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“Não existe aprendizado lúdico, sem esforço”

Como tomar decisões melhores, aprender com mais facilidade e editar nossa memória, numa entrevista com o neurocientista Mariano Sigman.

Como tomar decisões melhores, aprender com mais facilidade e editar nossa memória para minimizar os efeitos de um episódio traumático? Essas e outras respostas estão no nosso inconsciente e A Vida Secreta da Mente, de Mariano Sigman, é um guia de neurociência para entender os bastidores do que acontece nas profundezas do nosso cérebro.

O livro reúne 20 anos de pesquisa em física, educação, psicologia, linguística e neurociência para entender como nosso cérebro funciona. O autor aborda temas polêmicos e complexos da neurociência – como a influência do bilinguismo no desenvolvimento cognitivo das crianças, por exemplo – com dinamismo, bom-humor e uma linguagem acessível aos leitores não-habituès de literatura científica.

Sigman estudou física na Universidade de Buenos Aires, fez doutorado na Universidade Rockfeller e pós-doutorado em Paris. O argentino é um dos grandes nomes da pesquisa em neurociência da educação e da comunicação humana, e é um dos diretores do Human Brain Project, uma iniciativa global de estímulo à pesquisas sobre o cérebro humano. Para ele, a ciência é uma “maneira de compreender os outros e a nós mesmo”.

Conversamos com Mariano Sigman por telefone, confira:

No seu livro, você se refere ao cérebro como uma máquina que constrói realidades. Como a nossa vida é moldada pelo inconsciente?

O cérebro humano se constrói a partir de conexões, aprendizagens, relações e experiências. Poucas dessas variáveis são conscientes e isso está sempre mudando e moldando o que somos. Muitas das coisas que temos medo ou desejo são resultado de como o cérebro processa o mundo e as experiências, de maneira inconsciente. De todo pensamento humano, só a ponta do iceberg é consciente.

Se todos os cérebros humanos têm a mesma forma, o que faz com que cada um de nós aja e pense de forma tão diferente?

Nossos cérebros não são exatamente iguais. Assim como uma pessoa é alta e outra é baixa ou mais flexível, o cérebro também varia de pessoa para pessoa e isso nos dá diferentes predisposições, faz com que as nossas personalidades sejam distintas. O que somos e as decisões que tomamos são uma mistura entre um pacote de genes (as coisas inatas) e um cérebro em constante mudança pelas nossas experiências. Cada conversa, cada abraço muda nosso cérebro e nos torna particular.

Se nosso cérebro é tão mutável, como podemos moldá-lo para formar memórias menos dolorosas de um acidente ou de um abuso, por exemplo?

A memória funciona como um arquivo de computador que está se auto editando e gravando uma versão sobre a outra. Cada vez que alguém evoca uma memória, ela se associa a outra coisa e muda. Se você comeu uma comida que te fez mal, vai associar a comida ao mal estar. Mas como a memória é ampla, não vai ser apenas a comida, você lembrará do lugar, da roupa que estava vestindo, de quem estava com você. E, inconscientemente, vai relacionar esses elementos ao desconforto. Quem sofre de estresse traumático associa a situação dolorosa a uma série de coisas, muitas são claras e conscientes e várias que são inconscientes. Parte da técnica para “editar” é cortar pouco a pouco essa rede de conexões paralelas para não ativarem a memória dolorosa.

Você defende que os bebês que crescem sendo bilíngues estão mais propensos a desenvolver melhor algumas funções cognitivas que as crianças que falam um só idioma. Mesmo que alguém que não foi um bebê bilíngue aprenda várias outras línguas ao longo da vida, o efeito no cérebro será tão poderoso quanto crescer sendo bilíngue?

Suponho que sim, mas não existe comprovação científica para isso. A razão para um bebê bilíngue desenvolver melhor algumas funções é que ele aprende a ter domínio da comunicação entre dois idiomas. Pelo que sei sobre o assunto, acredito que aprender idiomas depois de adulto também deveria melhorar as funções executivas, mas não conheço nenhum estudo que comprove isso. De qualquer forma, vale lembrar que não é por que alguém fala uma só língua que a pessoa vai ter um problema cognitivo. E nem o contrário. Você não vai ter distúrbio algum se aprender um idioma desde muito pequeno. Existem pesquisas que mostram que isso não confunde o desenvolvimento do idioma e ainda melhora o desenvolvimento de algumas funções executivas do cérebro.

Muita gente acredita que quanto mais jovem se aprende alguma coisa, melhor e mais fácil será. Existe algum limite de idade para essa suposta facilidade? Aprender aos 50 anos é tão diferente de aprender aos 10?

A principal diferença entre aprender enquanto se é criança e depois de adulto é a motivação. Quando uma criança pequena começa a falar um idioma ela aprende porque sem isso não se comunica, não se relaciona com os outros. No geral, um adulto aprende por que precisa para o trabalho, para sustentar a casa, mas ele tem outras responsabilidades e acaba postergando. Quando alguém se dedica com afinco aos estudos, a diferença no processo de aprendizado não é tão grande quanto a maioria das pessoas pensa.

Como a neurociência pode ajudar a melhorar a forma como aprendemos?

A maioria das coisas depende de treinamento. Para aprender xadrez, por exemplo, não basta jogar partida atrás de partida. Tem que sentar e estudar os movimentos que não entende, estudar e continuar jogando. Se você quer tocar violão, não é só sair tocando. Tem que entender a técnica, alongar os dedos, fazer exercícios de como movê-los mais rápido. É assim que você treina suas funções cognitivas. Muita gente acha que fazendo é que se aprende, mas não é bem assim. O segredo é acessar repetidamente áreas mais profundas da mente. Ou seja, praticar, praticar, praticar até que em um momento parece mágico, automático. E isso só acontece porque teve muito trabalho antes. Ler, andar de bicicleta, tocar um instrumento, essas coisas que fazemos com muita facilidade depois de aprender, precisaram de muito esforço até se tornarem fáceis.

A repetição é o caminho mais lógico para o aprendizado?

Sim. Acho preocupante que certos conceitos modernos de educação digam que o aprendizado tem que ser lúdico e sem esforço o tempo todo. Não é possível aprender tudo sem esforço. Qualquer esportista, músico ou bailarino sabe que, para ter a liberdade de fazer ludicamente o que fazem, é porque tiveram muito esforço para aprender e se aperfeiçoar. Abandonar a noção de esforço e repetição nas escolas é muito preocupante.

Existe alguma maneira prática para treinar nosso cérebro a tomar decisões mais racionais?

Entender a neurociência é também uma forma de entender como funciona o processo de tomada de decisões. Nossas escolhas e decisões não costumam ser racionais. E são mecanismos que não mudam apenas com força de vontade. Assim como outros processos mentais, é necessário que se trabalhe, persista e, é claro, que se tenha um bom método. E existem várias técnicas para isso. Por exemplo, se você está muito perto do problema que quer solucionar, é provável que vá tomar uma decisão emocional para resolvê-lo. Mas se você estiver em uma discussão e quiser agir racionalmente, o melhor é esperar antes de reagir, tomar certa distância. Para se distanciar o máximo possível também convém analisar a situação estando de fora, pensar na outra pessoa como uma terceira, com outro nome, como se fosse um jogo de papéis. Outra estratégia comprovada para ativar nosso lado racional é tomar decisões em outro idioma. Quanto mais distanciada no tempo, no espaço e no vínculo pessoal, mais o sistema racional toma força e o emocional enfraquece.

Comentários

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  1. Luís Ferracini

    Uma boa notícia faz a gente se sentir bem! FALE INGLÊS EM 8 SEMANAS…! Veja esta página: (http://alcanceafluencia.com). Ela mostra várias técnicas de aprendizagem ACELERADA, usada por grandes personalidades no exterior, mas que quase ninguém compartilha no Brasil! E, você estará FALANDO INGLÊS EM POUCOS DIAS! SENSACIONAL!

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