortas em todo lugar. Tem pessoas literalmente massacrando outras pessoas”, conta.

William e sua família passaram pelo Congo, Tanzânia e Malawi antes de chegarem à Suazilândia, onde finalmente se estabeleceram. O trajeto até lá, como o da maioria dos refugiados, não foi fácil. “Em todo lugar (de Ruanda) havia barricadas e eles checavam se as pessoas eram tutsi ou hutu (as etnias rivais). O que eles identificavam eram alguns traços físicos aleatórios, como o nariz e a altura. Talvez nós não tivéssemos esses traços que eles estavam procurando, então nós passamos. Mas quando chegávamos em cada barricada, tinha alguém sendo morto ali. Assassinados com machados, tiros. E os que levavam tiros eram sortudos, porque era rápido e não era doloroso”.

Como refugiado do campo de Malindza, quando ele ainda era administrado pelo Acnur e oferecia melhores condições, William recebeu educação elementar, média e secundária (primeiro paga integralmente, depois, parcialmente), bem como materiais e uniformes escolares. Graças ao seu bom desempenho, ganhou bolsa para uma das faculdades mais conceituadas na Suazilândia. Hoje, ele mora nos Estados Unidos e faz uma dupla habilitação em Relações Internacionais e Economia pela Luther College, em Iowa. William volta regularmente ao campo porque seus pais continuam lá. No futuro, ele tem planos de trabalhar em uma organização não-governamental e ajudar pessoas necessitadas.

Os dois garotos com quem fomos buscar água podem se resignar como o tímido Adam Abdulahi Daar. Ou podem fazer a própria trajetória, como William Hatungimana, prova viva de que há saída para quem tem força de vontade e alguma sorte de receber o apoio certeiro. O que faz a África tão inexplicavelmente incrível é isso: como em Malindza, alguns perdem as esperanças, enquanto outros, apesar das circunstâncias, não desistem de tentar.

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REFUGIADOS PELO MUNDO

4,2 milhões de pessoas viviam força-damente fora de casa em 2012, a maioria deslocada por conflitos.

Em média, 23 mil pessoas por dia foram obrigadas a deixar suas casas só em 2012.

10,5 milhões são refugiados.

3,5 milhões deles viviam em campos.

5,25 milhões em cidades.

1,75 milhão em zonas rurais.

80% dos refugiados estão em países subdesenvolvidos (os outros 20%, portanto, estão em países desenvolvidos).

46% dos refugiados têm menos de 18 anos.

48% dos refugiados são mulheres.

O Paquistão é o país que abriga o maior número de refugiados: são 1,9 milhão, ou 710 refugiados para cada US$ 1 da renda per capita do país.

Fonte: Alto Comissariado da ONU para os Refugiados

 

 

 

 

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