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Pôquer a sós

Luiz Dal Monte Neto

Nas edições especiais de Superjogos foram publicados alguns problemas de pôquer cruzado que agradaram aos leitores. Tais problemas – cedidos por Jaime Poniachik, matemático argentino apaixonado pelos quebra-cabeças – consistem em 25 cartas de baralho dispostas em cinco colunas de cinco carta cada uma. Algumas figuram com a face para cima, mas a maioria fica virada para baixo. Em cada coluna, fileira e diagonal informam-se quais as combinações de pôquer formadas pelas cartas. O desafio é deduzir as cartas ocultas e suas posições.

Há um tipo de paciência para baralho que tem tudo para agradar aos fãs do pôquer cruzado e despertar a curiosidade daqueles que ainda não o conhecem: é o pôquer – paciência. Paciência, para quem não sabe, é um jogo para um único competidor, que pode empregar diversos componentes, sendo o baralho o mais comum. Na maioria das paciências, o jogador atua mecanicamente, ou quase, ficando à mercê da distribuição aleatória das cartas. Em algumas, como é o caso da que veremos a seguir, há boa margem de manobra para a pessoa usar a sorte a seu favor.

No pôquer-paciência utiliza-se um baralho inteiro, sem os curingas, embora só 25 cartas sejam usadas efetivamente. Antes de explicarmos as regras, convém dizer quais são as combinações possíveis de se fazerem no pôquer; assim, poderá ser compreendido por aqueles que jamais o jogaram. Todas as combinações contêm cinco cartas e são tão mais valiosas quanto mais difíceis de ocorrer. Assim temos: um par – duas cartas de mesmo valor e três quaisquer; dois pares – duas duplas de cartas de mesmo valor e uma outra qualquer; trinca – três cartas de mesmo valor e duas outras quaisquer; seguida – cinco cartas em seqüência, independentemente dos naipes (o valete (J) vale onze; a dama (Q), doze; e o rei (R ou K), treze; e o às, um ou catorze, dependendo do caso; full – três cartas de um valor e duas de outro; flush –
Quaisquer cinco cartas de mesmo naipe; quadra – quatro cartas do mesmo valor e uma diferente; straight flush – cinco cartas do mesmo naipe, formando uma sequência; royal straight flush- um straight flush de até 10 às.

As cartas devem ser embaralhadas e o maço deve ser posto, com a face para baixo, bem diante do jogador. Este, então, vira a primeira carta e a coloca sobre a mesa. Daí para a frente, ele virará um carta por vez e a colocará numa posição a sua escolha, desde que fique encostada em qualquer outra carta já jogada, seja lado alado, seja vértice a vértice. O jogador tem de ter em mente que, após colocar a 25.ª carta, deverá ter formado um quadrado com cinco fileiras por cinco colunas. Uma vez arrumadas na mesa, as cartas não podem mais ser movimentadas.

O objetivo é formar fileiras e colunas o mais valiosas possível, conforme a tabela adiante. Por essa razão é preciso ficar muito atento às combinações que vão se formando nas linhas, enquanto se avalia e reavalia continuamente a chance de se conseguir completá-las até o final.

A versão inglesa nos parece mais adequada, pois leva em conta as probabilidades de ocorrência das combinações na paciência e não no jogo de pôquer propriamente dito, como faz a americana. Depois de colocar a 25.ª carta, o jogador afasta o resto do maço, que não tem mais utilidade, e faz as contas. Ele poderá se considerar vencedor se, após somar os pontos de todas as fileiras e colunas (diagonais, não), tiver atingido 200 pontos na tabela americana, ou 75 na inglesa. Não é fácil.

Paradoxalmente, o pôquer-paciência pode ser praticado por qualquer número de jogadores. Basta que cada um tenha um baralho ou, pelo menos, que um jogador tenha um baralho, e os demais, papéis quadriculados e canetas.

Quem tem o baralho vai virando as cartas e dizendo-as em voz alta, enquanto cada um vai formando seu quadrado, ou na mesa, ou no papel, sem olhar os dos outros. Assim, todos jogam com as mesmas cartas e, portanto, com as mesmas chances. Encerrado o jogo, comparam-se os resultados e o maior total vence. Essa variante grupal esteve em moda antes da Primeira Guerra, quando chegou a ser comum a promoção de torneios entre clubes.

Luiz Dal Monte Neto é arquiteto e designer de jogos e brinquedos