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Rejuvenescimento: a polêmica do chip com hormônio

As terapias hormonais prometem menos peso, mais energia, pele macia. Conheça melhor essa técnica, popular nos EUA, mas proibida no Brasil.

Para acabar com a acne, a modelo Raica de Oliveira, ex-namorada de Ronaldo, implantou um chip de progesterona aos 19 anos. É um aparelho de silicone do tamanho de um palito de fósforo, introduzido sob a pele no braço ou na nádega para jogar hormônios na corrente sanguínea. Ela disse que seu rosto ficou como o de um bebê. A modelo Talytha Pugliesi aplicou, aos 30, o mesmo tipo de implante. Contou que as medidas do quadril passaram de 91 cm para 88 cm, deu tchau para a celulite e ainda ganhou músculos. A tática é comum entre as jovens modelos. E cada vez mais adultos surfam nessa onda na tentativa de rejuvenescer.

Nos últimos anos, a terapia hormonal antienvelhecimento vem se popularizando cada vez mais nos Estados Unidos e, ultimamente, no Brasil. Chips debaixo da pele, pílulas, géis e injeções que se apresentam como a bala de prata para manter o corpo jovem. Funciona assim: hormônios são substâncias que ordenam reações metabólicas no organismo. A maioria é produzida nas glândulas endócrinas, mas muitos também nascem em outras partes do corpo, como testículos, ovários ou até mesmo no tecido gorduroso. Em conjunto, eles são maestros que regem o trabalho do corpo e são responsáveis por inúmeras reações, desde a definição do nosso sexo até a sensação de barriga cheia após o prato de lasanha de domingo.

Mas, ao envelhecer, você diminui a produção de vários hormônios, como se os maestros prestes a se aposentar estivessem com braços cansados demais para reger a orquestra. A terapia anti-aging (nome inglês para a terapia hormonal antienvelhecimento) parte do pressuposto de que é saudável repor essas substâncias para combater os efeitos do relógio.

Na verdade, aplicar hormônios no corpo não é exatamente uma novidade. A técnica é recomendada há várias décadas nos casos em que eles estão em déficit no organismo por causa de algum problema. É o caso de diabéticos, que usam insulina (um hormônio) sintética para limitar a quantidade de glicemia no sangue, ou de pessoas com ananismo, que repõem o hormônio do crescimento (o GH) em falta. Isso tem um nome: terapia hormonal.

O tratamento também pode ser usado, com muito cuidado, quando há uma deficiência esperada da produção de hormônios. Todo mundo sabe, por exemplo, que mulheres na menopausa reduzem a fabricação de estrógeno e de progesterona. Em casos graves, nos quais a paciente sofre muito com calorões, ressecamento vaginal, insônia e alterações no humor, a reposição é uma alternativa para combater esses efeitos. “Quando fazemos a terapia hormonal, tratamos os sintomas de uma fase da vida que pode ser incômoda e que para algumas pessoas chega a ser incapacitante”, explica o médico Fernando Reis, responsável pelo ambulatório de endocrinologia ginecológica do Hospital de Clínicas da UFMG.

Mas a terapia hormonal pode contribuir para o surgimento de diversas doenças, como câncer de mama e de endométrio, infarto, derrame cerebral, entre outros efeitos colaterais nada agradáveis. Um estudo famoso lançado em 1991 chamado Women¿s Health Initiative observou os efeitos da reposição hormonal em 161.608 mulheres de 50 a 79 anos. Metade tomou estrógeno e progesterona. A outra metade, placebo. Cinco anos e meio antes do previsto, por motivos éticos, a pesquisa foi encerrada. Na população que fazia uso da terapia hormonal, aumentaram em 29% os riscos de ataques cardíacos, 41% de derrames cerebrais, 113% de embolia pulmonar, 26% de câncer de mama e 50% de demência nas mulheres com mais de 65 anos. Houve, no entanto, benefícios: o risco de fraturas nos ossos caiu em 34% e de câncer de cólon em 37%.

A terapia hormonal antienvelhecimento, porém, segue outra lógica. Nela, a pessoa toma doses manipuladas de hormônios artificiais mesmo que eles não estejam em falta no organismo ou mesmo quando sua redução é normal, com o objetivo de turbinar o organismo – um tipo de doping estético. Isto é, usá-los enquanto você é jovem e a produção está ótima ou quando você já envelheceu, mas a redução deles está dentro dos padrões. Os mais usados nas terapias estéticas são a testosterona, o GH, o estradiol, o DHEA, a progesterona, o estrógeno e a melatonina. Esse grupinho é responsável por estimular a multiplicação de células, o que ajuda na regeneração da pele e outros órgãos, e demais efeitos no corpo que associamos ao rejuvenescimento, como ter mais disposição ou mais músculos (confira no box abaixo).

Na prática, a ideia é que, se a melatonina fortalece o sistema imunológico, por que não usá-la no dia a dia para ficarmos mais protegidos contra doenças ou para fortalecer os velhinhos? Seguindo a mesma lógica, GH é fundamental na infância ao estimular a divisão celular e favorecer o crescimento dos ossos. Se idosos têm maior tendência a desenvolver osteoporose, que tal dar o hormônio para eles?

Para isso, são usados hormônios produzidos em laboratório, mas com exatamente a mesma estrutura molecular dos que são fabricados no nosso corpo. São chamados de bioidênticos, hormônios sintetizados na natureza, oriundos de plantas ou até de xixi de éguas grávidas. Antes de iniciar o tratamento, o médico faz uma bateria de exames para verificar os níveis de todos os hormônios, se o paciente tem histórico de alguma doença ou algum tumor em desenvolvimento, realiza entrevistas clínicas para entender se ele enfrenta algum problema de saúde e acompanha de perto o indivíduo.

Um dos símbolos mundiais dessa prática é o médico norte-americano Jeffry Life. Aos 59 anos, “Dr. Life” era obeso, hipertenso e diabético. Fã de fast-food, não conseguia amarrar os cadarços sem perder o fôlego. Disposto a melhorar de vida, mudou radicalmente a alimentação e passou a fazer exercícios. No entanto, quando chegou aos 63 anos, nem a revolução de hábitos poupou o médico da redução de libido, da perda de massa muscular e do ganho de gordura típicos da terceira idade.

Para resolver a situação, ele começou a tomar testosterona e GH. Hoje, Dr. Life tem 77 anos, faz academia cinco vezes por semana, está quase na faixa preta de taekwondo e tem um abdômen de dar inveja. Com várias clínicas espalhadas pelos Estados Unidos, já atendeu mais de 30 mil pessoas e é autor de três livros sobre o assunto.

A maioria dos adeptos da medicina antienvelhecimento, incluindo Dr. Life, rejeita a ideia de que a terapia promove rejuvenescimento, uma vez que não há como retroceder o tempo. No lugar, preferem dizer que o tratamento proporciona um envelhecimento com mais qualidade de vida. Há quem defenda uma certa filosofia contra o “sistema”: usar hormônios para garantir um envelhecimento melhor seria mais saudável do que depender da indústria farmacêutica e tomar um remédio atrás do outro, cada qual com possíveis efeitos colaterais. Uma carta aberta do endocrinologista brasileiro Victor Sorrentino, adepto da medicina antienvelhecimento, circula na internet e defende que a prática “fura” a indústria farmacêutica, ao não depender de patentes e ao diminuir a demanda por medicamentos. Por causa dos resultados e de discursos como este, os hormônios se tornaram populares.

Os riscos

Mas a terapia está longe de ser unanimidade. A reposição hormonal utilizada em mulheres que chegam à menopausa vem sendo criticada e associada ao aparecimento de câncer, de doenças cardiovasculares e de trombose. Para muitos médicos, a reposição de estrógeno, progesterona e testosterona (mulheres também produzem o hormônio masculino, mas numa quantidade 30 vezes menor) nessa fase só deve ser usada em último caso.

Uma força-tarefa liderada pela Sociedade Europeia de Endocrinologia, por exemplo, emitiu conselhos rígidos para o consumo de hormônios. O grupo não recomenda o uso de testosterona em mulheres nos casos de infertilidade, disfunção sexual, cognitiva, cardiovascular, metabólica, dos ossos ou outros problemas de bem-estar – o hormônio masculino aumenta os músculos, reduz gordura e turbina a libido nas mulheres. Tudo porque não haveria bons estudos para provar a eficácia do hormônio nessas situações e para garantir a segurança de paciente no longo prazo. Isso sem contar que nenhum dos hormônios da terapia antienvelhecimento é feito especificamente para proporcionar efeitos rejuvenescedores. É uma prática off-label – isto é, usada para aplicações fora do aconselhado na bula.

Nos últimos anos, várias pesquisas começaram a questionar a eficácia da medicina anti-aging. O GH, por exemplo, pode causar uma sensação de mais ânimo e energia. Mas um estudo feito em 2000 na Universidade de Ohio e publicado no jornal da Endocrine Society investigou dois grupos de ratos: um era geneticamente modificado para produzir mais GH e o outro produzia normalmente a substância. O resultado foi que os bichinhos que fabricavam mais GH morreram bem mais cedo, em vez de viverem mais.

Os efeitos da melatonina também foram analisados e tiveram um resultado pouco animador. Um estudo do Instituto Petrov de Pesquisa Oncológica, de São Petersburgo, na Rússia, feito em 2003 e publicado na revista da Sociedade Americana de Gerontologia, forneceu esse hormônio a ratinhas ao longo de meses. Apesar de aumentar a expectativa de vida delas, a substância aumentou a incidência de tumores. Na conclusão, os pesquisadores não recomendaram a melatonina em terapias de longo prazo para humanos.

Evidentemente, há uma série de estudos que dão argumentos favoráveis para a terapia hormonal antienvelhecimento. Mas os críticos dizem que as pesquisas têm poucos voluntários e que são publicadas em revistas científicas de menor relevância. Um dos estudos feitos por Dr. Life, publicado em 1992 no Journal of Obesity and Related Metabolic Disorders, testou os efeitos da testosterona em homens obesos. De fato, quem tomou o hormônio diminuiu a gordura abdominal, os níveis de colesterol, a pressão arterial e o açúcar no sangue, em comparação a quem tomou placebo. Mas o teste foi realizado com apenas 23 voluntários, acompanhados por oito meses. “Estudos para aprovar a terapia antienvelhecimento precisam ser feitos com 500 mil pessoas”, defende a médica Eliane Maria Frades da Costa, supervisora da Endocrinologia do Hospital de Clínicas da USP.

Proibição no Brasil

Gradualmente, hormônio após hormônio começou a ser questionado. A história mudou aqui no Brasil em 2012, quando o Conselho Federal de Medicina emitiu uma resolução que proibiu essa terapia. Desde então, hormônios só podem ser receitados quando houver déficit comprovado da substância. O médico que for pego aplicando essa técnica para combater o envelhecimento pode ter o registro cassado. A resolução também proíbe as receitas de antioxidantes (vitaminas ou sais minerais) com o mesmo objetivo. “Não existe terapia hormonal contra o envelhecimento. Todos os estudos que tentaram demonstrar isso acabaram com aumento do risco de câncer de mama em mulheres e câncer de próstata em homens, além do aumento do risco de AVC”, argumenta Emílio Morguchi, geriatra que fez parte do grupo de trabalho que fez uma revisão de vários estudos sobre o assunto e que emitiu a resolução do conselho.

Nos Estados Unidos, meca da medicina anti-aging, cada Estado tem autonomia para liberar a prática. Existe, inclusive, uma organização especializada no assunto: a American Academy of Anti-Aging Medicine, que conta com aproximadamente 26 mil membros de mais de 120 países, incluindo brasileiros. No entanto, quase todos os Estados norte-americanos proíbem a técnica. Um estudo de 2014 da American Society for Parental and Enteral Nutrition, intitulado Anti-Aging Diet and Supplements: Fact or Fiction? (“Dieta e suplementos antienvelhecimento: fato ou ficção?”) concluiu: “Testes clínicos encontraram um risco maior de doenças cardiovasculares com a terapia por estrógeno e testosterona e um aumento do risco de câncer com a terapia hormonal em indivíduos outrora saudáveis”.

Precursor do implante hormonal no mundo todo (aquele com um chip, usado pelas modelos), o endocrinologista e farmacêutico brasileiro Elsimar Coutinho diz que desaprova o uso para efeitos antienvelhecimento. “Clínica de endocrinologia não é clínica de beleza. Hormônio só deve ser usado quando está em déficit”, afirma. Quando criada, a técnica tinha o objetivo de ser uma alternativa à pílula anticoncepcional. Depois, ela se popularizou e passou a ser usada também para combater o envelhecimento. Coutinho afirma que, quando usado pelos motivos certos, o chip deposita uma quantidade muito baixa de hormônio para causar algum prejuízo e que já publicou mais de 400 artigos sobre o assunto. “Em um ano, o chip larga no corpo o equivalente a apenas uma pílula anticoncepcional”, diz o médico, professor da Universidade Federal da Bahia. Apenas duas farmácias no Brasil fabricam os implantes – e ambas, afirma Coutinho, são fiscalizadas regularmente pela Anvisa.

Em Porto Alegre, o endocrinologista Antônio Carlos Minuzzi trabalha há mais de quatro décadas com hormônios. Ele tem uma clínica famosa, onde aplica a “mimetização hormonal”, uma técnica de fornecimento dessas substâncias no horário em que elas são naturalmente produzidas no organismo. Minuzzi afirma ser contra a terapia anti-aging e diz que ela pode desequilibrar nosso sistema. “Se eu der hormônio do crescimento, posso inibir a produção dele no organismo do paciente”, diz o médico. Com excesso de GH no organismo, a hipófise vai parar de produzi-lo para mantê-lo em níveis equilibrados.

As duas técnicas são liberadas no Brasil, desde que aplicadas apenas para fins de reposição hormonal. Ou seja, são proibidas se o objetivo for apenas rejuvenescer o paciente. O desejo de retorno do vigor jovem tem seus limites: não compensa o risco de sofrer com uma variedade de tumores.

 

Os principais hormônios das terapias antienvelhecimento

DHEA (dehidroepiandrosterona)

USADO PARA: há quem defenda que melhora a cognição, a libido, ajuda a emagrecer e diminui a perda óssea. É um pré-hormônio que o organismo converte em testosterona e, por causa disso, é usado na terapia antienvelhecimento para render os mesmos efeitos.

RISCOS: por outro lado, está relacionado ao aumento do risco de câncer de próstata.

 

Testosterona

USADO PARA: regula a libido, a potência sexual, o coração e favorece a produção de músculos e a queima de gordura tanto em homens como em mulheres.

RISCOS: usada de forma inadequada, pode desequilibrar os níveis de colesterol e masculinizar as mulheres – isto é, engrossar a voz, aumentar a quantidade de pelos e o tamanho do clitóris.

 

Progesterona

USADO PARA: hidratante para a pele (amenizaria as rugas), promove a libido, fortalece o coração, o raciocínio, a memória e os ossos. Ela prepara o útero para receber o óvulo fecundado, além de estimular o desenvolvimento das glândulas mamárias para a produção de leite. Compostos sintéticos parecidos com a progesterona inibem a ovulação e são usados como método contraceptivo.

RISCOS: pode causar depressão, dores de cabeça, retenção de fluidos, flacidez nos seios, disfunções renais e até aborto.

 

Hormônio do crescimento (GH)

USADO PARA: diminuir a produção de gordura, aumenta a massa muscular e promove o desenvolvimento dos ossos.

RISCOS: pode provocar diabetes, ganho de peso, estimular o crescimento de tumores e aumentar a largura dos ossos, em especial da mandíbula, dos pés e das mãos.

 

Estrógeno

USADO PARA: aliviar os sintomas associados à menopausa. Determina as características sexuais femininas e fortalece o coração, os ossos e tem efeitos benéficos sobre a pele – esses três últimos efeitos motivam seu uso na terapia anti-aging.

RISCOS: a longo prazo, está associado ao surgimento do câncer de mama e da trombose.

 

Estradiol

USADO PARA: produzir efeitos similares ao estrógeno, além de dar mais disposição. É o mais potente dos estrógenos produzidos pela mulher. Nos homens, é fabricado em menor quantidade.

RISCOS: além de poder trazer os efeitos negativos de qualquer estrógeno, o estradiol aumenta as chances de desenvolver fotossensibilidade.

 

Melatonina

USADO PARA: o hormônio do sono ajuda a ter noites de descanso mais tranquilas, o que reduz a presença de radicais livres que levam ao envelhecimento e doenças.

RISCOS: ligado ao surgimento de tumores e à piora de asma.

 

Cortisol

USADO PARA: combater inflamações e estabilizar a pressão arterial. Liberado em situações de stress, ele dá mais disposição.

RISCOS: o uso exagerado pode causar aumento do peso, hipertensão, diabetes e imunossupressão.