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Recordistas: Por um momento de glória

Sir Hugh Beaver, diretor da cervejaria irlandesa Guinness e criador do Livro Guinness dos Recordes Mundiais, sabia que sua dúvida sobre qual o pássaro mais rápido da Europa, naquele ano de 1954, era muito parecida com o tipo de dúvida de outros milhões de ingleses e irlandeses, que adoram levar esse tipo de assunto entre um gole e outro de cerveja em qualquer dos 81400 pubs que povoam as cidades da Inglaterra e Irlanda. Só que não existia nenhum livro com as necessárias fontes que pudesse funcionar como juiz imparcial para um público tradicionalmente tão chegado a apostas.

Daí nasceu no dia 27 de agosto de 1955 o Guinness Book of World Records. Então já se sabia qual o pássaro mais rápido, o edifício mais alto do mundo e a partida de futebol de primeira divisão mais longa da história. Mas, ao lado dos variados superlativos do mundo animal, vegetal, científico e esportivo, foram aparecendo os recordes mais insólitos, extravagantes e disparatados alcançados pelo homem – por aqueles homens que até se dispunham a arriscar a vida para realizar proezas tidas como pura e simples maluquices pelo comum dos mortais.

Assim, se soube que um certo monsieur Lotito, um francês de Evry, tinha sido capaz de comer sua própria bicicleta, pedaço por pedaço; que o californiano Steve Urner era o melhor lançador de esterco de vaca; que o nova-iorquino Henry-Lamothe pulara de 12,9 metros de altura numa piscina quase sem água, sem se machucar. Já o inglês Michael Trevor, com menos sorte, morreu de infarto ao tentar bater o recorde de ingestão de cerveja-debaixo d’água. O mineiro Walnei Almeida Reis, de seu lado. tem certeza de que vai entrar para o Guinness, depois de ter saltado em junho último de um helicóptero a 48 metros de altura para a piscina do Clube de Regatas Tietê, em São Paulo. “De cima, a piscina parecia um copo de água”, compara Walnei, que com o seu salto superou em onze metros o norte-americano Hank Dikson, dono do recorde durante de oito anos.

Esses heróis excêntricos que aspiram conseguir recordes insólitos são mais numerosos do que se poderia imaginar e existem praticamente em toda a parte. Tentam escalar altos edifícios, deixam crescer barbas de abelhas em seus corpos e comem quantidades inacreditáveis de grãos de feijão, ou de sorvete, ou de salsicha, ou seja lá do que for. Desafiam a lei da gravidade, o senso comum e o próprio ridículo. Que tipo de gente faz isso? Com que intenção?

A moda da extravagância – que aparece de tempos em tempos no curso da História-não tem nada a ver nem com fenômenos de histeria coletiva nem com condutas originais de fundo religioso ou político.

É na realidade o aparecimento em público de um surpreendente número de adultos normais que realizam atos extravagantes, concebidos por eles mesmos, com o objetivo único de fazer algo que não tenha sido feito por outras pessoas.

Hoje em dia até que está difícil ser extravagante, porque a extravagância já virou rotina. Para se ter uma idéia de como o incomum ficou comum, no principio do século o crítico teatral alemão Alfred Kerr causou grande sensação em Berlim pelo simples fato de descascar uma maçã na rua usando luvas brancas. Em 1986, ninguém se espantou quando mais de vinte pessoas, desconhecidas entre si, trataram de capturar uma serpente píton de 3,4 metros, que apareceu misteriosamente em uma piscina pública de Los Angeles.

O próprio Livro Guinness, pela excepcional acolhida que teve, é o reflexo de que o mundo atravessa uma onda de extravagâncias algo parecido com o que aconteceu no período que vai de 50 antes de Cristo ao ano 400 de nossa era, abrangendo mais ou menos a época dos imperadores romanos. Outro desses períodos em que a extravagância remou suprema vai de 1400 a 1600, ou seja. do acender das luzes do Renascimento à Revolução Comercial. Ambas as épocas deixaram registro de comportamentos exóticos.

Na velha Roma, o cônsul Lucius Licinius Lucullus (117-56 a.C.), homem por sinal muito respeitado foi quem inventou o bárbaro costume de vomitar nos banquetes para repetir a comilança nos intermináveis festins da época. No ano 64, o imperador Nero cantava enquanto Roma queimava, em vez de providenciar o salvamento da cidade. Ele talvez não fosse louco, ao contrário da lenda; apenas não estava à altura do papel que a população esperava que cumprisse, exercendo suas funções como um semideus. Dos césares sempre se esperava algo mais – e, se eles não se distinguiam por suas qualidades naturais, tratavam de brilhar pelo artifício de suas excentricidades.

No fim da Idade Média. os bufões, que existiram em todas as cortes desde a Antiguidade como palhaços grotescos, assumem um novo papel, transformando-se em personagens de notável talento e influência. Participam de conspirações e crimes, fazem intrigas e são confidentes muito estimados de reis e cortesãos. As grandes famílias italianas, como os Medici, de Florença, e os Visconti, de Milão, assim como o rei Henrique IV da França ( 1553-1610) e o imperador Maximiliano da Áustria (1459-1519), tinham os seus bufões, respeitados por aristocratas e intelectuais de seu tempo.

Entre os personagens incomuns que floresceram nessa época, talvez o mais representativo tenha sido o físico e alquimista suiço Bombastus, mais conhecido como Paracelso (1493-1551). Um dos mais extraordinários e escandalosos homens do Renascimento, combateu as superstições, a medicina então praticada e a educação tradicional. Apesar da vida tumultuada, tanto nas universidades como nos campos de batalha, impulsionou a química farmacêutica, formulou os princípios da homeopatia e arrastou consigo a fama de curandeiro. “A imaginação pode tudo”, dizia. O comportamento excêntrico do alquimista correspondia aos sentimentos de seus contemporâneos. Historiadores desse período registram que a extravagância havia adquirido proporções de epidemia.

Que semelhança existe entre a Roma do começo do cristianismo e a Europa do fim da Idade Média? Em ambos os períodos, uma cultura havia alcançado o limite de seu desenvolvimento: tanto o Império Romano como a Idade Média sobreviveram além de seus impulsos criadores, mantendo-se por pura inércia. Enquanto isso, para grandes setores da população não havia objetivos dignos de esforço —além da luta pelo pão de cada dia. Os habitantes da antiga Roma consideravam aceitáveis as ações de um Nero. ao mesmo tempo que se lixavam com a sorte do Império. Já a reação ante o ocaso dos tempos medievais foi bem diferente: suas raízes foram reinvestigadas e as bases redesco-

bertas; levantou-se um novo edifício cultural enriquecido com elementos árabes, medievais e próprios.

E a onda atual? Não é nova a teoria de que este fim de século é um período decadente, onde há cada vez menos lugar para a criatividade-o que explicaria em parte a busca do insólito a todo custo. Talvez fosse mais correto dizer que a criatividade existe, mas está restrita a uma minoria e escapa ao cidadão médio. Este, imerso em um oceano de rotina, gasta seu tempo livre de forma quase sempre mais passiva que ativa. assistindo à TV horas a fio, por exemplo. Outras pessoas reagem e buscam a criatividade na política ecologia nas artes e até nos hobbies. E há quem procure combater a inércia estabelecendo os estranhos recordes anotados no Guinness

“A verdade é que temos nossos próprios Guinness íntimos, simbolizados pela nossa vaidade”, observa o psicólogo paulista Mauro Moore Madureira. “Por isso, acabamos batendo recordes bizarros, como o de ser o mais estressado no trabalho. 0 melhor copo do pedaço, a mais abnegada das pessoas, exemplifica, “Nossa cultura é extremamente vaidosa e todos sonham com um podium na vida”, diz o psicólogo. Para ele, existem duas formas diferentes de chegar aos recordes: uma é pelo prazer, pela vontade alegre de conquistar e vencer obstáculos Outra é pelo dever, pela necessidade de ser aceito. “A primeira enriquece a pessoa emocionalmente. A segunda costuma ser a origem de muitas angústias, por causa do medo do fracasso.”

Mas não é um fracasso aqui e outro ali que vão desanimar a legião de fanáticos caçadores de recordes do Guinness ou derrubar o volume de vendas de um livro que nessas três últimas décadas acabou gerando concursos como o de saber quantas pessoas cabem dentro de um automóvel. Essa disputa já não é mais registrada pelo livro. Mas, para quem se interessa, continuam a ser disputadas as categorias quem-corre-mais-carregando uma-garrafa-na-bandeja, andar-sobreas-mãos, ser-o-homem-mais-rico-do-mundo, o grupo-de-rock-mais-barulhento. Ou qualquer coisa nova, desde que comprovadamente bizarra e merecedora da atenção do Guinness e de seus leitores.

Para saber mais:

A hora das estrelas

(SUPER número 3, ano 3)