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Time de craques

Nesta edição festiva, é a SUPER quem dá os parabéns. Escalamos uma seleção de onze cientistas, um para cada ano da revista, e assim homenageamos a aventura do conhecimento

Cássio Leite Vieira, Gabriela Aguerre e Flavia Natércia

Apresentamos a você onze cientistas brasileiros que estão à frente de proezas superinteressantes. Eles são os convidados de honra da nossa festa de aniversário. Alguns você não sabe quem são, de outros talvez já tenha ouvido falar. O médico mineiro Giovanni Gazzinelli, nomeado Comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico, pelo presidente da República, em abril, é um dos mais famosos do time. Outros talentos, mais jovens, são revelações recentes na constelação da ciência brasileira. É o caso do matemático carioca Marcelo Viana, 36 anos, virtual candidato à medalha Fields de 1998, o Nobel da Matemática. A todos eles, porém, você vai conhecer muito melhor depois de ler esta reportagem. Uma festa de ciência.

Nossos craques têm em comum o fato de estarem concluindo grandes realizações. Todas superinteressantes. Foram escolhidos por meio de indicações de especialistas, de conversas com “monstros sagrados” e consultas a listas de produtividade e de citações em revistas científicas internacionais. Nós não fizemos um ranking de competências. Portanto, os onze da SUPER não são os “onze mais”. São cientistas notáveis, escolhidos para representar os 26 766 pesquisadores – 16 422 homens e 10 344 mulheres – que, segundo o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), animam a ciência brasileira.

Demos preferência às chamadas ciências aplicadas. Assim, embora a área de Humanidades responda por 21% do total de pesquisadores brasileiros, você não encontrará ninguém do setor no nosso escrete. O objetivo desse corte foi mostrar um lado da ciência brasileira que tem aparecido menos – e que nos traz achados superinteressantes.

Então, prepare-se. Você vai ler uma reportagem extensa, com perfis e entrevistas realizadas no lugar de trabalho de cada um deles. Conversamos com gente de todo o país. Fomos ao Rio de Janeiro, a Porto Alegre, a Salvador e a Belo Horizonte. E fomos mais longe. Fomos até o Centro Espacial Goddard, em Maryland, perto de Washington, nos Estados Unidos, para fotografar o astrônomo paulista Márcio Catelan, de 29 anos. Um brinde! Agora você vai saber o que os nossos craques fazem, onde trabalham, o que pensam e como vivem. A SUPER dedicou dezoito páginas para você, apaixonado pela Ciência. Nesta data querida, parabéns aos cientistas do Brasil.

Genética

A alegria como antídoto

Quem entra na sala da geneticista Mayana Zatz, no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, é saudado por quadros supercoloridos nas paredes. Ninguém diria que aquelas obras de arte foram feitas por portadores de distrofia muscular, uma trágica doença de transmissão hereditária que se caracteriza pela perda progressiva dos músculos. Em lugar de tristeza, as pinturas transmitem alegria. Foi exatamente essa a idéia da pesquisadora ao colocá-las lá.

Desde que optou por estudar o mal, ainda no curso de graduação em Biologia, na Universidade de São Paulo (USP), Mayana aprendeu a conviver com o drama sem fazer drama. E trabalhou muito. Não contente com a atividade no laboratório, em 1981 resolveu fundar a Associação Brasileira de Distrofia Muscular, que dirige até hoje. Seu esforço rendeu-lhe a conquista de recursos para a construção de um novo espaço, dentro da USP, para o atendimento a pacientes e a ampliação do laboratório de genética.

Tudo isso tem muito valor, é claro, mas a maior contribuição de Mayana se dá mesmo é no universo dos tubos de ensaio. Ela já mapeou três genes ligados às distrofias e dezenas de proteínas e enzimas relacionadas com essas e outras doenças. Por isso foi convocada para trabalhar no Projeto Genoma Humano (veja a entrevista ao lado).

Nascida em Israel, Mayana mudou-se ainda bebê para a França, onde morou até os 7 anos. Alfabetizada cedo, mantém até hoje a pronúncia marcada dos erres. Antes de vir para o Brasil já tinha decidido tornar-se médica e pesquisadora. Leitora precoce, adorava conhecer a biografia de cientistas. Diz que realizou metade dos sonhos apenas, mas caprichou. É uma das pesquisadoras brasileiras mais citadas em artigos científicos. Só nos últimos onze anos, seu trabalho foi mencionado 3 547 vezes por outros pesquisadores, de acordo com o Instituto para Informação Científica.

Para ela, no entanto, não é suficiente. Mayana não gosta de demonstrar tristeza. Mas feliz, mesmo, ela só vai ficar no dia que for encontrado um jeito de modificar esses genes defeituosos e curar os pacientes.

Nome: Mayana Zatz

Idade: 51 anos

Formação: graduação em Biologia e doutorado em Genética Humana pela Universidade de São Paulo (USP); pós-doutorado pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles, Estados Unidos

Ocupação: professora titular do Departamento de Genética do Instituto de Biociências da USP

Destaque: mapeamento de genes defeituosos associados às distrofias musculares

“São tantos os genes, tantas as mutações a que estão sujeitos e tão variadas as interações possíveis que impressionante mesmo é nascermos saudáveis.”

Mayana ZatzMedicina

Com a ciência no sangue

Diz a lenda que os bebês do Vale do Jequitinhonha, no norte de Minas Gerais, já nascem com esquistossomose, infecção que ataca o tecido do fígado. O médico e bioquímico Giovanni Gazzinelli, 70 anos, que é de lá, acha graça da fama do lugar, mas sabe que ela traz um fundo de verdade. Ele não nasceu contaminado, mas pegou a doença na adolescência. Curado, acabou se transfomando em um dos mais ferrenhos inimigos do esquistossomo, o protozoário que provoca a infecção.

Membro da Academia Brasileira de Ciências, com 1 092 citações de sua obra nos últimos onze anos, Gazzinelli é sempre lembrado por ter facilitado o trabalho de pesquisadores que, como ele, estudam os ciclos de vida do esquistossomo. Ele inventou um método simples de fazer a larva do verme perder a cauda, transformação essencial para a análise de sua evolução posterior. Além disso, é conhecido pela dedicação à formação de cientistas em Minas Gerais. “A maioria dos pesquisadores orientados por ele foi estudar no exterior”, disse à SUPER o chefe do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais, Ênio Vieira. “Giovanni abriu caminhos.”

Nome: Giovanni Gazzinelli

Idade: 70 anos

Formação: graduação em Medicina e doutorado em Bioquímica pela Universidade Federal de Minas Gerais

Ocupação: pesquisador titular do Centro de Pesquisas René Rachou, da Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Belo Horizonte

Destaque: estudos sobre os ciclos de vida do esquistossomo, parasita causador da esquistossomoseEcologia

Pesquisas doloridas

Teses de mestrado podem ser divididas em categorias. Há as longas, as problemáticas, as chatas, as extenuantes e as intermináveis. Mas o biólogo Carlos Roberto Fonseca, 35 anos, inaugurou, talvez, a modalidade mais bizarra: as doloridas. Metido na Floresta Amazônica para desvendar detalhes da relação entre formigas e plantas, ele foi carimbado com cerca de 1 000 picadas. “As espécies de formiga que estudei não só mordem como também picam. E dói como uma picada de vespa ou abelha”, compara.

Além do risco – e para evitá-lo –, o biólogo tinha que se conformar com um desconforto extra: enfrentar o calor e a umidade da região com camisas de mangas compridas e meias que engoliam a barra das calças. Mas o sofrimento era necessário. “Houve situações em que cheguei a ter mais de 200 formigas andando pela roupa.”

A aventura durou dois anos e meio. No meio dela, Fonseca conheceu o biólogo inglês William Hamilton, considerado o maior evolucionista vivo, que acabou se tornando seu orientador na tese de doutorado. Como o tema se repetiu, lá foi o mineiro transformado em carioca aos 7 anos de volta para a floresta.

O sacrifício valeu, garante. Sua tese foi parar nas páginas de jornais e revistas no Brasil e no exterior. Hoje, depois do pós-doutorado na Austrália, são cerca de quinze trabalhos publicados. E o melhor disso tudo é que mais um passo foi dado no caminho do conhecimento da vasta Amazônia e seus incontáveis habitantes. Uma região ainda obscura mas de importância cada vez maior para o planeta.

Nome: Carlos Roberto Fonseca

Idade: 35 anos

Formação: graduação em Biologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; mestrado na mesma área pela Universidade Estadual de Campinas; doutorado em Ecologia na Universidade de Oxford, na Inglaterra

Ocupação: pesquisador do Departamento de Ecologia do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Destaque: pesquisas sobre a interação entre certas espécies de plantas e de formigasFísica

Relojoeiro nada maluco

Se você quiser encontrar Vanderlei Bagnato, professor titular do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, em São Carlos, interior paulista, o último lugar onde deve procurá-lo é a sua sala. Ele quase nunca está lá. Mais fácil é achá-lo nos laboratórios do Centro de Óptica, dando uma olhada nos experimentos em andamento. Ou nas oficinas de produção de microscópios. Pode também estar dando aula ou conversando com um dos vinte alunos de pós-graduação que orienta. Talvez tenha dado uma rápida fugida da universidade, pois, além das atribuições acadêmicas, ele edita uma revista de ensino de Física e organiza projetos de divulgação científica para o segundo grau.

Agora, se você marcar um encontro, não tema. Bagnato estará lá na hora prometida. É que para dar conta da rotina apertada, o físico tem que ser muito pontual. Quase tanto quanto o relógio atômico que ele e sua equipe terminaram de construir no ano passado, o primeiro do gênero no hemisfério sul, que só vai acumular 1 segundo de atraso no ano 126998.

Seu feito colocou o Brasil entre os países mais desenvolvidos nesse setor de pesquisa. Não foi nada fácil. “A ciência ocupa 95% do meu tempo”, disse Bagnato à SUPER. Isso não deve mudar tão cedo. O pesquisador já se lançou em outro desafio: construir a fonte atômica, um tipo de relógio ainda mais preciso, que marca o tempo a partir da observação de átomos jogados para cima pelo impulso de um laser, como num chafariz. Para funcionar, o sistema precisa trabalhar com átomos resfriados quase ao zero absoluto (-273 graus Celsius), o que não significa que fiquem frios, mas imobilizados. Não é uma técnica simples, mas Bagnato a tira de letra. É dele a primeira tese universitária do mundo sobre congelamento de átomos.

Os 5% de tempo que sobram são gastos em consertos na casa em que vive com a mulher e os dois filhos – sua diversão predileta. Aos domingos, Bagnato cultiva um costume pouco comum entre cientistas: vai à missa. Acha ainda brechas para se dedicar à construção do primeiro microscópio brasileiro de precisão e à pesquisa sobre o uso do laser em medicina. “Com meu trabalho, espero poder ajudar os outros”, afirma. A seus alunos procura transmitir a preocupação com a função social da ciência. “Nós trabalhamos com átomos, mas as pessoas, em princípio, não precisam de átomos. É preciso achar utilidades para eles.”

Se você quiser encontrar o professor Bagnato, portanto, já sabe: ele está por aí, tentando subverter a mais famosa lei da Física. Aquela que diz que um corpo não pode estar em vários lugares ao mesmo tempo.

Nome: Vanderlei Bagnato

Idade: 39 anos

Formação: graduação em Engenharia de Materiais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e em Física pela Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos; doutorado em Física pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT)

Ocupação: professor titular do departamento de Física da USP de São Carlos

Destaque: chefiou a equipe que construiu o primeiro relógio atômico do hemisfério sul

“A busca pela precisão nunca vai acabar. À medida que conseguimos realizar medidas mais acuradas, descobrimos detalhes novos a respeito do comportamento dos átomos. A natureza não é tão evidente.”

Vanderlei BagnatoAgrociências

Entre a pesquisa e o bom emprego

O ano de 1967 foi um marco na história do agrônomo capixaba Avílio Antônio Franco. “Foi quando eu desisti de um empregaço público para me tornar pesquisador”, conta, com o bom humor de quem acertou na escolha. De cara, Franco mergulhou na pesquisa que o entretém até hoje: a capacidade que certos microrganismos, as rizobactérias, têm de absorver nitrogênio do ar e repassá-lo aos vegetais.

Na natureza e na agricultura tradicional, as plantas retiram esse nutriente do solo. Quando o terreno não é bom, a alternativa é apelar para fartas doses de adubo. O sucesso dos experimentos de Franco mudou essa situação. “Desde 1970, o Brasil deve ter economizado cerca de 20 bilhões de dólares em adubos por conta do uso das rizobactérias”, calcula o pesquisador.

Agora, ele está ampliando seu campo de batalha. Preocupado com a degradação de áreas verdes no Brasil, começou a estudar a eficiência das bactérias em reflorestamentos e – bingo! – obteve o mesmo sucesso do passado. Salve 1967, o ano em que o país perdeu um burocrata e ganhou um cientista.

Nome: Avílio Antônio Franco

Idade: 52 anos

Formação: graduação em Agronomia pela Escola Nacional de Agronomia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro; doutorado em solos pela Universidade da Califórnia, em Davis, Estados Unidos

Ocupação: pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa de Agrobiologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em Seropédica, Rio de Janeiro

Destaque: uso pioneiro de bactérias que retiram nitrogênio do ar em reflorestamentosMatemática

Heavy metal para o caos

Pela janela da sala de Marcelo Viana, no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro, a visão da natureza é exuberante. Difícil imaginar lugar melhor para pensar. Mesmo assim, o jovem matemático de 36 anos usa um aditivo extra quando quer mergulhar nos números. Saca da valise um fone de ouvido, daqueles robustos, e põe para tocar dois totens do mais puro heavy metal: as bandas inglesas Led Zeppelin e Deep Purple. “Para descontrair, gosto de Pink Floyd e Bach. Mas para pensar prefiro coisas pesadas”, explica aos incrédulos.

Aos 3 meses de idade, Viana deixou o bairro carioca de Botafogo, onde nasceu, e foi para Portugal, terra de seus pais. Na adolescência, não dispensava um jogo de bola e uma festa, mas também costumava se trancar para ler. “Lia até três livros por dia”, contou para a SUPER.

Naquela época, chegou a namorar a Física, mas “o apelo estético, a organização e a estrutura lógica” da Matemática acabaram vencendo. “Era a mais bonita das matérias”, diz. Formado pela Universidade do Porto, zarpou de volta ao Rio de Janeiro. Em 1987, três anos antes da defesa de sua tese, foi contratado como professor no Instituto de Matemática Pura e Aplicada. Hoje, com 25 trabalhos publicados, alguns nas quatro melhores revistas de matemática do planeta, o membro mais jovem da Academia Brasileira de Ciências concorre, por indicação de matemáticos brasileiros e estrangeiros, à versão 1998 do prêmio da Academia de Ciências do Terceiro Mundo. Além disso, tem sido apontado como virtual candidato à medalha Fields, um tipo de Nobel da Matemática dado, a cada quatro anos, para pesquisadores com até 40 anos. O que ameaça mudar sua vida para bem melhor são seus estudos sobre Sistemas Dinâmicos Não Lineares, nome pomposo e técnico para uma área que é mais conhecida simplesmente como caos. Pelo jeito, no caso dele, o heavy metal funciona.

Nome: Marcelo Viana

Idade: 36 anos

Formação: graduação em Matemática pela Universidade do Porto, em Portugal; doutorado pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro

Ocupação: pesquisador do IMPA

Destaque: pesquisas sobre o comportamento de sistemas caóticosBioquímica

Movido a café e a perguntas

No final deste ano, o bioquímico paulistano Rogério Meneghini vai se aposentar do cargo de professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo. Seus alunos e colegas certamente vão sentir falta do sujeito calmo que a toda hora cruza os corredores com uma caneca na mão. “Sou movido a café”, explicou ele à SUPER antes de se levantar, no meio da conversa, para repor o “combustível”.

Em compensação, a equipe que Meneghini está formando para trabalhar no Laboratório de Luz Síncrotron, em Campinas, interior paulista, deve se alegrar, pois terá muito mais do tempo do pesquisador. O que eles vão fazer lá é procurar respostas para perguntas que a Ciência não pára de produzir – o passatempo predileto do bioquímico, que, nos últimos onze anos, foi citado 1 706 vezes em artigos científicos.

Entre esses desafios, está a visualização da estrutura de proteínas ligadas à malária, à doença de Chagas e à hepatite B, passo fundamental para que se consiga “desenhar” remédios que as impeçam de agir. Meneghini também quer aprofundar os estudos sobre a proteína reguladora do ferro, cuja atividade ele próprio desvendou (veja a entrevista abaixo) e que pode estar ligada ao desenvolvimento do câncer e ao envelhecimento.

Entre um e outro laboratório, o pesquisador organiza, para a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), uma biblioteca eletrônica com o texto completo das 100 revistas científicas nacionais mais significativas. O banco de dados deverá estar disponível na Internet daqui a dois anos.

É tanta ciência na sua rotina que, em casa, o assunto tornou-se quase proibido. Ali, fala-se de tudo, mas principalmente de cinema, literatura e música. Atualmente, ele viaja com o mais recente livro de Carlos Heitor Cony, A Casa do Poeta Trágico. Os CDs com peças do austríaco Gustav Mahler (1860-1911) também não saem do aparelho de som. Embalam as brincadeiras de Meneghini com o filho Tiago, de 5 anos, outro que deverá gostar bastante da sua aposentadoria – ainda que parcial.

Nome: Rogério Meneghini

Idade: 55 anos

Formação: graduação em Química e doutorado em Bioquímica pela Universidade de São Paulo (USP); pós-doutorado na Universidade de Stanford, na Califórnia, Estados Unidos

Ocupação: professor de Bioquímica do Instituto de Química da USP

Destaque: pesquisas sobre a proteína reguladora do ferro, elemento imprescindível na fabricação de proteínas e enzimas pelo organismo

“Sou um bioquímico reducionista. O reducionismo me impede de acreditar em Deus. Tenho certeza de que a ciência encontrará todas as leis fundamentais que regem o Universo.”

Rogério MeneghiniInformática

Computador é com ela mesmo

Bip-bip, bip-bip, bip-bip. Será uma bomba? Um tamagotchi? Não. Quando soa o sinal na sala de Liane Rockenbach Tarouco, a gerente administrativa da Rede Nacional de Pesquisa no Rio Grande do Sul, que organiza os provedores de acesso à Internet ligados às universidades, deve ser meio-dia em ponto. Regular o relógio de pulso para despertar foi o jeito que a pesquisadora arranjou para não perder o único compromisso diário do qual não abre mão: o almoço com a família. Antes de pensar nessa alternativa, ela invariavelmente se distraía na frente do computador até que alguém telefonasse cobrando o atraso.

Liane é assim. Se descuidar, não pára. Formada em Física, foi a primeira mulher a fazer um curso de programação de computador no Rio Grande do Sul e desde então tornou-se uma fera. Implantou o sistema de redes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que coordena até hoje, e implantou o gerenciamento inteligente, que reconhece problemas comuns e sabe como resolvê-los sozinho. É especialista em encontrar alternativas práticas no mundo da Informática. “Gosto de fazer coisas úteis com o computador”, disse à SUPER.

Coordenadora do programa de doutorado em Informática na Educação da UFRGS, com quase uma centena de participações em congressos, duas dezenas de teses orientadas nos últimos cinco anos e cinco livros publicados, Liane é uma das cientistas brasileiras mais respeitadas no setor. Duro é arranjar tempo para tudo. O despertador do meio-dia é pouco: ela precisa mesmo é de um timer, que a avise, de vez em quando, que precisa desligar.

Nome: Liane Rockenbach Tarouco

Idade: 52 anos

Formação: graduada em Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); doutorado em Engenharia Elétrica e Sistemas Digitais pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo

Ocupação: gerente administrativa da Rede Nacional de Pesquisa no Rio Grande do Sul e coordenadora do programa de doutorado de Informática na Educação da UFRGS

Destaque: introdução do uso de inteligência artificial no gerenciamento de redesImunologia

Guerra contra os parasitas

Estima-se que existam 200 milhões de portadores de esquistossomose no planeta. E todo ano surgem 400 000 novos casos de leishmaniose. Para pesquisar essas doenças, a Organização Mundial da Saúde (OMS) selecionou três laboratórios. Um deles é o Serviço de Imunologia do Hospital Universitário Professor Edgard Santos, da Universidade Federal da Bahia (UFBa), criado em 1981 pelo imunologista Edgar Marcelino Carvalho.

Carvalho coleciona dezenas de descobertas. Suas maiores contribuições são as pesquisas sobre a leishmaniose, o mal desencadeado pela picada do mosquito leitzoma, que causa graves lesões à pele, boca e nariz. Já identificou antígenos (substâncias geradoras de anticorpos nos pacientes) e investiga o uso de vacinas e inibidores para o tratamento da doença. Nos últimos onze anos, recebeu 1 822 citações em artigos científicos. Dá aulas na Faculdade de Medicina da UFBa, na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública e no Medical College of Pensylvania, nos Estados Unidos. E é consultor do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Haja tempo. A OMS sabe o que faz.

Nome: Edgar Marcelino Carvalho

Idade: 48 anos

Formação: graduação em Medicina pela Universidade Federal da Bahia; pós-doutorado pela Divisão de Imunologia da Cornell University Medical College, Nova York, Estados Unidos

Ocupação: pesquisador e consultor do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e chefe do Serviço de Imunologia do Hospital Professor Edgard Santos, em Salvador

Destaque: identificação de antígenos ligados à leishmanioseÓptica

Viagens quânticas

Se um dia a máquina de teletransporte da série Jornada nas Estrelas se tornar realidade, isso acontecerá em parte graças a pesquisas como a de Paulo Henrique Souto Ribeiro, do

Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Em seu laboratório, esse mineiro vive numa selva de fios, componentes eletrônicos, fontes de laser e lentes especiais, entre outras parafernálias tecnológicas de última geração. Todo esse arsenal é para criar pares de partículas de luz (ou fótons gêmeos, como preferem os físicos) cujas propriedades – que Einstein qualificava de “fantasmagóricas” – estão na base do fenômeno do teletransporte, obtido recentemente numa experiência feita por pesquisadores austríacos. Pode-se dizer que esse pares de partículas de luz formam um tipo rudimentar e microscópico do famoso equipamento que envia a tripulação da nave Enterprise para o chão dos planetas que visita (veja a entrevista à direita).

Vidrado pela Física, principalmente depois das aulas de Eletromagnetismo do 3º ano do 2º grau, Paulo Henrique acabou optando pelo curso de Engenharia Elétrica. Aluno “caxias”, deixou para trás, sem dó, a bola, a bicicleta e as derrapagens no skate. Só se lembra com certa nostalgia do basquete, que, afirma, chegou a praticar “quase profissionalmente”.

Apesar da dedicação, “curto-circuitou”, segundo suas próprias palavras, no trabalho com manutenção de aeronaves no Aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte. Ou seja, não deu certo. A saída foi levantar vôo para a academia. Uma sábia virada. Depois do pós-doutorado no Laboratório Kastler Brossel, da École Normale, em Paris, sua tese foi premiada como a melhor de 1997 pela Sociedade Brasileira de Física (SBF). “Foi uma surpresa para mim”, disse, modesto, à SUPER.

Os 3 000 reais que ganhou no prêmio Paulo Henrique investiu na compra de móveis para o apartamento recém-alugado no Rio, depois que foi aprovado num concurso e ganhou uma vaga no Instituto de Física da UFRJ. “Era a chance de ter o próprio laboratório e de trabalhar ao lado de profissionais de alto nível”, festeja.

Quando desgruda da literatura técnica, o físico vai a restaurantes, bares e discotecas. Adora bandas de rock “progressivo” como Yes, Genesis, Pink Floyd e Supertramp. Mas, na maior parte do tempo, ele está ocupado, tentando tornar a ficção científica realidade.

Nome: Paulo Henrique Souto Ribeiro

Idade: 32 anos

Formação: graduação em Engenharia Elétrica pelo Centro Federal de Educação Tecnológica, em Belo Horizonte; doutorado em Física Experimental pela Universidade Federal de Minas Gerais

Ocupação: pesquisador do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Destaque: criação, em laboratório, de pares gêmeos de partículas de luz

“Podemos dizer que já conhecemos um mecanismo básico do teletransporte. Mas a máquina em si ainda vai permanecer muito tempo como pura ficção científica.”

Paulo Henrique Souto Ribeiro

Nosso céu tem mais estrelas

Aos 10 anos de idade, o astrônomo Márcio Catelan, pesquisador do Centro Espacial Goddard, da Nasa, a agência espacial americana, já sabia bem o que queria ser quando crescesse. Escondido, costumava subir, tarde da noite, no telhado da casa dos avós, em Mogi das Cruzes, interior paulista, só para olhar as estrelas. Adolescente, passou a levar o melhor amigo ao mesmo telhado, agora munido de mapas estelares, para detectar planetas e constelações.

O curso de Física e o doutorado em Astronomia eram caminhos naturais para ele. Bom aluno, há dois anos mandou o currículo exemplar para a Nasa e foi chamado para trabalhar como pesquisador associado no Centro Espacial Goddard. Lá, desenvolve estudos teóricos que têm por objetivo a avaliação e melhoria da capacidade de instrumentos de observação espaciais. Deve ficar em Washington por mais três anos.

“Márcio é um dos cinco melhores alunos que já tive”, disse à SUPER o professor José de Freitas Pacheco, diretor do Observatoire de la Côte d’Azur, em Nice, na França, que o orientou nas teses de mestrado e doutorado sobre como estimar a idade de aglomerados de estrelas. “Além de tudo, torce para o Palmeiras, como eu.”

O futebol, aliás, é o único assunto que compete com a astronomia na atenção do jovem cientista. Ele até chegou a jogar nos times juvenis do

União Futebol Clube, de Mogi das Cruzes, interior paulista, e do São Paulo Futebol Clube. Mas teve que optar: futebol ou faculdade. Ficou com a academia e com as estrelas. Jogos, agora, só pela Internet.

Catelan também quase não olha mais para o céu, como fazia em Mogi. O que ele faz é analisar imagens que não são exatamente retratos de astros, mas códigos de computador. Com elas, tenta desvendar segredos do Universo.

Nome: Márcio Catelan

Idade: 29 anos

Formação: graduação em Física pela Universidade de São Paulo (USP); mestrado e doutorado em Astronomia pelo Instituto Astronômico e Geofísico da mesma escola

Ocupação: pesquisador associado do Centro Espacial Goddard da Nasa, em Washington, Estados Unidos

Destaque: obteve a Hubble Fellowship, a bolsa mais cobiçada pelos astrônomos

“Quando eu era criança, ver o céu me emocionava. Hoje, fico emocionado tentando entender as coisas que são vistas pelos telescópios lá no alto.”

Márcio Catelan

Muito, muito o que fazer

Para a geneticista Mayana Zatz, o Projeto Genoma, que visa identificar todos os genes humanos, é só o começo.

Por que a senhora resolveu estudar as distrofias musculares?

Durante a graduação em Biologia, eu fiz um estágio no laboratório de aconselhamento genético do professor Osvaldo Frota Pessoa, que mais tarde seria meu orientador. Um dia, apareceu lá uma moça de uma família com vários portadores de distrofia. Ela queria saber se poderia ter filhos doentes. Seus testes indicaram riscos baixos. Para o laboratório, era apenas mais um caso. Para mim, no entanto, foi um desafio que se colocou. Decidi enfrentar e entender aquela doença.

O que costuma dizer às famílias que a procuram?

Digo que nascermos com problemas não é nada impressionante. São tantos os genes, tantas as mutações a que estão sujeitos e tão variadas as interações possíveis que impressionante mesmo é nascermos saudáveis.

É difícil estudar genética humana no Brasil?

Pelo contrário. Existem famílias portadoras muito grandes, que costumam morar junto e receber bem o nosso trabalho, mesmo sabendo que não haverá resultados que as beneficiem em curto prazo. Conseguimos, assim, levantar uma grande quantidade de dados com o consentimento dos envolvidos.

A senhora identifica um ponto alto em sua trajetória?

Não dá tempo de ficar contente com os resultados. Cada pergunta respondida leva a muitas outras. Cabeça de pesquisador é um grande ponto de interrogação.

A senhora participa do Projeto Genoma Humano?

Há quatro anos.

Qual o tamanho do passo que terá sido dado com a conclusão desse projeto?

Um passo grande e pequeno, ao mesmo tempo. É que não basta saber quais são os genes. É preciso entender como interagem uns com os outros e de que forma são afetados por outros fatores, internos e externos. Já se pensa num “Projeto Proteoma”, para compreender as correlações genótipo-fenótipo, ou seja, da base genética herdada e sua expressão depois da interação com o ambiente. Também para descobrir como as mutações afetam as proteínas e como isso se relaciona com o quadro clínico. Às vezes, uma mesma mutação tem efeitos diferentes sobre indivíduos diferentes. O que acontece? Nosso laboratório tem conduzido pesquisas que caminham nesse sentido. Mas a conclusão desses trabalhos, infelizmente, não é para o tempo de minha vida.

A senhora trabalha na detecção e prevenção das distrofias. Mas qual seria o caminho para curá-las?

Provavelmente, o caminho será corrigir o próprio gene. Já conseguiram fazer isso em camundongos portadores da síndrome de Duchenne, a distrofia que estudei com maior profundidade.

A solução é o saneamento

Giovanni Gazzinelli diz que é preciso investir em esgotos e educação para controlar a esquistossomose.

O que falta para a descoberta de uma vacina contra a esquistossomose?

Não há avanços significativos nesta área. As vacinas que estão sendo avaliadas, embora produzam proteção parcial em camundongos, não foram testadas no homem. Ainda faltam conhecimentos básicos fundamentais na obtenção de vacinas contra parasitas. Um dos principais problemas é a eliminação do próprio parasita, que mede cerca de 1 milímetro (o tamanho das células do sistema imunológico gira em torno de 10 e 15 milésimos de milímetro). Outra dificuldade é testar a vacina em seres humanos, já que obviamente precisamos levar em consideração os possíveis efeitos colaterais. O mais indicado para erradicação da moléstia, na minha opinião, é mesmo a prevenção, com investimentos em educação e saneamento básico.

E isso vem sendo feito?

Infelizmente, o Brasil não encarou a esquistossomose da mesma forma que a doença de Chagas, praticamente erradicada. Talvez porque a prevenção seja mais cara, dependa de sistema de esgotos, água encanada e escolas. Atualmente, estima-se que 12 milhões de brasileiros tenham a moléstia – 90% é benigna e o restante grave. É ainda um número alto. Há muito o que fazer para reduzi-lo.

Planta e formiga no mesmo time

O biólogo Carlos Roberto Fonseca provou que os insetos podem até defender os vegetais.

Todo mundo pensa que as formigas destroem as plantas. Mas você estudou um sistema ecológico no qual as duas interagem para benefício mútuo. Esse sistema é uma exceção na natureza?

Não. Em geral, as pessoas associam o comportamento das formigas ao das saúvas, que depredam jardins e plantações. Na verdade, as saúvas é que são exceção. A maioria das formigas não come plantas.

Onde são encontradas essas duplas amigas?

As mirmecófitas, árvores que foram alvo de minha pesquisa, ocorrem em todas as florestas tropicais do mundo. Na América do Sul, estão concentradas na Amazônia, mas podem ser encontradas também na Mata Atlântica.

O que cada uma das partes ganha nessa relação?

As formigas ganham moradia, comida e proteção contra parasitas, predadores, chuva e vento. As plantas obtêm proteção contra os herbívoros, animais que se alimentam de suas folhas. Além disso, as formigas muitas vezes cortam a vegetação em torno da árvore, evitando, por exemplo, que trepadeiras ou outros parasitas vegetais causem danos a elas. Os insetos também levam alimento para dentro das domácias, as cavidades nas quais se abrigam, e parte dessa comida é absorvida pela planta. Além de ser uma forma de fertilização, é também uma reciclagem natural do lixo na natureza.

Correndo à frente do tempo

O físico Vanderlei Bagnato conta como domina e admira os átomos.

Qual a importância de ter um relógio atômico construído no Brasil?

Nosso país é um grande usuário de relógios atômicos, mas sempre compra aparelhos de outras nações. Agora passamos a dominar a tecnologia. Podemos assessorar desenvolvimentos tecnológicos e científicos que dependam desse tipo de aparelho.

A nova geração de relógios atômicos será baseada em átomos frios. Como se consegue resfriá-los?

Por meio de “armadilhas atômicas”, caixas de metal onde os átomos são colocados e depois bombardeados por um conjunto de lasers. Antes de chegar à armadilha, os lasers passam por uma seqüência de lentes que ajudam a selecionar a freqüência exata capaz fazer os átomos entrarem no estado de baixa energia. Eles ficam muito perto do zero absoluto, o que não quer dizer exatamente frios, mas muito lentos, imobilizados.

Por que você ainda não publicou nenhum artigo sobre o relógio atômico que construiu?

A avaliação de um dispositivo desses é feita lentamente. Ele deve funcionar por anos e anos sem falhar. Estamos agora preparando os primeiros artigos para divulgação. Mas já somos considerados no meio internacional como um país que vem investindo no desenvolvimento da metrologia científica.

Até onde você acha que vai a busca pela precisão?

Ela nunca vai acabar. À medida que conseguimos realizar medidas mais acuradas, descobrimos detalhes novos a respeito do comportamento dos átomos. A natureza não é tão evidente.

O que você sente quando vê uma amostra de átomos brilhando na sua frente?

Quando vejo uma daquelas bolinhas de átomos a temperaturas próximas do zero absoluto sempre fico admirado. Não há nada de mágico, mas ninguém pode deixar de achar maravilhoso. Eu admiro muito o domínio que temos sobre entidades tão básicas como os átomos. É fantástico.

Árvores que se viram sozinhas

Incrementadas com bactérias e fungos, as mudas produzidas pelo agrônomo Avílio Antônio Franco crescem em qualquer terreno.

Por que o senhor decidiu ampliar seu trabalho para a área de reflorestamento?

Me dei conta de que cerca de 50% das áreas de exploração agrícola no país encontram-se em grau preocupante de devastação. Em certas regiões, a reversão do problema já é economicamente inviável.

O que pode ser feito para recuperar essa vegetação?

Uma solução é a revegetação com árvores, o reflorestamento. Nesse processo, há duas vantagens importantes. A primeira é que impede a erosão dos solos pela água da chuva, já que as raízes se fixam profundamente. A outra é que a árvore também fornece um produto que pode ser explorado economicamente por quem planta.

Como sua pesquisa ajudaria nesse processo?

Algumas árvores têm a capacidade de se associar a certas espécies de bactéria, que chamamos de rizóbio ou rizobactéria. Esse microrganismo retira do ar o nitrogênio, que é um elemento essencial para o desenvolvimento vegetal, e o incorpora à constituição da planta. Quando os frutos ou as folhas caem, esse elemento chega ao solo e serve como adubo.

O senhor também propõe o uso de fungos. Que papel eles teriam?

Os fungos aumentam a capacidade de se retirar água e nutrientes do solo e incorporá-los à planta.

As árvores crescem mesmo em solos já muito degradados?

Sim. Elas extraem o nitrogênio do ar e são mais tolerantes à falta de água.

Onde a tecnologia já foi usada?

Em áreas degradadas por mineração, por exemplo. As prefeituras do Rio de Janeiro, de Niterói, de Itaguaí, de Volta Redonda e de Resende, todas no Estado do Rio, a usaram com sucesso, tanto em áreas desmatadas quanto em locais onde há perigo de deslizamentos.

Quase tudo é caótico

O matemático Marcelo Viana mostra como é possível tirar proveito disso.

No senso comum, caos é bagunça. Isso vale para os chamados sistemas caóticos?

Não. É uma expressão infeliz. Se um sistema na natureza é caótico, não significa que é completamente imprevisível, mas sim que tem um grau elevado de imprevisibilidade. Para esses sistemas, podemos não saber exatamente em que situação ele irá se encontrar com o passar do tempo, mas podemos saber, utilizando leis matemáticas que o descrevem, qual a probabilidade de ele estar nesta ou naquela situação.

Na natureza, o caos é regra ou exceção?

É regra. Quase tudo tem comportamento caótico.

Você pode dar exemplos?

Podemos citar populações de animais em um sistema ecológico, circuitos elétricos e até mesmo o Sistema Solar. Uma pequena alteração no número de indivíduos de uma espécie pode levar, em médio e longo prazos, a uma alteração abrupta do número de indivíduos de outras espécies ou até a casos de extinção.

É possível tirar benefícios desse comportamento?

Sim. Quando o cometa Halley passou pelo Sistema Solar, a Nasa planejou enviar uma sonda para estudá-lo. Mas o programa sofreu cortes de verbas e não haveria combustível suficiente. Após cálculos complexos, foi possível aproveitar o comportamento caótico dos planetas e alterar minimamente a direção prevista para o lançamento, de modo a usar um mínimo de combustível.

Ferro demais pode fazer mal

O bioquímico Rogério Meneghini investiga o papel do metal no desenvolvimento do câncer e no envelhecimento.

O matemático Marcelo Viana mostra como é possível tirar proveito disso.

Qual a relação entre o acúmulo de ferro na célula e o câncer?

Há alguns anos, descobrimos que existe uma proteína com a função de promover a entrada de ferro nas células quando elas estão precisando dele. Acontece que ela é ativada também em momentos estranhos, quando não há necessidade. Parece que a célula está se suicidando, mas não é isso. Normalmente, quando recebe um sinal para crescer, dado pela chegada de um hormônio, há um pequeno aumento da quantidade de água oxigenada dentro da célula e, naturalmente, a proteína reguladora do ferro é ativada, porque este elemento é uma das condições para o crescimento. Acontece que o aumento de água oxigenada às vezes ocorre sem a ordem do hormônio, em função da exposição a raios X ou ultravioleta, por exemplo. E a célula, condicionada, abre a porteira para o ferro inadvertidamente. Este, por sua vez, reage com a água oxigenada, produzindo radicais livres para os quais as células não têm defesa e que podem afetar o código genético, desencadeando, entre outros problemas, o câncer.

Como é que o oxigênio necessário para viver causa danos às células?

O grosso do oxigênio que respiramos vira água. Um percentual muito pequeno, de 1% a 3%, vira uma espécie de fuligem formada por íons de oxigênio. Esse é o caminho natural de utilização dessa molécula. Há enzimas antioxidantes que protegem as células de dois tipos de íons de oxigênio. O problema é que, contra um deles, o radical hidroxila, não existem defesas. E ele pode afetar o código genético.

Esse processo está relacionado ao envelhecimento?

Sim. Mas não se sabe qual é o seu peso em relação ao relógio biológico.

O que será feito no Laboratório Nacional de Luz Síncroton?

Nele, há um tubo de 10 metros de comprimento onde os elétrons de materiais inorgânicos e orgânicos são acelerados. No fim da viagem pelo tubo, eles giram num anel de 70 centímetros de diâmetro e perdem energia, gerando uma luz com propriedades que podem ser medidas. Isso permite entender os arranjos dos elementos numa proteína de forma precisa. Com base em dados obtidos assim se desenvolveu um dos remédios do coquetel antiAids.

Qual é o papel da ciência hoje?

Sou um bioquímico reducionista. O reducionismo me impede de acreditar em Deus. Tenho certeza de que a ciência encontrará todas as leis fundamentais que regem o Universo.

O conhecimento tem que ser útil

A especialista em Informática Liane Rockenbach Tarouco aposta na solução de problemas.

Como o Brasil está situado no mundo da Informática?

A política nacional de Informática estimulou a formação de recursos humanos que hoje são conceituados no mundo inteiro. O Brasil já produz muitas soluções, por exemplo, na área de automação bancária.

O fato de dependermos da tecnologia alheia atrapalha?

A tecnologia, no ponto em que hoje se encontra, é uma ferramenta. A gente não precisa saber de onde ela é para usá-la.

Qual é o ramo de pesquisa mais promissor na área de Informática?

Uma área em desenvolvimento é a interação com o computador não mais clicando ícones, mas por meio da linguagem natural. Softwares desse tipo, desenvolvidos sob a orientação da professora Rosa Vicari, da UFRGS, têm recebido prêmios. A educação a distância também está exigindo toda uma nova geração de programas inteligentes que forneçam as condições de aprendizagem que a pessoa demanda.

A senhora é famosa por não se contentar com o desenvolvimento da ciência sem resultados práticos…

O que procuro é desenvolver soluções na investigação. É claro que isso tem um cunho de renovação acadêmica, mas com respostas para as lacunas da área operacional. Eu busco o conhecimento não apenas pelo conhecimento, mas pelo grau de utilidade que ele tem.

Vacina traz saúde e economia

Imunização contra leishmaniose custaria 100 vezes menos que o tratamento.

O inseto transmissor da leishmaniose tem sido encontrado fora da área rural, em algumas cidades brasileiras. Quais são elas?

Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Teresina, Fortaleza, Natal, Belém e Manaus.

Pode haver epidemia?

Não, porque o grau de transmissibilidade dessa doença não é muito elevado.

Por que o inseto está deixando seu hábitat natural?

O desmatamento permite a mudança. Hoje, achamos que é possível que o inseto já existisse em áreas urbanas, embora a doença ainda não tivesse aparecido. Com a chegada de cães e indivíduos infectados às cidades, pode ter havido a propagação da infecção.

As vacinas trariam muitas vantagens em relação ao tratamento dessas doenças?

Os custos com o tratamento da esquistossomose e principalmente da leishmaniose são elevados, 200 dólares por paciente. Mas uma dose de vacina deve ficar abaixo de 2 dólares.

Que outros países também têm os parasitas?

A esquistossomose aparece na África e em alguns países da Ásia, como China, Indonésia e, menos freqüentemente, Japão. A leishmaniose ocorre na América do Sul, na América Central e há relatos de casos isolados nos Estados Unidos, no norte da África, na Ásia, no Oriente Médio e na Europa. Com o surgimento da Aids, que debilita o sistema imunológico, a leishmaniose visceral, mais grave, está voltando a ser observada.

Apenas as populações pobres estão suscetíveis à contaminação?

Não. Têm sido documentadas formas graves da esquistossomose em turistas que tomam banho em lagos ou rios com água contaminada, e de leishmaniose em gente que visita áreas onde a doença ocorre.

Teletransportando a informação

O físico Paulo Henrique Souto Ribeiro explica como partículas de luz podem dar notícias a distância.

Qual a relação entre a máquina de teletransporte da Enterprise e a criação de pares de fótons gêmeos?

A primeira evidência experimental do fenômeno do teletransporte foi feita com o emprego de fótons gêmeos. Eles têm uma característica que é a seguinte: se você altera as propriedades de um, vai alterar também as do outro, mesmo que eles estejam distantes entre si.

Certa vez, um físico brincou dizendo que o exemplo mais próximo que conhecemos dessa propriedade seria o vodu. Espeta-se um boneco com uma agulha e a vítima sente a dor, onde quer que esteja…

Poderíamos dizer que ocorre algo semelhante com os fótons gêmeos.

Como você cria os fótons no laboratório?

Essas partículas de luz são geradas por uma fonte de laser. Ao passar o feixe de laser por um cristal especial, surgem os pares. Quando dois fótons chegam simultaneamente aos detectores, sabemos que um par foi criado. Mas a eficiência é muito baixa. Em cada milhão de fótons que o laser dispara, apenas um par é criado.

E como ocorreria o teletransporte?

O par de fótons gêmeos é a máquina de teletransporte. Com ela, por exemplo, é possível teletransportar informação de um terceiro fóton. Veja bem, estou dizendo informação e não massa. E mais: não é a informação no sentido clássico, mas sim a chamada informação quântica, isto é, certas propriedades inerentes aos fótons ou a outras partículas subatômicas, como quantidade de energia que contêm, por exemplo.

Como se dá esse transporte de informação?

Vou dar um exemplo: cria-se um par de fótons gêmeos no Brasil e envia-se um deles à Inglaterra, por navio, avião, correio ou outro meio. Aí, entra em cena um terceiro fóton, que é o objeto que deve ter a informação quântica a ser teletransportada. O primeiro passo é fazer com que o terceiro fóton e o que ficou no Brasil também se tornem gêmeos. O fóton que foi para a Inglaterra passaria a partilhar das mesmas informações quânticas. Para usar uma palavra em moda, criaríamos um clone do terceiro fóton lá na Inglaterra.

Ainda estamos longe do teletransportador?

Sim. Podemos dizer que já conhecemos um mecanismo básico dele. Mas a máquina em si ainda vai permanecer muito tempo como pura ficção científica.

Bisbilhoteiro da idade dos astros

Márcio Catelan conta por que é crucial, para a Astronomia, determinar há quanto tempo nasceram as estrelas.

Qual é a utilidade de saber quantos anos tem um aglomerado de estrelas?

Em primeiro lugar, esse conhecimento nos permite testar teorias sobre a origem, a evolução e o destino do Universo. Em segundo lugar, torna possível deduzir a história da formação da galáxia em seus momentos iniciais. Ambos os temas são de extremo interesse para a Astrofísica Moderna. Me fascinam.

O que acontece se você descobrir que uma dessas estrelas é mais velha do que se imagina que seja o próprio Universo?

Obviamente, isso não vai acontecer! Caso a idade das estrelas que estudo, tal como determinada pela teoria da evolução estelar, indique que elas são mais velhas do que o Universo, então, das duas uma: ou a teoria de evolução estelar, pilar fundamental da astrofísica, está incorreta, ou os modelos cosmológicos precisam ser ajustados para acomodar tanto a idade medida para as estrelas como a taxa de expansão do Universo.

Como você contribui para resolver esse dilema?

Trabalho com a datação de aglomerados de estrelas da chamada População II, onde se encontram os corpos celestes mais velhos e mais pobres em metais da galáxia. Procuro aprimorar os meios de calcular a distância em que se encontram esses aglomerados. Se não soubermos muito bem como fazer isso, não seremos capazes de estimar a idade. E se não formos capazes de estimar sua idade, então nem poderemos descobrir detalhes da história da formação da galáxia, nem sobre os modelos cosmológicos existentes.

Sabe-se que o Telescópio Espacial Hubble irá funcionar somente por mais sete, oito anos. Você está preparado para essa aposentadoria?

A evolução dos telescópios é constante e ininterrupta. Evidentemente, se estamos envolvidos em pesquisa científica, acompanhamos esse processo de aposentadoria de forma natural. Enquanto isso, meu trabalho é o de apresentar propostas de utilização do Hubble, tendo em vista sempre um objetivo científico. Para isso preciso fazer um cuidadoso levantamento da literatura científica. Eu não tenho apenas uma proposta de utilização do Hubble: a cada ciclo (ano) do telescópio, em que as propostas são encaminhadas, costumo ter diversas idéias que terminam como projetos concretos.

O que você faz é muito diferente do que você imaginava quando criança?

Claro. A visão romântica do astrônomo que fica olhando o tempo todo para o céu é, na verdade, incorreta. Quando criança, ver o céu me emocionava. Hoje em dia, fico emocionado tentando entender as coisas que são vistas lá no alto. Isso eu não tinha de condições de fazer na minha infância. Por outro lado, hoje eu não tenho muito tempo para passar horas e mais horas olhando para cima.