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Toupeiras comem cocô para serem mães melhores

Não qualquer cocô, é claro: o cocô da rainha da colônia, que contém o hormônio estradiol – e transforma até a mais relapsa toupeira em uma babá dedicada do filho alheio.

Tubérculos, raízes e o próprio cocô. É esse o cardápio do rato-toupeira-pelado, um mamífero roedor que não é bem um rato, nem bem uma toupeira, e vive nas savanas áridas do leste da África. O dito cujo é notável não só pelas escolhas nutricionais – que são assim frugais pela escassez de alimento em seu habitat –, mas principalmente pela aparência: ele é feio. Muito feio. Não tem pelos, e sua pele rosa enrugada é pontuada apenas por olhos minúsculos e um par de enormes dentes.

Os ratos-toupeiras-pelados vivem em colônias subterrâneas repletas de túneis, compostas por algumas dúzias de indivíduos. Mas suas semelhanças com as formigas não param por aí: eles também tem uma hierarquia social organizada em torno de uma única fêmea (não por coincidência, chamada de “rainha”).

A rainha é a única fêmea fértil de toda a colônia – as demais são estéreis, nunca alcançam a maturidade sexual. O problema é que cada ninhada da matriarca vem com algo entre 12 e 20 filhotinhos, e ela não dá conta de amamentá-los sozinha. É preciso pedir ajuda.

É óbvio que a rainha não pode simplesmente pedir às demais fêmeas que fiquem de olho na criançada. Animais só cuidam de seus filhos por instinto. E o instinto materno é ativado por um hormônio chamado estradiol, que elas são incapazes de produzir justamente porque não ficam grávidas. O jeito é fornecer o estradiol como se fosse um remédio. E o meio de ministrar esse remédio é misturá-lo no cocô – que já é comido normalmente. Repetindo o raciocínio, só para garantir: a rainha faz cocô com estradiol, as fêmas inférteis comem essa receita exótica e se tornam mães de aluguel. Pois é.

Essa hipótese foi comprovada por pesquisadores japoneses. Eles deram cocô com e sem estradiol às fêmeas inférteis de uma colônia experimental, montada dentro de um laboratório. E verificaram que as que comiam o cocô turbinado davam muito mais atenção ao choro de filhotes do que as que ficaram com a receita tradicional. Praticamente uma lavagem cerebral, feita pelo bem do grupo da rainha. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.