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Parque Nacional de Arches, nos Eua, o jardim das esculturas em pedras

Maior concentração de arcos de pedra do mundo, o Parque Nacional Arches, nos Estados Unidos, exibe formas talhadas nas rochas pela ação das forças da natureza, como a chuva e o vento.

Thomaz Brandolin

A 8 quilômetros de Moab, uma cidadezinha do Meio-Oeste americano, fica Park Avenue. Da avenida de Nova York, porém, ali só há lembrança. No meio do deserto de Utah, onde a água é rara, a vegetação quase inexistente e o calor sufocante, Park Avenue impõe-se como edifícios de metrópole, imensos muros esculpidos em pedra pela ação da água e do tempo. Esse monumento natural marca a entrada do Parque Nacional

Arches, a maior concentração de arcos de pedra do mundo, fincado na porção nordeste do Platô do Colorado, nos Estados Unidos. Esse platô é uma imensa região desértica, onde as rochas foram escavadas ao longo do tempo em infinitas variedades. Lá estão hoje mais de vinte parques e monumentos nacionais, entre eles o Grand Canyon. Ocupando a área de 296 000 quilômetros quadrados, pequena para os padrões locais, o Parque Arches diferencia-se dos outros pelas formas espetaculares de suas for-mações, que o fazem parecer um jardim de pedras. Seco e extremamente quente no verão, quando a temperatura pode chegar a mais de 50°C, o Arches não é o tipo de parque acolhedor, onde se passam dias agradáveis ao ar livre. Não há hotéis; o único local para acampamento não tem árvores e por todo o parque a água é escassa — cada visitante precisa levar a sua. O calor insuportável do verão contrasta com o inverno gelado, os termômetros acusando temperaturas bem abaixo de zero. Embora inóspito, é um paraíso para quem gosta de cenários dramáticos esculpidos com delicadeza e paciência pelas forças da natureza — chuva, frio, calor, neve, vento e, por estranho que pareça, sal. Sal sedimentado há milhões de anos, remanescente de um antigo mar, que por caminhos tortos provocou a exposição de uma enorme camada de arenito na qual a água moldou os arcos.

O Arches é resultado de uma rara combinação de antigos e contemporâneos eventos geológicos. Embora sua origem tenha mais de 300 milhões de anos, o atual cenário vem sendo desenhado há menos de 2 milhões, quando começou a sofrer erosão. Essa história teve início há centenas de milhões de anos, quando a região que agora inclui o Arches era parte da Bacia Paradoxo, uma depressão coberta por um mar, que recebia grande quantidade de sedimentos das áreas circunvizinhas. Com o passar do tempo, o clima quente e seco evaporou a água e deixou uma espessa camada de depósitos de sal, argila, calcário e outros materiais.

A esse tempo, as terras a nordeste da bacia, chamadas de Uncompahgre Highland, começaram a se elevar, causando rachaduras nas partes mais profundas da bacia. Essas terras mais elevadas, erodidas, lançaram uma camada de mais de 1 500 metros de entulho rochoso sobre a região norte da Bacia Paradoxo. Conforme esses sedimentos se acumularam sobre a camada de sal, seu peso forçou o sal a migrar em direção ao sudoeste, onde havia menos sedimentos. Uma camada de sal com quase 2 quilômetros de espessura move-se como uma geleira. No caso da Bacia Paradoxo, esse processo levou 150 milhões de anos.

Deslocando-se para sudoeste, falhas preexistentes na bacia fizeram com que o sal fosse comprimido em forma de domo e penetrasse nas camadas mais finas de rocha, formando paredes verticais e pararelas. Essa elevação às vezes chegava a perfurar a rocha. Formou-se, então, um círculo vicioso: quanto mais a camada superior de sedimento aumentava de espessura e peso, mais pressionava a camada inferior de sal para cima; os sedimentos afundavam, abrindo espaço para que mais materiais erodidos da Uncompahgre Highland se depositassem. Ao todo, mais de 200 milhões de anos de depósitos sedimentares aparecem no parque. Esse lento e constante processo de elevação da camada de sal foi decisivo para a formação do cenário atual do parque, pois afetou toda a geologia da região.

Entre 60 e 10 milhões de anos atrás, uma série de movimentos regionais da crosta terrestre distorceu o Platô do Colorado. Na área do Arches, esses movimentos intensificaram o abaulamento das camadas de rocha provocado pela movimentação do sal, e mais tarde criaram fissuras nos flancos dessas dobras numa série de juntas, ou fraturas paralelas na rocha quebradiça. Depois, quando a erosão começou a desgastar as camadas superiores, água subterrânea começou a dissolver o sal. Sem esse suporte, as rochas começaram a desmoronar, formando dois vales — do Sal e Cache — com paredes inclinadas e fraturadas.

Durante os últimos 10 milhões de anos, a erosão removeu do Platô do Colorado uma camada de quase 2 quilômetros de rocha. Olhando-se o cenário atual do Arches, é difícil acreditar que um dia ela tenha estado lá. Rios e riachos carregaram milhares de metros cúbicos de detritos para o que viria a se tornar o Rio Colorado, e esse processo ocorre até hoje.

Desgastando as rochas mais recentes, a erosão fez aflorar uma camada mais antiga, formada há 140 milhões de anos, conhecida por Sand-stone Entrada (sandstone significa arenito). Ela é dividida em três partes: a inferior é a Ponte Dewey, composta de arenito argiloso, pouco resistente à erosão. A do meio é a Slick Rock, um arenito de grãos finos, mais resistente à erosão, que forma os paredões e as torres de pedra. A superior é a Moab, também de arenito homogêneo. Essas três camadas formam a matéria-prima a partir da qual os arcos são escavados. A diferença de resistência à erosão entre elas provoca formações como os gnomos do Garden of Eden (Jardim do Éden), em que a camada inferior se desgasta mais rápido que a superior. Uma das maiores atrações do parque, a Balanced Rock (rocha equilibrada), é um perfeito exemplo disso. Fatalmente chegará o dia em que o pedestal estará tão fino que não suportará mais o peso da ro-cha sobre ele, e desabará.

O processo de fraturamento da Sand-stone Entrada durante o colapso dos Vales do Sal e Vale Cache resultou em centenas de fraturas paralelas nas rochas que agora bordejam esses vales. Quando a erosão das camadas superiores expôs a Entrada, essas juntas se desgastaram, se alargaram e deixaram apenas algumas torres bem estreitas de pedra, chamadas barbatanas. A seqüência de eventos que levou ao surgimento dos arcos estava começando.

Praticamente todos os arcos do parque se formaram a partir da Sandstone Entrada, rocha composta de inumeráveis grãos de areia de quartzo agrupados por um cimento natural de carbonato de cálcio. A água — vinda da chuva, do subsolo ou da neve derretida —, ligeiramente ácida, dissolve esse cimento, fazendo com que os grãos de areia se soltem. Como o cimento de carbonato está distribuído pela rocha de maneira não uniforme, algumas partes das barbatanas da Sandstone Entrada sofrem erosão mais rápida que outras, tornando-se mais estreitas em alguns pontos. A água penetra nas rachaduras e atrás das lascas (espécie de escamas de pedra), congela no inverno, se dilata e arranca essas lascas, provocando o afilamento cada vez maior das paredes. Chuvas de verão também levam as “sobras” de rochas. Conforme as lascas de pedra vão sendo arrancadas, outras vão se formando. Esse processo acontece até que surge o primeiro furo na parede, dando início ao arco.

Os arcos têm um ciclo de vida. Depois de começar como um pequeno furo na parede, a abertura vai aumentando de tamanho pela ação das intempéries — vento, chuva etc. — e da queda das rochas. Em alguns casos, como no Arco Landscape, considerado o maior do mundo, o processo de alargamento continua. Rochas caem do teto da abertura fazendo com que o arco se estreite e se alongue. Diz o livro America’s Wonderlands, editado pela National Geographic Society, que esse arco não deveria existir, pois é demasiado longo e plano (87 metros de comprimento). Uma de suas extremidades tem apenas 1,80 metro de espessura, enquanto no centro há uma corcova com 6 metros de largura, que pesa milhares de toneladas.

Alguns arcos, como o Duplo, se abrem num contato (quando dois tipos de rocha aparecem juntos) entre as camadas Slick Rock e Ponte Dewey. Enquanto na primeira camada o desgaste ocorre a partir do teto, no segundo a erosão ocorre mais rápida no chão, alargando-o a partir de baixo.

Provavelmente, os arcos que vemos hoje se formaram nos últimos 2 milhões de anos. Como a água é a principal força escultora, acredita-se que o processo tenha se acelerado durante os períodos glaciais úmidos dos últimos 100 000 anos. Embora o processo de erosão seja lento e gradual, às vezes ocorrem alterações bruscas. O Arco Skyline chamava-se Arch-in-the-Making até 1940, quando, numa noite sem testemunhas, um enorme bloco de pedra que estava encravado caiu, dobrando o tamanho do arco.

Com o tempo, as forças que construíram os arcos vão destruí-los. Alguns, devido à instabilidade do chão ou da parede, mais rapidamente que outros. Esses diferentes estágios de desenvolvimento são visíveis no Arches. Embora ele pareça imutável, o visitante mais atento, cada vez que retornar, poderá ver a gradual metamorfose por que passa aquele cenário.

Para saber mais:

No calor das águas de Yellowstone

(SUPER número 11, ano 7)

É natal. Feliz Páscoa

(SUPER número 12, ano 8)

Lençóis de areia

(SUPER número 10, ano 10)