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Tablut, jogo típico da Lapônia

Russos e suecos às turras, em curiosa batalha no tabuleiro

Luiz Dal Monte Neto

Em 1732, Carl Lineu (1707-1778), o naturalista sueco, célebre pelo seu sistema de classificação das espécies animais e vegetais, fez uma viagem fantástica à Lapônia, no extremo norte da Suécia. Um feito e tanto: mais de 6 000 quilômetros percorridos com escassos recursos de transporte. Uma média de quase 40 quilômetros por dia, durante 153 dias, alimentando-se graças à hospitalidade de alguns camponeses. Toda a aventura foi registrada num diário recheado de desenhos e observações. Em meio a páginas e páginas com descrições da fauna e da flora, de doenças e tratamentos, folclore, receitas e hábitos locais, Lineu anotou as regras de um jogo típico da região.

O jogo chama-se Tablut e é inspirado nas batalhas medievais entre russos e suecos, que impressionaram profundamente os lapões. Trata-se de um jogo assimétrico, para dois jogadores, ou seja, os objetivos e mesmo as peças são diferentes para cada um. De um lado, o jogador sueco, com oito peças claras, semelhantes a peões de xadrez, só que com cabeças piramidais e uma maior que as outras, semelhante ao rei do mesmo jogo. As primeiras simbolizam os soldados suecos e a segunda, logicamente, seu monarca. Do outro lado, o jogador russo, com dezesseis peças escuras, também semelhantes a peões de xadrez, mas com duas cabeças.

Lineu recorda que o tabuleiro original era tradicionalmente confeccionado sobre pele de rena bordada, mas o leitor curioso por praticar o Tablut não terá dificuldade em improvisar algo mais prosaico, com cartão, régua e caneta. As peças podem ser botões ou fichas de cores diferentes. O ideal seria jogar com peças de xadrez, mas seriam necessários dois jogos para compor o “exército” russo de dezesseis soldados. A figura 1 mostra um tabuleiro estilizado com as peças já dispostas nas posições iniciais, marcadas com cores diferentes. Os peões russos (pretos) ocupam as casas em cinza-claro, no meio dos lados do tabuleiro. Os suecos (brancos), as casas em cinza-escuro. Bem no centro fica o rei sueco, diferenciado por um ponto preto. A casa por ele ocupada chama-se konakis – trono – e nenhuma outra peça pode entrar nela. As demais casas são acessíveis a qualquer peça.

Todas as peças, mesmo o rei, movimentam-se da mesma maneira: em linha reta, na horizontal ou vertical, quantas casas quiser, para a frente ou para trás (os enxadristas reconhecerão aí o movimento das torres, idêntico). A única limitação é a borda do tabuleiro ou a presença de alguma peça amiga ou inimiga, já que não é permitido pulá-las ou ocupada. Ao jogador sueco cabe iniciar a partida, que depois prosseguirá com um lance por vez, alternadamente. Para vencer, o jogador russo tem de capturar o rei sueco. Já para os suecos vencerem, é preciso que consigam levar seu rei para qualquer casa das bordas do tabuleiro. Em .ambos os casos não importa quantas peças próprias ou contrárias restam sobre o tabuleiro.

No Tablut as capturas são feitas pelo método da “custódia”, um tanto exótico: toma-se uma peça oponente, cercando-a por dois lados numa linha contínua (figura 2). Assim, é possível haver até três capturas com um único lance (figura 3). Entretanto, mover uma peça própria para o meio de duas inimigas não constitui suicídio. As peças capturadas são removidas do tabuleiro. Um detalhe importante: ao contrário das peças comuns, o rei só será capturado quando for cercado pelos quatro lados – ou três, se o quarto for o konakis. O conhecido aviso de “xeque”, muito usado no xadrez, tem um similar no Tablut. Sempre que o jogador sueco colocar o rei em posição capaz de atingir a margem na próxima jogada, estará obrigado a avisar o russo, dizendo “raichi!”, para que ele tome providências. Mas, se não houver defesa possível, o aviso será um fatal “tuichi!” – equivalente a “xeque-mate”.